Revolução no Vale

Pesquisadores criam método para baratear extração de lítio

O avanço pode beneficiar a produção do metal usado em baterias de celulares, veículos elétricos e sistemas de armazenamento de energia

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A tecnologia reduz o consumo de energia, gera menos resíduos e ainda permite a recuperação de materiais de valor comercial -  (crédito: Mercado Hoje)
A tecnologia reduz o consumo de energia, gera menos resíduos e ainda permite a recuperação de materiais de valor comercial - (crédito: Mercado Hoje)
postado em 20/07/2026 05:14 / atualizado em 20/07/2026 05:30

Pesquisadores do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), nos Estados Unidos, desenvolveram um método para extrair lítio de rochas com menor gasto energético e potencial redução de custos. A tecnologia substitui uma etapa que exige temperaturas próximas de 1.000°C por uma reação química realizada em condições mais brandas. O avanço pode beneficiar a produção do metal usado em baterias de celulares, veículos elétricos e sistemas de armazenamento de energia.

Publicado na revista Science, o estudo busca ampliar o aproveitamento de reservas de lítio que hoje apresentam custo elevado de exploração. Por isso, a pesquisa focou em um mineral rico em lítio presente em rochas duras, o espodumênio. Atualmente, a indústria aquece esse material em altas temperaturas e, depois, utiliza ácido sulfúrico para separar o metal. A técnica é consolidada, mas exige grande quantidade de energia e gera resíduos com compostos de enxofre, que podem causar impactos ambientais quando descartados de forma inadequada.

Processo

A alternativa proposta pelos cientistas utiliza uma solução de fluoreto de amônio — composto formado por amônia e ácido fluorídrico — aquecida a aproximadamente 70°C. A substância reage com a espodumena e rompe sua estrutura, permitindo a liberação do lítio sem o tratamento térmico inicial. Após a reação, os pesquisadores separam os elementos presentes na rocha. O lítio permanece na solução como fluoreto de lítio e pode ser transformado em componentes usados na fabricação de eletrólitos de baterias. Esses materiais permitem o transporte de íons dentro do dispositivo, processo necessário para armazenar e fornecer energia.

O método também aproveita os demais componentes do minério. O silício é convertido em sílica, utilizada na fabricação de vidro, cerâmica e concreto. O alumínio dá origem à alumina, matéria-prima empregada na produção de alumínio e em aplicações industriais. Outro destaque é a recuperação dos reagentes químicos. O fluoreto de amônio pode ser reutilizado no próprio sistema, reduzindo perdas de material e a geração de resíduos. O estudo aponta, porém, que o uso de substâncias corrosivas, como o fluoreto de hidrogênio, exige medidas rigorosas de segurança.

Para o químico Fernando Galembeck, professor emérito da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e membro da Academia Brasileira de Ciências (ABC), a tecnologia aprimora uma linha de pesquisa já conhecida. "No caso do MIT, o espodumênio, um silicato de lítio e alumínio, é solubilizado com fluoreto de amônio, liberando o lítio. Ainda não é adotado porque os custos são mais elevados que no processo hoje dominante, mas poderá tornar-se viável se o fluoreto de amônio puder ser reciclado com alto rendimento. Esse é o atual gargalo", explica.

O pesquisador destaca ainda que a venda dos subprodutos pode contribuir para a viabilidade econômica da proposta. "O aproveitamento de subprodutos, como sílica e alumina, também poderá contribuir para tornar o processo economicamente viável", afirma. De acordo com os autores do estudo, a técnica pode reduzir o custo de processamento da espodumena de cerca de US$ 9 mil para pouco mais de US$ 5 mil por tonelada de lítio produzido. Se alcançar escala industrial, o método poderá diversificar as fontes de obtenção do mineral e fortalecer a cadeia de produção de baterias. (RL)

Curiosidade

Para explicar o princípio químico envolvido, Galembeck recorre a uma comparação com uma cena conhecida da série Breaking Bad: "A química usada no processo do MIT é análoga à de uma cena muito lembrada da série, em que um bandido tenta destruir um cadáver em uma banheira. Tinha-lhe sido recomendado comprar uma banheira de plástico, mas o bandido resolveu caprichar e comprou uma banheira de louça. Como a louça não resiste ao fluoreto (de hidrogênio, no caso), ela se dissolveu com o cadáver dentro e tudo caiu no andar térreo da casa. Vários plásticos resistem muito bem a fluoretos, ao contrário de cerâmicas e de forma geral".

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