
Imagine uma gota de chuva caindo hoje sobre a Serra de Caldas Novas, em Goiás. Em vez de seguir o caminho de rios e córregos, ela começa uma jornada pelo subsolo. Durante cerca de mil anos, essa água atravessa fissuras profundas das rochas, é aquecida naturalmente pelo calor da crosta terrestre e retorna à superfície sob pressão, emergindo a aproximadamente 37°C.
O fenômeno parece saído de destinos conhecidos por suas águas termais, como Japão, Islândia ou Chile. Mas acontece no coração do Cerrado brasileiro e é o responsável por abastecer as nascentes do Parque das Fontes, principal atração do Rio Quente Resorts.
Ali, 18 nascentes alimentam oito piscinas de águas naturalmente quentes abertas 24 horas por dia. A vazão é tão intensa que toda a água é renovada a cada 20 minutos, criando uma experiência rara mesmo em padrões internacionais de turismo termal.
É justamente sobre esse patrimônio natural que o Rio Quente construiu sua história ao longo de mais de seis décadas. Agora, porém, o destino vive uma transformação que vai muito além das águas.
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Nova hotelaria
A Aviva, empresa responsável pelo Rio Quente Resorts, colocou em marcha um plano de investimentos de R$ 1,4 bilhão até 2028. O projeto envolve revitalização de hotéis, criação de novas experiências, expansão de produtos e um amplo reposicionamento de marca.
O símbolo mais visível dessa mudança é o Refúgio Grand Premium, antigo Hotel Turismo, totalmente reformulado e apresentado oficialmente em 2026 como a nova categoria premium do complexo.
A mudança, porém, não aconteceu apenas na arquitetura. Ela também envolveu uma revisão da forma como o complexo se apresenta aos visitantes. “Para quem já conhecia o resort, esses nomes faziam sentido. Mas para o cliente novo, falar em ‘Hotel Pousada’ dava a impressão de algo pequeno, e ‘Hotel Turismo’ não traduzia nossa proposta de valor”, explica Alessandro Cunha, CEO da Aviva.
A percepção levou a empresa a reorganizar toda a hotelaria do destino. Em vez dos nomes tradicionais, os hotéis passam a ser divididos por categorias de experiência. O Refúgio Grand Premium abre essa nova fase e será seguido por outras mudanças, como a transformação do Hotel Pousada em Origem Premium e do Hotel Cristal em Vista Grand Premium.
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Efeito finitude
Durante décadas, viajar foi um dos primeiros itens a sair do orçamento familiar em momentos de dificuldade financeira. Para Alessandro Cunha, CEO da Aviva, essa lógica mudou. “As pessoas não deixam mais de viajar; elas ajustam o tempo de estadia se necessário, mas a viagem se tornou essencial. A pandemia nos lembrou da nossa finitude e da importância de viver momentos reais”, afirma.
A avaliação ajuda a explicar um movimento observado em todo o mercado turístico nos últimos anos. Após o período de isolamento, experiências ligadas ao bem-estar, ao contato com a natureza e à criação de memórias passaram a ganhar espaço nas decisões de consumo.
Ao mesmo tempo, as dificuldades para viagens internacionais durante a pandemia fizeram muitos brasileiros redescobrirem destinos nacionais que antes não figuravam entre suas prioridades. Segundo Cunha, parte desse público passou a perceber que a hotelaria brasileira poderia oferecer padrões de qualidade comparáveis aos encontrados em destinos internacionais.
O resultado aparece nos números. A Aviva registrou faturamento de R$ 1,7 bilhão em 2025, projeta alcançar R$ 1,8 bilhão em 2026 e tem como meta atingir R$ 2,3 bilhões até 2028.
Além da hospedagem
Neste novo posicionamento do Rio Quente, a hospedagem deixa de ser apenas um ponto de apoio para se tornar parte da própria viagem. Durante a visita ao destino, essa proposta se revela ao longo do dia, que pode começar com atividades ao ar livre diante da Serra de Caldas, seguir por trilhas, áreas de contemplação ou pelo Hot Park e terminar em um banho termal sob o céu estrelado no Parque das Fontes.
No Refúgio Grand Premium, essa proposta também aparece na experiência de hospedagem. Localizado próximo ao Parque das Fontes, o hotel reúne áreas de lazer próprias, restaurante, bar e acomodações renovadas em uma das regiões mais tranquilas do complexo.
Entre os destaques estão o Bar das Artes e o restaurante Pequi. Juntos, os dois espaços concentram parte da vida do hotel, reunindo refeições, encontros e momentos de descanso ao longo da estadia.
Ao redor do hotel, a própria paisagem ajuda a explicar a escolha do nome Refúgio. A vegetação mais densa reduz a sensação de movimento presente em outras áreas do complexo, enquanto a presença constante de aves do Cerrado, especialmente as araras que costumam cruzar o céu ao entardecer, reforça a conexão com o ambiente natural.
Preservação
A preservação desse fenômeno ajuda a explicar por que a gestão da água ocupa um papel central na operação do complexo. O destino mantém estações próprias de tratamento de água e efluentes, monitoramento constante dos recursos hídricos, programas de recuperação ambiental, uma horta de aproximadamente seis mil metros quadrados e um corredor ecológico que conecta áreas preservadas da Serra de Caldas Novas.
O cuidado faz sentido. Afinal, o principal diferencial do Rio Quente não pode ser fabricado nem acelerado. A água que abastece o Parque das Fontes depende de um processo geológico que leva séculos para acontecer.
Hotéis podem mudar de nome, receber novas categorias e passar por sucessivas reformas. A água que deu origem a tudo isso, porém, continua seguindo o mesmo caminho sob a Serra de Caldas Novas. Talvez seja justamente por isso que um fenômeno geológico milenar continue atraindo novas gerações de viajantes para o interior de Goiás.
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