
O sol ainda nem despontou e a trilha pede atenção ao essencial: respirar fundo, ajustar a mochila, respeitar o próprio ritmo. Na montanha, a pressa se desfaz em constância, e é nela que pessoas com mais de 35 anos vêm encontrando propósito e bem-estar. De acordo com dados preliminares do CENSO Montanhismo 2025, que entrevistou 2.112 pessoas que praticam atividades de montanhismo (trekking, hiking e escalada), 73,41% delas tem mais de 35 anos (dentro desse grupo, 48,48% dos entrevistados está na faixa dos 35 a 44 anos, 33% entre 45 e 54 anos e 18,51% entre 55 e 95 anos).
Para Aretha Duarte, primeira mulher negra latino-americana a chegar ao cume do Everest, a maturidade joga a favor. Para quem tem 35+ anos, a montanha se torna um laboratório de maturidade. Cada decisão importa: desde o treinamento prévio até saber a hora de recuar. É nesse processo que resiliência, paciência e responsabilidade deixam de ser conceitos abstratos e se transformam em práticas diárias que eu considero como pilares do montanhismo, afirma. Na visão de Aretha, a resiliência deixa de ser um slogan e se torna um método de progressão quando o terreno muda, a inclinação aumenta e a trilha exige foco. Resiliência na montanha é aprender a avançar mesmo quando o terreno piora. Às vezes é um passo curto, outras é um desvio. Essa capacidade de adaptar a rota sem perder o objetivo transforma o jeito como lidamos com desafios no trabalho e na vida, diz.
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A paciência, frequentemente confundida com espera passiva, ganha novo significado no contexto de altitude. Planejar rotas, ler janelas de tempo e dosar energia compõem um repertório que, segundo Aretha, amadurece com a experiência. Paciência não é ficar parado; é agir no tempo certo. Planejar a rota, esperar a janela de tempo, dosar o ritmo do corpo, tudo isso treina a mente para decidir melhor. Depois dos 35, essa inteligência de tempo faz toda a diferença, comenta. O resultado é uma caminhada mais eficiente e segura, com escolhas que poupam corpo e ampliam a qualidade da experiência.
Outro pilar é a responsabilidade, valor que começa no planejamento e deve acompanhar o montanhista durante toda a expedição. Responsabilidade no montanhismo começa no planejamento e termina no deixar nenhum rastro. Checar previsão, revisar equipamento, cuidar do parceiro e respeitar os limites do ambiente. É autocuidado, cuidado com o outro e com a natureza ao mesmo tempo, pontua Aretha. Para quem vive a fase 35+, acostumado a conciliar papéis e prioridades, essa mentalidade integrada encontra terreno fértil e se traduz em decisões mais prudentes.
Benefícios físicos e mentais para quem desafia a montanha
Os ganhos físicos e mentais aparecem cedo no processo da prática do montanhismo. Melhor condicionamento cardiorrespiratório, fortalecimento específico de membros inferiores, estabilidade de core, coordenação e equilíbrio compõem um pacote de benefícios que evolui com consistência. Aretha sintetiza de maneira simples e direta: Gosto de dizer que subir é ganhar fôlego e descer é ganhar joelho. O segredo é progressão segura: rotas compatíveis, treinos consistentes e atenção ao corpo. A maturidade acelera esse aprendizado. No campo mental, a trilha funciona como um treino de presença e regulação. Trilha é um convite ao presente. Você respira, observa, caminha. Essa presença diminui o ruído e ensina a lidar com a ansiedade fora da montanha também, afirma.
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Preparação e planejamento: chaves do sucesso do montanhismo
A preparação adequada sustenta a experiência. Transformar o planejamento na peça central do equipamento é a orientação de Aretha para iniciantes e retornantes. Definir objetivos realistas, mapear o nível atual de condicionamento e escolher roteiros compatíveis criam as bases para uma progressão sólida. Defina objetivos reais para seu momento. Comece com trilhas curtas, ganhe base técnica e evolua com método. Planejamento é a melhor peça do seu equipamento, orienta. Fora da trilha, segundo Aretha, vale investir em fortalecimento de pernas e core, mobilidade de tornozelos e quadris e exercícios de equilíbrio, um trio que reduz risco de lesão e melhora a eficiência na subida e na descida.
A curadoria do equipamento também conta: calçado adequado, mochila bem ajustada, sistema de camadas, proteção solar e hidratação estruturada aumentam conforto e segurança e prolongam a vida útil dos itens. Aprender com quem já trilhou acelera o caminho e reduz atalhos arriscados: Guias, clubes e cursos encurtam o caminho e ampliam a segurança. Maturidade também é saber aprender com quem já trilhou, recomenda.
O poder do coletivo nas trilhas
Nas trilhas, percebe-se uma comunidade cada vez mais plural em idade e objetivos, unida por valores de disciplina, prudência e propósito. O pertencimento a grupos, a troca de experiências e a celebração coletiva enriquecem a escalada e reforçam a natureza colaborativa do esporte. Montanhismo é coletivo por definição. Você aprende a pedir ajuda, oferecer ajuda e celebrar as vitórias em grupo. Esse senso de time é uma escola de empatia e cooperação, diz Aretha.
Aretha observa que o público 35+ chega às trilhas com metas claras e apreço pelo processo, uma combinação que favorece escolhas seguras e experiências significativas. Vejo mais pessoas 35+ chegando às trilhas com objetivos claros e cabeça boa para o processo. Elas entendem que cada etapa tem seu tempo e é justamente isso que a montanha pede. O resultado é uma prática mais segura, prazerosa e sustentável, afirma a montanhista.
Ao fim, a lição que a montanha oferece é também uma filosofia de vida: ajustar o passo ao terreno, aceitar que nem todo cume é para hoje e celebrar o retorno em segurança. A montanha não muda por nossa causa, nós mudamos por causa dela. Para quem tem 35+, essa é uma oportunidade de alinhar energia, foco e valores. É sobre chegar ao cume? Também. Mas, principalmente, sobre voltar melhor do que você subiu, conclui.
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