
Poucas experiências são tão reveladoras quanto abrir um armário esquecido, uma gaveta antiga ou uma caixa que permaneceu fechada durante anos. Quase sempre encontramos ali objetos cuja existência sequer lembrávamos.
Fotografias amareladas, roupas que já não servem, presentes esquecidos, cartas, agendas, bilhetes, lembranças de viagens, documentos sem utilidade e uma infinidade de pequenas coisas que, em algum momento da vida, pareceram importantes o suficiente para serem guardadas.
Este ano, resolvi fazer umas modificações estéticas em meu apartamento visando mais conforto, mas principalmente otimizar espaços e claro, os prestadores de serviço me convenceram a ir além e nesta pegada, precisei praticamente, esvaziar todos os cômodos de casa.
Foi nesta movimentação de retirada, que percebi, como guardo coisas, papéis, objetos, presentes, cartões, memórias e emoções, materializadas em algo físico, que normalmente não uso, não manipulo, mas que ficam ali, me lembrando das pessoas com que convivi, dos familiares que já se foram e de pequenos momentos, muito bons, mas que já passaram.
Para a reforma em casa, precisei sair de lá e literalmente venho descobrindo, a cada dia de espera pelos novos ambientes, que sobrevivo sem as coisas, sem os objetos, sem as referências e principalmente, que meu cérebro ainda tem espaço para novas emoções, novas pessoas, novas memórias e novas vivências.
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Agora, estou aqui sem saber, se quando voltar para casa, vou mesmo conseguir me inserir nos novos ambientes e em uma nova vida com a tranquilidade que busco!
A curiosa capacidade humana de transformar objetos em sentimentos
Curiosamente, muitos desses objetos remexidos, nunca mais voltaram a ser utilizados. Permaneceram ali apenas ocupando espaço, silenciosamente, como se esperassem um momento que nunca chegou.
Talvez essa seja uma das características mais humanas que possuímos, atribuir significado às coisas.
Na prática, raramente guardamos um objeto apenas pelo seu valor material. Guardamos porque ele representa uma pessoa, um momento, uma conquista, uma dor superada, um amor vivido ou uma fase da vida que não queremos esquecer. O objeto deixa de ser apenas matéria e torna-se um símbolo, e símbolos são difíceis de abandonar.
Será que guardar deixa de ser memória e passa a ser um peso?
Existe uma diferença delicada entre preservar a memória e acumular. A memória é leve, ela nos acompanha onde estivermos. O acúmulo, ao contrário, exige espaço, manutenção e, muitas vezes, produz ansiedade, só que nem sempre percebemos isso.
Quantas casas possuem quartos inteiros destinados apenas a guardar coisas, apelidados de quartinho da bagunça! Quantos armários permanecem fechados há anos? Quantas pessoas mantêm roupas esperando emagrecer, móveis esperando uma reforma, utensílios esperando uma ocasião especial que nunca acontece?
Em muitos casos, guardamos possibilidades, e não objetos.
Esperamos um futuro imaginário no qual tudo aquilo voltará a fazer sentido e enquanto esse dia não chega, seguimos convivendo com pilhas de lembranças que, pouco a pouco, passam a ocupar também espaço emocional. Sem perceber, transformamos a casa em um arquivo permanente da nossa própria história.
O dificílimo exercício do desapego
Desapegar nunca foi simplesmente jogar fora. O verdadeiro desapego acontece quando compreendemos que nossa história não desaparece porque um objeto deixou de existir. A fotografia digitalizada preserva a lembrança mesmo quando o álbum já não existe. A receita escrita pela avó continua viva quando seus sabores permanecem na família.
O relógio do pai, a máquina de costura da mãe ou o primeiro brinquedo, isso tudo possui um enorme valor afetivo, mas não necessariamente precisam transformar a casa em um depósito permanente de memórias.
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Penso, que o maior desafio seja entender, que recordar não depende exclusivamente da matéria. A lembrança mora, antes de tudo, naquilo que vivemos.
Enfrentando a saudade e a superstição
Um outro aspecto desta reflexão, considero um pouco mais delicado. Poucos assuntos despertam tanta sensibilidade quanto os objetos deixados por pessoas que partiram. Há quem conserve um quarto exatamente como era! Ainda bem que não é o meu caso!
Há quem mantenha roupas, perfumes, óculos, documentos, sapatos, relógios e objetos pessoais por décadas, quase como se aquela pessoa pudesse retornar a qualquer momento. Outros evitam desfazer desses pertences por respeito, culpa ou medo.
Nasci e cresci no interior de Minas Gerais e aqui permaneço. Tradicionalmente existem crenças populares bastante difundidas. Algumas famílias acreditam que doar roupas ou objetos muito rapidamente demonstra falta de consideração.
Outras acreditam exatamente o contrário, que manter tudo parado impede que a vida siga seu curso. Há ainda quem atribua aos objetos uma espécie de energia, capaz de conservar presenças ou influências daqueles que já partiram.
Independentemente das convicções religiosas, espirituais ou culturais de cada um, talvez exista um ponto de equilíbrio. Os objetos não carregam a essência das pessoas, eles apenas despertam a nossa memória. Quem realmente permanece são os ensinamentos, os gestos, as histórias compartilhadas e o amor construído ao longo da convivência.
Nenhuma gaveta é capaz de guardar isso.
O que fazer com tantos guardados?
Não existe uma resposta única. Algumas peças merecem permanecer conosco porque contam a história da família, outras podem ser digitalizadas, permanecer expostas ou até ser catalogadas. Há objetos que podem ser doados, permitindo que continuem sendo úteis na vida de outras pessoas.
Outros, dependendo da origem e do porte, podem seguir para museus, instituições culturais, bibliotecas, arquivos históricos ou colecionadores, quando possuem algum valor documental.
Em muitos casos, conversar com amigos, irmãos e familiares ajuda a distribuir lembranças de forma respeitosa, evitando que uma única pessoa carregue sozinha todo o peso de uma herança emocional.
Talvez guardar menos não signifique esquecer mais, ao contrário, signifique preservar aquilo que realmente importa.
Vivemos uma época curiosa. Consumimos mais do que nunca e, paradoxalmente, temos cada vez menos espaço para guardar o que adquirimos. Casas menores, apartamentos compactos e uma rotina acelerada nos obrigam a fazer escolhas que nossos pais e avós talvez nunca precisaram enfrentar.
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Uma coisa esta reforma já me ensinou, jamais conseguirei guardar minhas memórias em um apartamento arquitetonicamente delimitado. Percebo e acredito, que seja justamente esse o convite silencioso que a vida nos faz de tempos em tempos, aprendermos a abrir armários, rever caixas esquecidas e compreender que algumas coisas pertencem ao passado sem deixar de fazer parte da nossa história.
Desapegar não significa abandonar pessoas, negar afetos ou apagar lembranças, significa reconhecer que a memória mais valiosa não cabe em uma estante, nem dentro de uma caixa.
A memória, permanece viva naquilo que somos, nas histórias que contamos, nos valores que herdamos e na capacidade de seguir caminhando, levando conosco apenas o essencial, afinal, a maior riqueza que possuímos nem sempre é aquilo que conseguimos guardar, mas aquilo que jamais poderá ser perdido!
Filosofei! Mas e você, tem olhado para suas gavetas e seus armários à procura de espaços para coisas novas? Pense nisso!
Até a próxima.
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