No esporte de alto rendimento, cada minuto de recuperação faz diferença. Em ano de Copa do Mundo, quando o calendário é intenso, e os atletas precisam manter o desempenho em seu nível máximo ao longo de várias partidas, reduzir o tempo de cura muscular pode ser um fator decisivo. Para isso, pesquisadores do Instituto de Física de São Carlos da USP, apoiado pela Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii), desenvolveram uma tecnologia que combina compressão pneumática e laser terapêutico para acelerar a recuperação física, aliviar dores e estimular a regeneração dos músculos após treinos e jogos: uma bota.
Segundo o médico ortopedista Mateus Jerônimo, a bota de compressão pneumática é um equipamento que envolve a perna e faz ciclos de compressão e relaxamento, como se fosse uma "massagem mecânica controlada". Essa compressão ajuda a melhorar o retorno venoso e linfático, reduzindo inchaço, sensação de peso nas pernas e acúmulo de líquidos após treinos intensos ou jogos. "No esporte de alto rendimento, isso pode ser útil porque o atleta, muitas vezes, não precisa apenas tratar uma lesão; ele precisa recuperar melhor entre uma partida e outra. Então, ao reduzir edema e melhorar a circulação local, a compressão pode contribuir para uma recuperação muscular mais confortável e mais rápida."
Jerônimo explica que o laser terapêutico, ou fotobiomodulação, utiliza luz em comprimentos de onda específicos para estimular processos celulares. "Em termos simples, a luz pode ajudar a modular a inflamação, reduzir a dor e favorecer a reparação dos tecidos. Não é um 'laser cirúrgico' que corta ou queima; é uma terapia de baixa intensidade, voltada para estimular respostas biológicas."
Segundo ele, quando se combina compressão pneumática com laser terapêutico, a ideia é atuar por dois caminhos: de um lado, melhorar a circulação e a drenagem; do outro, estimular a recuperação celular e controlar dor e inflamação. Isso pode fazer sentido especialmente em atletas submetidos a grande carga física, como em competições curtas e intensas, em que o intervalo entre os jogos é pequeno.
Funcionamento
O físico e pesquisador Vanderlei Salvador Bagnato, idealizador do projeto, disse ao Correio que a integração dessas tecnologias pode potencializar os resultados do tratamento. "Ao integrar compressão pneumática e laser terapêutico em um único equipamento, conseguimos ampliar os efeitos do tratamento e oferecer um protocolo de recuperação mais eficiente, rápido e duradouro", afirma. No contexto esportivo, a inovação pode contribuir para reduzir o risco de lesões e acelerar a recuperação entre partidas, aspecto especialmente relevante em calendários competitivos cada vez mais exigentes.
O pesquisador explicou que as botas de compressão são amplamente utilizadas. Segundo Bagnato, elas podem até fazer um movimento peristáltico, no sentido de estimular a circulação sanguínea, principalmente nas pernas, porém nem sempre um músculo em fadiga precisa só de circulação. Ele precisa também de oxigenação. O sangue tem que entregar oxigênio ao músculo e ajudar a remover substâncias que causam dor, como o ácido láctico.
"No atleta, por exemplo, o cansaço vem do acúmulo de ácido láctico, que gera dor e limita o desempenho. Quando você consome mais do músculo do que ele consegue repor, a dor aparece. O movimento mecânico da bota, ao comprimir e descomprimir, estimula a circulação e ajuda a quebrar a rigidez muscular. É algo parecido com o que um fisioterapeuta faz com as mãos." Entretanto, segundo ele, a mão não consegue, sozinha, melhorar o metabolismo. Ela depende da resposta do corpo. Em alguns casos, isso funciona bem, principalmente em dores por rigidez. Mas em dores de fadiga metabólica, a massagem não é suficiente. "É aí que entra o laser. O laser interage com as mitocôndrias e estimula a produção de ATP, que é a energia das células. Ele acelera o metabolismo e melhora o transporte de substâncias", diz.
"Nós combinamos dois efeitos: o mecânico, já conhecido, e o fotobiomodulador, também conhecido. A fototerapia era usada, por exemplo, em dores lombares com lâmpadas de infravermelho. Hoje, ela está sendo redescoberta e aplicada de forma mais tecnológica. Nós usamos isso em doenças crônicas, como artrite e fibromialgia. Mas ainda não tínhamos aplicado essa combinação de forma completa nos membros inferiores. A bota faz isso: compressão mecânica e laser ao mesmo tempo", afirma o físico.
Para Bagnato, isso é importante tanto para reabilitação quanto para prevenção. Por exemplo, pessoas acamadas podem ter atrofia muscular, e a bota ajuda a simular o movimento. Em UTIs, por exemplo, já se usam botas de compressão para evitar complicações. "A nossa diferença é a adição do laser, que pode trazer efeitos metabólicos e até imunológicos. Isso pode ajudar tanto pacientes quanto atletas, que vivem em alta carga de esforço físico. Dançarinos e atletas sofrem muito com dor e sobrecarga. Em vez de recorrer a substâncias químicas, essa tecnologia pode ajudar o próprio metabolismo a se recuperar. Além disso, choques térmicos e estímulos como banho de gelo também funcionam porque obrigam o corpo a reagir. O laser atua de forma semelhante, mas mais controlada", detalha.
"Eu costumo dizer que o grande avanço tecnológico não vem só de fazer o extraordinário. Vem de fazer o ordinário extraordinariamente", observa o idealizador do projeto.
De acordo com o físico, a bota pode simular parte de um exercício fisioterapêutico, ajudando na circulação e no movimento. A fototerapia está entrando de forma mais robusta na medicina e na fisioterapia. Antes havia certo ceticismo, mas hoje há mais base científica. "A luz interage com o corpo em nível celular, especialmente nas mitocôndrias. Isso influencia processos metabólicos importantes. Hoje já há estudos, inclusive em neurociência, indicando aplicações em doenças degenerativas como Parkinson e Alzheimer. No caso muscular, isso já vem sendo estudado há bastante tempo e funciona bem. Além disso, há liberação de endorfinas, o que ajuda na redução da dor."
Segundo os cientistas, o equipamento pode ser utilizado no pré e pós-operatório de cirurgias de longa duração, como procedimentos bariátricos e plásticos, ajudando a prevenir complicações como trombose venosa profunda e embolia pulmonar. Na área estética, o dispositivo pode auxiliar no tratamento de condições relacionadas à retenção de líquidos, celulite, linfedema e lipedema, ao estimular a circulação sanguínea e favorecer a oxigenação dos tecidos.
* Estagiária sob a supervisão de Marcelo Abreu
