Literatura

La Chascona: um tributo à democracia do casal Pablo Neruda e Matilde Urrutia

Casa-museu do poeta chileno no bairro Bellavista, Santiago, é um importante exemplo do que são capazes os tiranos – e do que também é capaz a resistência

La Chascona: um tributo à democracia do casal Pablo Neruda e Matilde Urrutia -  (crédito: Uai Turismo)
La Chascona: um tributo à democracia do casal Pablo Neruda e Matilde Urrutia - (crédito: Uai Turismo)
La Chascona: um tributo à democracia do casal Pablo Neruda e Matilde Urrutia (Foto: Marcelo Spalding)

Dia 23 de setembro de 1973, apenas doze dias depois do brutal assassinato de Salvador Allende, com bombardeios ao Palacio de La Moneda e a tomada de poder pelos militares, liderados por Augusto Pinochet, morreu Pablo Neruda. Sua morte ainda hoje é envolta em mistério, com suspeita de envenenamento por parte do regime.

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Símbolo dessa selvageria foi o que fizeram com La Chascona, casa do poeta em Santiago. Grupos de extremistas pró-ditadura invadiram a casa quando Neruda ainda estava na clínica, antes mesmo de sua morte. Eles saquearam objetos pessoais, reviraram móveis e papéis, quebraram portas, vidros e luminárias, arrancaram canos de água, causando um alagamento que destruiu parte da biblioteca e documentos, derrubaram e tentaram destruir o retrato de Matilde Urrutia pintado por Diego Rivera, que tinha características claramente políticas (o rosto de Allende aparece refletido no olho de Matilde).

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Retrato de Matilde Urrutia (Diego Rivera 1954)

Mesmo assim, La Chascona serviu como ponto de resistência. O velório de Neruda aconteceu na casa parcialmente destruída e com as marcas da invasão visíveis. Mesmo sob vigilância militar, centenas de pessoas acompanharam o cortejo pelas ruas de Santiago, transformando o funeral num dos primeiros atos públicos de protesto contra a ditadura de Pinochet.

Parte dessas informações estão no belo vídeo apresentado aos visitantes de La Chascona, uma das três casas-museu onde viveu o poeta abertas à visitação no Chile. Localizada no bairro Bellavista, Santiago, a casa foi construída em 1953 por Pablo Neruda para Matilde Urrutia, que na época era sua amante. O nome é um apelido carinhoso: La Chascona significa “a descabelada”, referência ao cabelo volumoso e indomável de Matilde.

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Foi erguida encostada no Cerro San Cristóbal, num lote estreito e muito inclinado — condições que dificultavam qualquer projeto convencional. Em vez de brigar com o terreno, o arquiteto fez o oposto: aproveitou os desníveis para criar ambientes no estilo “cabine de navio”, desenhou corredores estreitos, escadas tortas e janelas assimétricas e usou a inclinação para criar vistas únicas de Santiago, como se fosse um convés de barco mirando a cordilheira.

Essa vista hoje não existe mais, tanto pela construção de prédios e centros comerciais mais altos quanto pela poluição, que impede a visibilidade da Cordilheira. Mas a engenhosidade da casa impressiona, é quase um conjunto de cômodos, com destaque para o simpático Bar de Verão, onde o casal recebia convidados, tomava sol, fazia refeições ao ar livre, aproveitando um espaço alto do pátio. Hoje ganhou uma porta de vidro para resguardar os objetos de decoração ali expostos.

Foto: Marcelo Spalding

Para os visitantes, é uma casa de subidas e descidas, com algumas escadas íngremes e irregulares. A combinação de interior e exterior é muito curiosa, estamos dentro da casa e de repente estamos no pátio.

Comparando com as outras casas do poeta, esta casa é muito mais sobre Matilde do que sobre Neruda – e com justiça. Matilde se negou a abrir mão da casa e se dedicou a restaurar La Chascona: recuperou o quadro de Rivera; restaurou móveis e objetos que puderam ser salvos; reconstruiu áreas inteiras tomadas pela água. Fez isso praticamente sozinha, sem apoio do governo, movida por memória, afeto e resistência cultural. Mais tarde, com o fim da ditadura, a Fundação Pablo Neruda assumiu o cuidado da casa, preservando-a como museu.

Foto: Marcelo Spalding

Para visitar seu interior, é preciso sorte ou encarar grandes filas. Conforme relatamos neste texto, não se adquire ingresso com antecedência nem se agenda horários. Já para acessar a loja-livraria, com algumas edições de livros do poeta e outros poetas chilenos, além de diversos souvenirs alusivos às casas e a Neruda, você pode entrar sem necessidade de aguardar ou pagar ingresso ao museu.

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Marcelo Spalding - Uai Turismo
postado em 06/02/2026 06:06
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