Demi Getschko é um dos nomes mais importantes da história da internet no Brasil. Engenheiro eletricista e cientista da computação, ele participou da implantação da primeira conexão TCP/IP do país, em 1991, tecnologia que permitiu a comunicação entre computadores e tornou possível a integração do Brasil à internet mundial. Desde então, acompanha de perto as transformações da rede, que deixou de ser uma ferramenta usada apenas por universidades e centros de pesquisa para se tornar parte do cotidiano da população no mundo todo.
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Nascido em Trieste, na Itália, em 1953, Getschko construiu sua trajetória acadêmica na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP), onde se formou, fez mestrado e doutorado. Ao longo das últimas décadas, atuou em instituições fundamentais para o funcionamento da internet no país, como a Fapesp, a RNP, o CGI.br (Comitê Gestor da Internet no Brasil) e o NIC.br — nos últimos dois, atua até hoje como conselheiro e diretor presidente, respectivamente. Reconhecido internacionalmente por sua contribuição ao desenvolvimento da internet, Getschko foi o primeiro brasileiro a integrar o Internet Hall of Fame, em 2014. Defensor de uma internet aberta, neutra e baseada em governança multissetorial — modelo em que diferentes setores da sociedade participam das decisões sobre a rede.
Em entrevista ao Correio, na véspera do Dia Mundial da Internet (comemorado em 17 de maio por decisão da ONU), o pioneiro reflete sobre a evolução da rede como uma construção em camadas, a distinção entre a camada básica (IP/TCP/HTTP) e serviços construídos acima dela, e os desafios técnicos e regulatórios para preservar a integridade e o uso responsável do mecanismo, além do avanço da inteligência artificial.
O senhor acompanhou de perto o surgimento da internet no Brasil. Como descreveria aquele momento inicial?
Eu sou um fã da internet desde o começo. Quando ela chegou ao Brasil, ninguém tinha ideia do alcance que teria. A gente trouxe as primeiras redes para cá junto com muita gente envolvida nisso, pessoal do Rio, da Fapesp e de outras instituições. O impulso veio principalmente dos pesquisadores que estudavam no exterior e descobriram algo revolucionário para a época: o correio eletrônico. Naquele tempo, no Brasil, a comunicação acadêmica ainda dependia de cartas, que levavam semanas. Sem rede, interagir com colegas de pesquisa era praticamente impossível. Quando essas pessoas voltaram ao país, trouxeram também a necessidade de recriar aqui aquele ambiente de comunicação rápida. Primeiro vieram experiências com correio eletrônico, Bitnet, Decnet e outras redes. Depois apareceu a internet, que acabou prevalecendo. E ela venceu por uma razão muito importante: diferentemente das redes anteriores, não dependia de um fabricante específico. As redes antigas eram ligadas a empresas. A Bitnet, por exemplo, era associada à IBM; a Decnet, à Digital. Você não conseguia integrar facilmente máquinas de fabricantes diferentes. A internet rompeu com isso. Ela criou uma camada independente do equipamento. O roteador passou a cuidar da comunicação entre as máquinas. Hoje, por exemplo, quem "entende" a internet não é exatamente o computador, mas o roteador Wi-Fi. Essa foi uma ideia brilhante da Arpanet original e acabou tornando a internet superior às outras alternativas.
O que é, afinal, a internet?
Na minha definição, a internet é uma construção em camadas. Na base, existe a camada de telecomunicações: linha telefônica, fibra óptica, satélite e assim por diante. Em cima disso, vem o IP, o Internet Protocol. Quando você chega ao IP, você efetivamente entrou na internet. Depois vêm outros protocolos, como TCP e HTTP, que trabalham sobre essa estrutura. Esse é o núcleo da internet. Acima dele surgem as aplicações: redes sociais, plataformas, aplicativos, mundos virtuais e todo tipo de serviço. Mas essas aplicações não se confundem com a internet em si. Elas nascem, crescem, desaparecem, enquanto a estrutura básica continua funcionando. O exemplo clássico é o Second Life. Houve uma época em que as pessoas compravam terrenos virtuais, criavam negócios, faziam apostas. Parecia que aquilo seria o futuro. Mas não deu certo. Depois vieram os óculos de realidade virtual, que retomam parte dessa ideia e talvez tenham outro destino. Tudo isso são camadas construídas sobre a internet. O importante é preservar a integridade da camada básica. Existe um princípio muito forte na internet original: você respeita as camadas inferiores e, acima delas, tem liberdade para criar o que quiser.
Na sua visão, a internet atual ainda reflete os princípios que orientaram sua criação?
Do ponto de vista técnico, sim. A estrutura básica continua sólida. Ela evoluiu e surgiram protocolos novos, aplicações novas, mas a essência técnica permanece. Agora, o espírito original da internet era muito mais libertário. Existia uma ideia quase romântica de abertura total: qualquer pessoa poderia publicar o que quisesse, criar o que quisesse, e o próprio uso social filtraria o que funcionava ou não. Hoje isso começou a ser questionado. Apareceram abusos, excessos, desinformação, problemas envolvendo crianças e vários outros conflitos. Isso gerou uma tensão nova: como preservar a liberdade sem ignorar os riscos? Por exemplo, quando alguém fala em limitar acesso por idade, surge imediatamente a pergunta prática: como verificar isso? A internet não "sabe" se o usuário é uma criança ou um adulto. Essas preocupações simplesmente não existiam no começo da rede, quando o ambiente era muito mais restrito e acadêmico.
Quais são hoje as suas maiores preocupações em relação ao desenvolvimento da internet?
Minha principal preocupação é evitar confusões entre o que é a internet e o que são os serviços construídos sobre ela. Muitas vezes se tenta atribuir à internet responsabilidades que pertencem às plataformas, aos aplicativos ou até ao comportamento humano. Isso cria soluções difíceis de implementar. Vou dar um exemplo simples: proteger crianças. Todo mundo concorda que isso é importante. Mas como fazer isso numa rede global? Um site hospedado na Malásia ou no Turcomenistão não necessariamente sabe se quem está acessando é uma criança brasileira. Além disso, cada país possui regras diferentes. Na Arábia Saudita, por exemplo, o consumo de álcool é proibido. Isso não significa que toda a internet mundial vá operar segundo essa lógica. O que costuma funcionar melhor são controles locais: pais limitando acesso dos filhos, listas brancas de sites permitidos, filtros domésticos e assim por diante. Porque a internet, no fundo, não é uma entidade única. Ela é um conjunto enorme de sistemas independentes. Por isso, inclusive, falamos em "Comitê Gestor da Internet no Brasil" e não "internet do Brasil". Não existe uma internet separada por país. Existe uma internet global presente em vários países.
E como o senhor vê a atual discussão sobre regulação da internet no Brasil?
A regulação é importante, mas ela precisa atuar onde realmente é possível atuar. Não faz sentido tentar regular TCP, IP ou HTTP. O foco normalmente acaba sendo plataformas muito utilizadas. E mesmo aí há dificuldades, porque essas plataformas não "existem" apenas dentro de um país; elas operam globalmente. Algumas empresas podem colaborar com legislações locais, o que é positivo. Mas impor regras universais para tudo é muito complicado. A internet é global, e o acesso é direto. Então a regulação precisa ser prática e tecnicamente viável, sem deformar o funcionamento da própria rede.
Qual é o papel do NIC.br e do CGI.br nesse cenário?
O NIC.br trabalha com os recursos obtidos a partir dos registros ".br". É uma instituição sem fins lucrativos, sustentada por recursos privados vindos desses registros. Como temos mais de cinco milhões de domínios registrados, conseguimos financiar diversas iniciativas voltadas para a internet brasileira. Isso permite gerar dados, estudos e infraestrutura técnica. O CETIC, por exemplo, faz medições de conectividade significativa. Também estamos estudando a infraestrutura de data centers no Brasil, incluindo capacidade para inteligência artificial. O NIC funciona muito como um termômetro: ele mede, produz informação e disponibiliza dados para que órgãos públicos possam tomar decisões melhores. Já o CGI.br tem um papel mais político e orientador. Foi dele que surgiram iniciativas como o Decálogo da Internet e o Marco Civil da Internet.
A inteligência artificial é realmente o futuro?
A IA não é nova. Ela existe há 50 ou 60 anos. O que mudou recentemente foi a capacidade computacional e a enorme quantidade de informação disponível na internet. Hoje os sistemas conseguem processar volumes gigantescos de dados e gerar resultados impressionantes, especialmente na linguagem. A IA generativa já escreve em português muito bem, muitas vezes melhor do que muita gente. Ela veio para ficar. Mas existem riscos importantes. Um deles é a acomodação intelectual. A pessoa deixa de pesquisar, deixa de analisar, porque a IA já entrega um resumo pronto. Outro problema é que a IA aprende com conteúdos produzidos na internet, inclusive conteúdos gerados por outras IAs. Isso pode criar um ciclo em que erros passam a se repetir e ganhar força. Além disso, a IA raramente admite que não sabe alguma coisa. Muitas vezes ela inventa respostas. Isso deve melhorar, mas ainda é um problema sério. Então a IA é uma ferramenta extremamente útil, mas não pode substituir o senso crítico humano.
E como o jornalismo pode sobreviver nesse contexto?
Eu acho que o jornalismo tende a se fortalecer mais na análise e na curadoria do que apenas na produção bruta de informação. A investigação continua importante, evidentemente. Mas o diferencial do jornalista passa a ser cada vez mais a capacidade de contextualizar, interpretar e organizar os fatos. As pessoas precisam dessa mediação. Precisam de alguém que filtre, compare versões, dê contexto e conduza o debate público. A IA pode ajudar nisso como ferramenta de apoio, assim como antes se usavam enciclopédias ou bancos de dados. O problema começa quando a IA substitui o julgamento do jornalista. Se o profissional entrega à IA a conclusão do texto ou a decisão editorial, ele também está entregando sua credibilidade. E aí o risco é muito grande.
Em 17 de maio comemora-se o Dia Mundial da Internet. A data da foi escolhida por um decreto da Organização das Nações Unidas (ONU), em 2006. O que o senhor gostaria de dizer para a internet?
Que eu continuo fã da rede original. Ela criou um ambiente extremamente fértil, onde cresceram coisas muito boas e coisas muito ruins também. A internet é um excelente substrato. O desafio é manter o senso crítico para separar o joio do trigo. Não dá para dizer que tudo nela é maravilhoso, nem que tudo é péssimo. Você precisa escolher o que é mais sério, mais confiável, mais consistente, e não simplesmente aceitar qualquer coisa que aparece em buscador, rede social ou IA. Se a gente abrir mão dessa capacidade crítica, acaba entregando decisões humanas para máquinas. E isso seria uma péssima ideia.
*Estagiária sob a supervisão
de Lourenço Flores
