
Passadas as comemorações do Natal, que tem o cunho religioso e o Réveillon, que traz o espírito das esperanças renovadas para um novo tempo que chega com o Ano Novo, é preciso lembrarmos que nada muda se nós não mudarmos internamente, se nós mesmos não tivermos a força de vontade para fazer uma vida de fato nova, renovada e próspera.
No entanto, o que não podemos é esquecer, que estamos no Brasil e quando as festas que encerram o ano passam, nosso espírito automaticamente já se prepara para esperar o Carnaval, a maior festa popular do Brasil celebrada em todo o território nacional, com formatos diferentes, cores, sons, fantasias, alegorias e ritmos pertinentes a cada região brasileira, mas a verdade, é que este sim, é um tempo de transformação e mesmo esperançosos por uma vida renovada na festa de Réveillon, o brasileiro se rende aos festejos do carnaval e se esbalda de alegria, nos dias de festa.
Oficialmente 05 dias, mas em muitas cidades e estados, o carnaval chega mais cedo no calendário e em alguns casos, invade o tempo de quaresma, esticando a festa por quase uma semana a mais. Alegria, irreverência, simpatia, música vibrante, calor, paqueras e brasilidade, são um pouco sinônimos do carnaval brasileiro.
Para não mudar tanto o roteiro desta coluna, abro o ano comentando sobre as expectativas do brasileiro para o carnaval, os impactos culturais, turísticos e econômicos que a festa provoca, no meu humilde ponto de vista, perante as cadeias produtivas da cultura e do turismo e tento entender, qual é a origem desta força transformadora, que influencia um país inteiro a só considerar o ano novo, depois que o carnaval acaba por completo.
Se avaliarmos pelo lado do comportamento social, em muito pouco tempo, damos um salto gigantesco entre o brilho do Natal, com sua atmosfera de fé, silêncio interior e reencontros, e atravessada a virada do Réveillon, quando o calendário muda e a esperança se renova quase por obrigação!
Basta o sol um pouco mais quente, um “tum” no tambor e o Brasil retoma um ritual que lhe é próprio. Um rito que não está nos livros sagrados nem nos discursos de fim de ano, mas no corpo, na rua e no imaginário coletivo, a espera pelo Carnaval.
Crescemos ouvindo, que o ano só começa depois dele e talvez não seja exagero, porque, entre as promessas feitas à meia-noite no Réveillon e os planos escritos em cadernos novos, o brasileiro sabe, mesmo que alguns não admitam, que ainda falta atravessar esse território simbólico onde tudo se mistura. Festa, cansaço, excessos e liberdade. Desordem aparente e organização invisível.
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Convenhamos, o Carnaval é mais que uma festa, é uma chave cultural, simples assim. Um momento em que o país se reconhece, a rotina se afrouxa, as hierarquias se confundem e a rua volta a ser espaço de encontro.
E é ali, nas ruas, que o brasileiro se permite ser mais do que o papel que ocupa no resto do ano. O trabalhador vira folião, as fantasias tomam conta das ruas, a irreverência vai para a rua e a cidade vira palco. A linguagem, esta se materializa nos corpos dos foliões. Cada um se expressa de uma forma.
Onde moro, no interior de Minas Gerais, as expectativas começam cedo. Ainda em novembro, surgem os ensaios, os blocos começam seus anúncios, as fantasias começam a ser pensadas, investimentos já vão sendo feitos em tecidos, adereços, novidades, tudo para fugirmos do improviso, afinal, o carnaval é festa, mas também é passarela!
Realmente, as conversas mudam de tom, neste tempo, o planejamento financeiro é levado a sério e inclui passagens, hospedagens, abadás, tecidos, maquiagem, instrumentos. O turismo se aquece e por aqui, é inevitável falarmos da cadeia produtiva, da economia. Os hotéis se preparam como podem, restaurantes ajustam cardápios e pensam nas promoções, os guias, motoristas, artesãos, músicos, costureiras, técnicos de som, iluminadores, produtores culturais, todos entram no mesmo compasso. Estão certíssimos!
O Carnaval movimenta uma engrenagem complexa, muito além da folia visível! Existe um lado da festa, que poucos enxergam, há uma cadeia produtiva extensa e pulsante. Cada tambor que toca carrega trabalho, cada fantasia tem mãos invisíveis, cada desfile é resultado de meses de preparação.
É bonito e nos ajuda a entender melhor a importância da festa e para o começo de ano de muita gente. O Carnaval brasileiro, é economia criativa em estado bruto, é renda circulando. É sobrevivência em muitos casos.
Nas cidades históricas, nos litorais, nas capitais e nos interiores, o impacto é imediato, visível. O turista chega, ocupa pousadas, consome na feira, no bar, no restaurante, compra lembranças e contrata serviços. Quem nunca??
Sem percebermos, ajudamos a sustentar modos de vida que resistem o ano inteiro à espera desses poucos dias de abundância. Culturalmente, o Carnaval é um espelho e o Brasil se reflete ali.
Este espelho revela o Brasil que dança, mas também o Brasil que cria. Revela os ritmos regionais, que se afirmam e Identidades ganham visibilidade. O samba convive com o frevo, o maracatu, o axé, o forró, os tambores afro-brasileiros, as marchinhas, os blocos irreverentes e as escolas que contam histórias em muitas avenidas país afora.
É bonito demais, cada região imprime sua marca. As comunidades reafirmam seu pertencimento. Há uma pedagogia silenciosa nessa festa. O aprendizado do coletivo, o respeito ao ritmo do outro, a convivência na diferença.
Mesmo no excesso, o Carnaval ensina. Em festa, aprendemos, que a rua é de todos, que a alegria pode ser compartilhada e a ficha cai, cultura não é luxo, é necessidade, precisamos vive-la.
Mas de onde vem essa força? Por que o Carnaval tem esse poder de reorganizar o calendário emocional do país?
Difícil responder esta indagação. Talvez porque ele seja herança de muitas camadas. Uma mistura de rituais antigos, celebrações populares, influências de outras culturas, outros continentes.
A verdade é que o Carnaval é uma síntese imperfeita, como o próprio Brasil. Eu acho um mistério, do nada, por uma semana, tudo vale! E o melhor, em plena avenida! É válvula de escape histórica, verdadeiramente, um tempo permitido para extravasar antes do recolhimento.
O Carnaval antecede a quaresma e sim, falarei desse tema muito em breve. E essa proximidade não é acaso, ele marca o limite entre o excesso e a contenção, entre o riso aberto e o silêncio reflexivo. Se procurarem no portal, poderão ler minha coluna falando sobre isso, o tempo da quaresma!
Mesmo para quem não segue a tradição religiosa, essa transição permanece no inconsciente coletivo e o corpo sente. A cidade sente, o país sente, principalmente no interior. Por isso, quando o Carnaval termina, algo muda, a quarta-feira chega mais lenta, com um estado de espírito reflexivo. As ruas se esvaziam e o brilho vai se apagando aos poucos.
Amo o carnaval e já tive essa sensação muitas vezes, chega a quarta de cinzas e fica um cansaço bom, um esgotamento que parece limpeza. É esquisito, porque é como se, depois de dançar, cantar e suar, o brasileiro estivesse pronto para recomeçar de verdade.
É ali que o ano, enfim, começa. O Réveillon devia ser na terça feira gorda! Não por decreto, mas por sensação!
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É na quaresma, que os projetos saem do papel e as rotinas se organizam. As decisões ganham forma e o calendário deixa de ser promessa e vira prática quotidiana.
O Carnaval não resolve os problemas do país, não apaga desigualdades, não substitui políticas públicas, mas ele cumpre uma função essencial, o Carnaval nos lembra que somos humanos. Que precisamos de pausa e de celebração. Que precisamos nos reconhecer uns nos outros.
Talvez possamos concluir, que é por isso que o brasileiro insiste em dizer que o ano só começa depois do Carnaval. Porque antes dele, ainda estamos nos despedindo, de excessos antigos e pesos acumulados. De um ano que ficou para trás, mas ainda não saiu de dentro da gente, sei lá. Vou pensar mais sobre isso!
Depois da festa, o Brasil volta ao trabalho, mas é diferente, um pouco mais leve, mais acessível, menos estressado. No fundo, é isso que faz do Carnaval mais que uma festa popular, mas um tempo de transformação.
Carnaval é um ritual coletivo que, ano após ano, ensina que alegria também é coisa séria.
E você, leva o carnaval a sério? Já escolheu sua fantasia? Nada de deixar pra última hora hein, se jogue e curta a vida!
Até a próxima!
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