CIÊNCIA

Estudo indica como as mídias sociais impactam o bem estar dos jovens

Cientistas descobrem que as mídias sociais afetam o bem-estar de forma variada ao longo da adolescência

Helena Dornelas*
postado em 28/03/2022 18:58 / atualizado em 28/03/2022 18:59
O impacto das plataformas preocupou os pesquisadores -  (crédito: Caio Gomez/CB/D.A Press)
O impacto das plataformas preocupou os pesquisadores - (crédito: Caio Gomez/CB/D.A Press)

Jovens podem ser mais vulneráveis aos efeitos negativos do uso das mídias sociais em diferentes momentos da adolescência, de acordo com uma equipe de cientistas da Universidade de Cambridge, da Universidade de Oxford e do Instituto Donders para Cérebro, Cognição e Comportamento. O estudo foi publicado na revista Nature Communications.

O estudo feito no Reino Unido mostrou que meninas experimentam uma relação negativa com o uso de mídias sociais e satisfação com a vida dos 11 aos 13 anos e meninos entre 14 a 15 anos. O aumento do uso de mídia social prevê novamente uma ligação negativa aos 19 anos.

Redes sociais ao longo da história

Agora por mais de uma década, as redes sociais mudaram significativamente a forma como as pessoas passam o tempo, compartilham informações e se comunicam uns com os outros. O impacto das plataformas preocupou os pesquisadores, especificamente se levado e conta os impacto negativo tanto nos indivíduos quanto na sociedade em geral. No entanto, mesmo após anos de pesquisa, ainda há uma incerteza considerável sobre como o uso das mídias sociais se relaciona com o bem-estar.

Nesta perspectiva, uma equipe de cientistas, incluindo psicólogos e neurocientistas, analisou dois conjuntos de dados do Reino Unido que incluem cerca de 84.000 indivíduos com idades entre 10 e 80 anos. Esses dados incluem análises longitudinais, ou seja, dados que rastreiam indivíduos ao longo de um período de tempo, cerca de 17.400 jovens de 10 a 21 anos.

Os pesquisadores procuraram a conexão entre o uso das redes sociais e a satisfação com a vida. Uma das principais percepções é de que existem períodos da adolescência em que o uso de mídia social foi associado a uma diminuição na satisfação com a vida dos jovens cerca de 12 meses depois do recorte pesquisado. De acordo com o estudo, também foi percebido que os adolescentes que têm satisfação com a vida abaixo da média usam mais mídias sociais um ano depois do período indicado.

A relação entre meninas e meninos foi consideravelmente diferente na pesquisa. Para as jovens garotas, o uso de mídia social entre as idades de 11 e 13 anos foi associado a uma diminuição da satisfação com a vida um ano depois, enquanto nos meninos isso ocorreu entre 14 e 15 anos. As diferenças sugerem que a sensibilidade ao uso de mídia social pode estar ligada a mudanças no desenvolvimento, possivelmente mudanças na estrutura do cérebro, ou à puberdade, que ocorre mais tarde em meninos do que em meninas. Mas isso ainda está sendo estudado em mais detalhes pelos pesquisadores.

Tanto em mulheres, quanto em homens, o uso de mídias sociais aos 19 anos foi novamente associado a uma diminuição na satisfação com a vida um ano depois. De acordo com os pesquisadores, nesta idade é possível que as mudanças sociais, como sair de casa, começar a trabalhar, se formar, torne as pessoas particularmente vulneráveis.

Em outros momentos, a ligação entre o uso de mídia social e a satisfação com a vida um ano depois não foi estatisticamente significativa. As diminuições na satisfação com a vida também previram aumentos no uso de mídia social um ano depois, no entanto, isso não muda com a idade e ou difere entre os sexos.

“A ligação entre o uso de mídia social e o bem-estar mental é claramente muito complexa. Mudanças em nossos corpos, como desenvolvimento cerebral e puberdade, e em nossas circunstâncias sociais parecem nos tornar vulneráveis em momentos específicos de nossas vidas” explica o líder de grupo da Unidade de Cognição e Ciências do Cérebro do MRC, da Universidade de Cambridge, que liderou o estudo, Amy Orben. “Com nossas descobertas, em vez de debater se a ligação existe ou não, agora podemos nos concentrar nos períodos de nossa adolescência em que sabemos que podemos estar em maior risco e usar isso como um trampolim para explorar algumas das perguntas realmente interessantes”, acrescentou.

Já Sarah-Jayne Blakemore, professora de psicologia e neurociência cognitiva de Cambridge disse: “Não é possível identificar os processos precisos subjacentes a essa vulnerabilidade. A adolescência é um período de mudanças cognitivas, biológicas e sociais, todas interligadas, dificultando a separação de um fator do outro. Por exemplo, ainda não está claro o que pode ser devido a mudanças de desenvolvimento nos hormônios ou no cérebro e o que pode estar relacionado à forma como um indivíduo interage com seus pares”.

Ponderações e detalhes da pesquisa

Os pesquisadores salientam que, embora suas descobertas mostrem — em nível populacional — que existe uma ligação entre o uso de mídias sociais e o bem-estar, ainda não é possível prever quais indivíduos estão em maior risco. “Nossa modelagem estatística examina médias. Isso significa que nem todo jovem experimentará um impacto negativo em seu bem-estar com o uso das mídias sociais. Para alguns, muitas vezes terá um impacto positivo”, explica o professor de neurociência do desenvolvimento do Instituto Donders para Cérebro, Cognição e Comportamento, Rogier Kievit.

A pesquisa foi apoiada pelo Emmanuel College, o Conselho de Pesquisa Econômica e Social do Reino Unido, a Huo Family Foundation, Wellcome, a Jacobs Foundation, a Wellspring Foundation, o Radboud UMC e o Medical Research Council.

Andrew Przybylski, diretor de pesquisa do Oxford Internet Institute — da Universidade de Oxford —, disse: “Para identificar quais indivíduos podem ser influenciados pelas mídias sociais, são necessárias mais pesquisas que combinem dados comportamentais objetivos com medidas biológicas e cognitivas de desenvolvimento. Por isso, pedimos às empresas de mídia social e outras plataformas online que façam mais para compartilhar seus dados com cientistas independentes e, se não estiverem dispostos, que os governos mostrem que levam a sério o combate aos danos online, introduzindo legislação para obrigar essas empresas a serem mais abrir".

*Estagiária sob supervisão de Ronayre Nunes

 

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