
Um território de riquezas que vai muito além da mineração
Por estes dias estou em trabalho de campo e mais uma vez, no estado do Pará, no sudeste do estado entre as Regiões de Carajás e do Araguaia. Quando estou por aqui, em solo paraense, entendo melhor o Brasil e suas riquezas, por isso, defendo esta reflexão na coluna desta semana muito influenciado pelas experiências e vivências profissionais que venho acumulando ao longo dos últimos cinco anos em minhas constantes incursões na região Norte, especialmente em municípios onde, direta ou indiretamente a atividade mineradora está presente.
Atuando junto a programas socioambientais desenvolvidos por empresas instaladas na região, pude observar de perto uma realidade que muitas vezes passa despercebida até pelos próprios moradores locais.
Existe um patrimônio cultural, ambiental, gastronômico e humano extremamente rico, que convive diariamente ao lado da mineração, mas que ainda carece de organização, valorização e visão estratégica para se transformar em uma alternativa concreta de desenvolvimento regional.
Falamos de uma região composta por municípios com características diversas, como Água Azul do Norte, Bannach, Conceição do Araguaia, Cumaru do Norte, Floresta do Araguaia, Ourilândia do Norte, Pau D’Arco, Redenção, Rio Maria, Santa Maria das Barreiras, Santana do Araguaia, São Félix do Xingu, Sapucaia, Tucumã e Xinguara, mas que concentram riquezas naturais, paisagens belíssimas, cultura popular, um calendário festivo, calor e rios, onde assistir ao pôr do sol é uma experiência de tirar o fôlego.
Ao percorrer comunidades, ouvir histórias, conhecer tradições, sabores, modos de vida e a hospitalidade simples das pessoas que habitam os lugares que visito, fica impossível não perceber que o turismo pode representar um caminho complementar, sustentável e economicamente inteligente para o futuro da região do Araguaia paraense.
Durante décadas, boa parte do sul e sudeste do Pará consolidou sua imagem econômica associada quase exclusivamente à mineração, à força do complexo mineral de Carajás, aos impactos econômicos da cadeia extrativa e a circulação de investimentos ligados ao setor, que de certa forma, moldaram a dinâmica de muitos municípios da região, no entanto, paralelamente a esta realidade, um outro patrimônio permanece vivo, abundante e ainda pouco explorado de forma estruturada, que é o potencial turístico da região do Araguaia.
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O curioso é perceber que esta vocação nunca esteve escondida, ela sempre esteve ali, nas paisagens naturais, nos rios, nas serras, nas comunidades tradicionais, nos sabores da culinária regional, na simplicidade acolhedora das pequenas cidades e no modo de vida profundamente conectado à terra, à água e às tradições populares.
O turismo, neste contexto, não surge como uma invenção recente, mas como uma possibilidade histórica que apenas começa a ganhar compreensão mais estratégica pelos municípios, induzidos pelas políticas públicas de fomento à atividade turística, desenvolvidas no Brasil.
Hoje, a região turística do Araguaia já integra oficialmente o Mapa do Turismo Brasileiro, reconhecimento importante que demonstra o entendimento institucional sobre a relevância do território para o desenvolvimento turístico nacional. Ainda assim, o reconhecimento formal, por si só, não garante fluxo turístico, geração de renda ou desenvolvimento econômico, é justamente aí que reside o grande desafio regional.
O turismo como alternativa econômica possível e necessária
Em regiões fortemente influenciadas pela mineração, discutir a atividade turística é também par e passo, discutir diversificação econômica. Não se trata de substituir uma atividade pela outra, mas de compreender que os territórios precisam ampliar suas possibilidades de geração de emprego, renda e oportunidades.
A atividade turística possui uma característica extremamente estratégica, já que ela distribui renda de forma mais pulverizada. Enquanto determinados setores concentram economicamente seus resultados, o turismo movimenta pequenas cadeias produtivas de maneira simultânea.
O recurso financeiro circula no restaurante, na pousada, no transporte, no artesanato, na produção cultural, no pequeno comércio, nos serviços de alimentação, nas experiências comunitárias e em tantas outras atividades que normalmente não ocupam protagonismo econômico em municípios do interior brasileiro. Falo sempre sobre isso em meus conteúdos e não vou deixar de reforçar esta realidade.
No Araguaia paraense, esta lógica ganha ainda mais força, uma vez que a região possui atributos que dialogam diretamente com as tendências contemporâneas do turismo nacional e internacional. O visitante atual procura autenticidade, contato com a natureza, gastronomia identitária, experiências humanas verdadeiras e destinos menos saturados e o Araguaia paraense possui exatamente isso.
A riqueza da fauna e da flora amazônica, os rios que desenham o território, as histórias populares, os causos narrados pelas comunidades, as manifestações culturais, o modo simples de viver e a gastronomia profundamente regionalizada criam um ambiente extremamente favorável para a construção de experiências turísticas diferenciadas.
O problema é que boa parte desta riqueza ainda permanece invisível até mesmo para os próprios moradores da região.
Qualificação e sensibilização ainda são os grandes desafios
Talvez um dos pontos mais delicados do atual momento do turismo na Região Turística do Araguaia esteja justamente na necessidade urgente de preparação da cadeia produtiva regional, levando em conta, que o turismo não se sustenta apenas com belas paisagens ou bons atrativos naturais. Ele depende de organização, planejamento, qualificação e visão de mercado.
Muitos municípios ainda não compreenderam plenamente que turismo é uma atividade econômica séria e altamente competitiva e que exige atenção, excelência na sua aplicação e competência profissional de toda cadeia de produtos e serviços.
O visitante, ou turista contemporâneo deseja hospitalidade, mas também exige estrutura mínima, informação acessível, segurança, conectividade, experiências organizadas e serviços qualificados, pontuais e garantidos. É exatamente neste ponto que a qualificação da mão de obra especializada se torna fundamental, não apenas para hotéis ou restaurantes, mas para toda a cadeia envolvida direta ou indiretamente com a atividade turística.
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Guias locais, produtores rurais, artesãos, cozinheiras tradicionais, condutores ambientais, empreendedores culturais, transportadores e pequenos comerciantes passam a exercer papel estratégico dentro deste novo cenário.
Os chamados cursos pontuais para suprir essa necessidade, são sempre bem-vindos, mas o que a região necessita, de fato, é de um amplo processo de sensibilização coletiva. É preciso fazer com que os próprios territórios entendam o valor daquilo que possuem.
Muitas vezes, o morador local naturaliza sua cultura, sua culinária, suas histórias e suas paisagens, sem perceber que ali existe um patrimônio de enorme interesse para visitantes de diferentes partes do país e até do exterior.
O esforço institucional para despertar um novo olhar regional
Dentro desta construção, o papel da Secretaria de Estado de Turismo do Pará SETUR, tem sido cada vez mais importante. O esforço institucional desenvolvido pelo governo estadual demonstra uma tentativa clara de regionalizar o turismo paraense, fortalecendo as identidades locais e preparando os municípios para um novo momento econômico.
Para tanto, a estratégia passa pela valorização das vocações regionais e culmina com ações que visam promover destinos de forma integrada e não como atributos isolados. O entendimento é simples, cada território precisa compreender aquilo que o diferencia dos demais e seguramente, a Região do Araguaia possui diferenciais muito próprios.
A região carrega uma identidade marcada pelo encontro entre natureza, cultura popular, ruralidade, tradição oral e diversidade social e todos estes atributos abastecem uma possibilidade infinita de possibilidades para o mercado.
Existe uma atmosfera muito específica nos municípios da Região Turística do Araguaia. Como bom observador no setor, eu destacaria uma combinação entre simplicidade, hospitalidade e força cultural que ainda resiste ao avanço acelerado das transformações urbanas.
Ao incentivar os municípios a se organizarem, estruturarem conselhos como espaços de decisões, fortalecerem governanças, qualificarem empreendedores e ampliarem a visão sobre o turismo, o Estado tenta criar as bases para que o território possa, de fato, transformar potencial em oportunidade econômica concreta.
O futuro do Araguaia talvez já tenha começado
Existe uma percepção crescente no mercado turístico brasileiro de que os destinos do futuro serão justamente aqueles capazes de oferecer experiências mais humanas, sustentáveis e conectadas às identidades locais. O turismo massificado começa a dividir espaço com um visitante mais interessado em vivências genuínas nos espaços visitados.
Nesse cenário, o Araguaia paraense possui uma oportunidade rara nas mãos. A região ainda preserva aquilo que muitos destinos turísticos consolidados já perderam, que é a autenticidade. Talvez o maior desafio agora seja acelerar o entendimento coletivo de que o turismo não é apenas entretenimento ou lazer.
A atividade turística tratada com seriedade e com crença, pode ser uma ferramenta de transformação econômica, de valorização cultural, de fortalecimento comunitário e de geração de oportunidades para milhares de pessoas.
O fluxo turístico constante, organizado e sustentável ainda não chegou com força à região turística d Araguaia, mas os elementos necessários para isso já existem e estão nas margens dos rios, nos quintais das comunidades, nas cozinhas tradicionais, nas histórias contadas sem pressa, na biodiversidade exuberante e no jeito simples de receber.
O que falta talvez não seja potencial e sim perceber, que a oportunidade já está ali, disponível todos os dias, esperando apenas que a própria região aprenda a enxergar o valor extraordinário que sempre carregou dentro de si.
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Olhando para tudo isso, confesso que só aumenta em mim o entusiasmo, como profissional que atua com planejamento cultural, turístico e de estruturação de destinos. Quanto mais me aproximo das cidades da Região Turística do Araguaia, mais percebo que este território reúne praticamente todos os atributos necessários para alcançar resultados extremamente positivos em um curto espaço de tempo.
Havendo disposição por parte dos municípios, capacidade de articulação regional, continuidade nas políticas públicas e comprometimento coletivo com a qualificação e organização da cadeia produtiva do turismo, acredito sinceramente que o Araguaia paraense poderá viver, muito brevemente, um novo ciclo de aquecimento econômico e social, mais diversificado, sustentável e conectado às riquezas que sempre fizeram parte de sua essência.
Até a próxima.
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