
Muitos reclamam que ler exige tempo demais, concentração demais, e por isso não leem. Essas pessoas não conhecem o miniconto, ou microconto, gênero que surgiu com força na contemporaneidade e ganhou muito espaço desde a popularização da internet. Vejamos um exemplo de miniconto, da minha amiga Ana Mello.
CINZAS
Quando caiu o último grão, teve a sensação de terminar um livro que não leria mais. Deixou a urna na praça e seguiu sem culpa.
Outro, da Cíntia Moscovich, sem título, publicado no livro Os cem menores contos do século.
A vida inteira pela frente.
O tiro veio por trás.
Como se vê, o miniconto é um conto em miniatura, tem ou sugere uma narrativa com começo, meio e fim, personagem, sequência, ação, provocando aquilo que se quer de um conto: efeito. Está para a narrativa assim como o haicai está para a poesia, é sua síntese, mas mantém os aspectos mais importantes da estrutura dos gêneros mais tradicionais. Sua brevidade extrema exige intensidade, e aí está sua força.
LEIA TAMBÉM: La Sebastiana: a casa de Pablo Neruda em Valparaíso
Pois o que isso tem a ver com viagens? Certa vez estávamos na casa da mãe da Carol em Florianópolis e queríamos conhecer Governador Celso Ramos. Aí bateu aquela ideia meio maluca: por que não reservar uma diária de hotel para passar pelo menos 24 horas por lá? Não seria a primeira vez que faríamos viagens de um só dia, e foi então que relacionei essas viagens ao conceito de microconto. Seriam, assim, as microviagens.
O principal objetivo de uma microviagem é sair da rotina mesmo que estejamos sem tempo ou dinheiro para viagens maiores. Em geral não é uma viagem planejada, sonhada, é uma soma de vontade com oportunidade. Vale ir a alguma cidade próxima a sua casa ou a outro local que você visita bastante; vale voltar a uma cidade já conhecida, mas em outra região ou em um hotel diferenciado; vale até hospedar-se em outro canto da sua cidade para viver novas experiências. E o mais legal é que pela brevidade você mantém a energia a mil, intensidade total, síndrome da escassez acionada o tempo todo.
O conceito microviagem
Claro que pesquisando na internet percebi não ter inventado o termo, até a IA já conhece o conceito de microviagens. Segundo o ChatGPT, microviagem é um conceito simples mas poderoso: são deslocamentos curtos no tempo e/ou na distância que quebram a rotina sem exigir planejamento complexo, muito dinheiro ou vários dias livres. Isso funciona, ainda segundo a IA, porque ativa uma sensação de novidade no cérebro, o que ajuda a reduzir o estresse, melhorar o humor e até estimular a criatividade.
Discordo em um ponto e acrescentaria outro nesta definição. A questão financeira não me parece critério para se optar por uma microviagem: pelo contrário, por vezes a intensidade requer que se vá para um hotel mais caro, que não iríamos normalmente, se compre um ingresso salgado ou se faça alguma experiência inédita em uma cidade próxima (saltar em uma tirolesa, assistir a um musical em setor nobre, assistir no estádio ou ginásio a um esporte que você não acompanha). O fato de ser algo rápido impede que essa aventura estrague muito nosso orçamento ou que a ansiedade nos paralise.
O ponto que eu acrescentaria na definição é o improviso. E poderíamos também acrescentar aqui a oportunidade, então improviso e oportunidade. Quando me perguntam como faço para criar um miniconto, costumo dizer que a ideia fica maturando ali dentro, mas quando ele sai, sai num pulo, num estalo. Pois a iniciativa para uma microviagem tem que ser assim: num impulso, a partir de uma oportunidade, de um convite, sem muito planejamento, até porque pela brevidade nem adianta planejar demais.
Passeio X microviagem
Alguns dirão que o descrito acima nada mais é do que um passeio. Na minha opinião passeios e microviagens são diferentes, e o que diferencia um de outro é o pernoite, assim como o que diferencia o miniconto da sinopse é a totalidade. Ou seja, um miniconto tem ou sugere começo, meio e fim. Em viagens, o mais próximo disso é o pernoite, que nos possibilita viver o local de dia e de noite, fazer algumas refeições, interagir com algumas pessoas.
Um passeio de uma tarde em Gramado ou Veneza vai ser como uma sinopse, um trailer, vai servir para nos deixar com vontade de voltar e conhecer de fato o lugar (ou não voltar). Ou vai cumprir um objetivo específico, como uma ida para determinado parque ou atração turística. Já pernoitar em Gramado ou Veneza vai permitir que se caminhe pelas ruas à noite, que se sinta o clima ao cair da tarde e ao amanhecer, que se procure um restaurante.
LEIA TAMBÉM: Praga e O Segredo Final, de Dan Brown
Claro que possivelmente mesmo com essa diária vai dar vontade de voltar especialmente a Gramado e Veneza , mas o que mais quer um bom miniconto se não fazer o leitor querer ler mais textos como aquele ou daquele autor?
Quer conhecer mais sobre minhas viagens e outros projetos? Me siga no Instagram @marcelospalding
Siga o @portaluaiturismo no Instagram e no TikTok @uai.turismo

