Pesquisadores do Instituto Federal de Tecnologia de Zurique, na Suíça, criaram um "bafômetro" capaz de identificar, por meio de uma única expiração, quando o corpo começa a queimar gordura. O aparelho mede a concentração de acetona no hálito em cerca de 90 segundos com precisão comparável à de exames laboratoriais considerados padrão-ouro. Integrado a um aplicativo para smartphone, o sistema orienta o usuário durante a expiração e verifica a qualidade da amostra, reduzindo erros causados por sopros inadequados ou por contaminação.
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A pesquisa, divulgada na Device, da Cell Press, diz que, embora a acetona seja reconhecida como um biomarcador confiável da cetogênese, sua medição sempre esteve restrita a equipamentos laboratoriais caros e de grande porte ou a dispositivos portáteis com baixa percepção. Por isso, os cientistas focaram o trabalho no desenvolvimento de uma tecnologia prática. Segundo o estudo, cetogênese é o processo metabólico em que o fígado transforma gordura em moléculas chamadas corpos cetônicos, que servem como uma fonte alternativa de energia para o corpo.
Testes e vantagens
O aparelho foi testado em 12 voluntários saudáveis, que forneceram 312 amostras de ar expirado em diferentes condições metabólicas. O equipamento detectou concentrações de acetona entre 0,2 e 45 partes por milhão e apresentou elevada concordância com os resultados obtidos por espectrometria de massa, considerada o padrão-ouro para esse tipo de análise. Em seguida, os pesquisadores avaliaram o desempenho do detector em quatro situações distintas: exercício físico leve seguido de refeição rica em carboidratos; exercício intenso seguido da mesma alimentação; consumo de uma refeição cetogênica rica em gorduras; e jejum prolongado.
De acordo com o estudo, os resultados foram comparados a marcadores sanguíneos, como glicose e corpos cetônicos. Após exercícios leves acompanhados da ingestão de carboidratos, os níveis de acetona permaneceram baixos. Depois de atividades físicas intensas, houve aumento significativo da concentração do composto, indicando maior dependência do organismo da oxidação de gorduras.
Os autores da pesquisa também observaram queda da acetona após o consumo de carboidratos, manutenção de níveis elevados após refeições ricas em gordura e aumento progressivo durante o jejum. O comportamento acompanhou as alterações observadas nos exames de sangue. Entre os principais diferenciais do aparelho está a praticidade. O detector não utiliza agulhas, fornece resultados em aproximadamente 90 segundos, permite diversas medições ao longo do dia e pode ser utilizado em casa.
Precaução
Wandyk Allison, médico integrativo, que atende em Balneário Camboriú, alerta que a presença de acetona no hálito não mede diretamente a quantidade de gordura corporal perdida. "Existe relação fisiológica entre mobilização de gordura, produção de corpos cetônicos e acetona expirada. Estudos anteriores já demonstraram que, quando fatores biológicos e alimentares são adequadamente controlados, a acetona no hálito pode acompanhar alterações no metabolismo de gorduras e ajudar a monitorar programas de perda de peso", afirma o médico.
Segundo Allison, níveis elevados de acetona não significam, por si só, que a pessoa esteja emagrecendo. Isso porque o organismo pode estar utilizando gordura como combustível em situações como jejum ou restrição de carboidratos, sem que haja perda efetiva de gordura corporal. Da mesma forma, uma pessoa pode reduzir o percentual de gordura ao longo de semanas sem permanecer em cetose ou apresentar níveis elevados de acetona durante todo o dia. "Portanto, o exame pode indicar uma mudança momentânea do combustível utilizado pelo organismo, mas não deve ser interpretado isoladamente como prova de emagrecimento."
Além disso, Alisson afirma que o equipamento não substitui os exames laboratoriais tradicionais. Segundo o especialista, cada exame fornece informações diferentes: "Assim, a nova tecnologia deve ser utilizada como ferramenta complementar no acompanhamento metabólico, mas não como substituta dos exames já consolidados". O aparelho já começou a chegar ao mercado, lançado pela empresa Alivion AG, com o nome de Nutrion. O próximo passo é ampliar o dispositivo em ensaios clínicos de grande escala e consolidar seu papel na medicina personalizada, afirmaram os pesquisadores.
*(Estagiária sob a supervisão de Marcelo Abreu)
