
Talvez este seja um dos textos menos técnicos que já escrevi e o que mais se aproxima de um relato de viagem. Mas alguns destinos pedem exatamente isso. Existem lugares que encantam pela paisagem e outros que nos fazem refletir sobre a importância do turismo, da conservação ambiental e da nossa relação com a natureza. El Calafate, na Patagônia Argentina, reúne essas características de forma singular.
Mais do que a porta de entrada para um dos cenários naturais mais emblemáticos da América do Sul, a cidade demonstra como o turismo pode impulsionar o desenvolvimento local, diversificar experiências e, ao mesmo tempo, despertar a consciência sobre as mudanças climáticas. Localizada na província de Santa Cruz, a aproximadamente 2.650 quilômetros de Buenos Aires e pouco mais de 2.100 quilômetros, em linha reta, do continente antártico, El Calafate possui cerca de 25 mil habitantes e tem no turismo sua principal atividade econômica. É dali que partem milhares de visitantes para conhecer o Campo de Gelo Patagônico Sul, considerado a terceira maior reserva de água doce congelada do planeta, onde está localizado o famoso Glaciar Perito Moreno.
Estar na Patagônia ajuda a compreender que essa paisagem vai muito além das fronteiras argentinas. Trata-se de um patrimônio natural de relevância continental e um importante indicador dos impactos provocados pelas mudanças climáticas. Moradores relatam que, até poucos anos atrás, as temperaturas máximas durante o verão dificilmente ultrapassavam os 10°C a 15°C. Hoje, dias com temperaturas próximas dos 30°C já fazem parte da realidade local.
Essa transformação também impacta a infraestrutura turística. Muitos hotéis da cidade, construídos para um clima tradicionalmente frio, ainda não possuem sistemas de ar-condicionado, algo que até pouco tempo era desnecessário. Ao visitar o Glaciar Perito Moreno, torna-se inevitável refletir sobre os impactos das mudanças climáticas. A imponência das geleiras continua impressionando, mas a regressão do gelo observada em diversas áreas da Patagônia evidencia que esse patrimônio natural vem sendo transformado por um fenômeno que ultrapassa fronteiras e afeta todo o planeta.
Contemplar essa paisagem é também compreender a urgência de ações voltadas à conservação ambiental e ao enfrentamento da crise climática. Além do Glaciar Perito Moreno, outros gigantes de gelo revelam a dimensão e a diversidade do Campo de Gelo Patagônico Sul. Uma das experiências mais marcantes é a navegação pelo Lago Argentino, percorrendo o Canal Upsala entre enormes icebergs até chegar ao Canal Spegazzini.
O percurso permite observar geleiras suspensas, paredões de gelo e paisagens de rara beleza, mostrando que a relação de El Calafate com os glaciares vai muito além de um único atrativo. A experiência culmina na Base Spegazzini, estrutura inaugurada em 2019 que oferece conforto aos visitantes sem tirar o protagonismo da natureza. Embora os glaciares sejam a grande motivação para a viagem, El Calafate vem demonstrando que um destino pode valorizar seu principal patrimônio natural e, ao mesmo tempo, criar experiências capazes de prolongar a permanência dos visitantes.
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Nos últimos anos, a cidade passou a integrar à sua oferta turística atividades que conectam paisagem, cultura, gastronomia e história, ampliando a forma como o visitante conhece a Patagônia. Apesar dessa diversificação, muitas dessas experiências ainda permanecem pouco conhecidas pelos visitantes. É comum que El Calafate faça parte de um roteiro combinado com Ushuaia, o que leva muitos turistas a permanecerem apenas dois ou três dias na cidade, dedicando praticamente todo o tempo à visita aos glaciares. Com isso, acabam deixando de conhecer outros atrativos que revelam a cultura local, a gastronomia, a história e diferentes paisagens da região, experiências que enriquecem a viagem e permitem compreender a Patagônia para além de seus impressionantes campos de gelo.
Um destaque é o passeio em veículos 4×4 pelo Parque Excursión, que percorre a margem do Lago Argentino até o Mirador del Acantilado, de onde se avista a Cordilheira dos Andes. O roteiro inclui ainda um sítio arqueológico com pinturas rupestres, permitindo uma imersão na história dos primeiros habitantes da região, além de uma experiência gastronômica diferenciada em uma gruta natural, com pratos típicos da Patagônia, como a carne de guanaco, acompanhada de vinhos produzidos na região. Entre as experiências mais recentes oferecidas pelo destino está o passeio em veículos UTV até o Cerro Huyliche, o ponto mais alto de El Calafate. O trajeto percorre o cânion do Arroyo Calafate até os Balcones, proporcionando vistas panorâmicas do Lago Argentino, do Campo de Gelo Sul e da Cordilheira dos Andes, incluindo montanhas icônicas como o Fitz Roy e o Cerro Torre.
A experiência é encerrada na Estância Huyliche com um almoço típico da região e sobremesas preparadas com o tradicional fruto calafate. Existe um conhecido ditado local que diz: “Quem come calafate sempre volta“. A fruta, que dá nome à cidade, tornou-se um símbolo da hospitalidade patagônica e faz parte da identidade gastronômica do destino. Talvez o maior exemplo deixado por El Calafate esteja na gestão do turismo. A cidade poderia concentrar sua promoção apenas no Glaciar Perito Moreno, mas escolheu diversificar sua oferta, criando produtos que estimulam maior permanência dos visitantes, fortalecem a economia local e distribuem os benefícios do turismo para diferentes segmentos.
Outro aspecto que chama atenção é o cuidado com o acolhimento e a valorização da gastronomia local. Durante as experiências gastronômicas, os visitantes são apresentados aos sabores e produtos típicos da Patagônia ao longo da refeição e, ao final, o chef é convidado a se apresentar e receber o agradecimento dos visitantes. Esse momento aproxima o turista dos profissionais que estão por trás da experiência e reforça a conexão entre a culinária, a cultura e a identidade do destino.
El Calafate demonstra que um destino turístico de sucesso vai além da promoção de suas paisagens. A partir de seu principal patrimônio natural, os glaciares, a cidade transforma a contemplação da natureza em experiências memoráveis, conciliando desenvolvimento turístico, valorização ambiental e qualificação contínua da sua oferta. E fica um convite: conhecer os glaciares da Patagônia é uma experiência que vai muito além da contemplação. É também uma oportunidade para compreender a importância da conservação ambiental e perceber que algumas paisagens do planeta estão mudando mais rápido do que gostaríamos. Eles continuam grandiosos, continuam emocionantes, continuam capazes de mudar a forma como vemos o mundo. Mas também estão diminuindo, ano após ano. E talvez essa seja a maior lição que a Patagônia me deixou: existem lugares tão singulares, tão importantes para a história natural do planeta, que não deveriam ser deixados para depois.
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