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Viagem solo feminina ganha espaço e muda o perfil do turismo no Brasil

Pesquisa inédita do Ministério do Turismo mostra que quatro em cada dez brasileiras já viajaram sozinhas, enquanto segurança e autonomia aparecem entre os principais critérios na escolha dos destinos.

Viagem solo feminina ganha espaço e muda o perfil do turismo no Brasil -  (crédito: Uai Turismo)
Viagem solo feminina ganha espaço e muda o perfil do turismo no Brasil - (crédito: Uai Turismo)
Viagem solo feminina ganha espaço e muda o perfil do turismo no Brasil (As mulheres que viajam sozinhas estão transformando a dinâmica do setor hoteleiro e das agências nacionais. (Foto: Divulgação/Uai Turismo))

Durante muito tempo, viajar sozinha parecia depender de uma combinação difícil: tempo disponível, dinheiro, coragem e, principalmente, alguém disposto a acompanhar. Quando essa companhia não aparecia, muitas vezes a viagem simplesmente ficava para depois.

Esse cenário está mudando. A viagem solo feminina deixou de ser uma experiência vista como exceção e passou a fazer parte da realidade de milhares de brasileiras. Uma pesquisa inédita do Ministério do Turismo, realizada em parceria com a Unesco, mostra a dimensão desse movimento: 41,8% das entrevistadas afirmaram já ter viajado sozinhas no Brasil ou no exterior.

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O levantamento ouviu 2.712 mulheres de todas as regiões do país entre agosto e setembro de 2025, revelando que 72,6% delas viajam sozinhas por lazer. O resultado deu origem, em março de 2026, ao primeiro Guia para Mulheres que Viajam Sozinhas, uma publicação de 72 páginas lançada pelo Ministério do Turismo.

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Mais do que apresentar números, a pesquisa ajuda a entender o que está por trás dessa mudança. Para muitas mulheres, viajar sozinha não significa necessariamente estar isolada. É ter liberdade para decidir para onde ir, quanto tempo permanecer em determinado lugar, o que visitar e até quando simplesmente não fazer nada.

Uma viagem que começa pela autonomia

Entre as brasileiras que participaram da pesquisa, 31,4% disseram viajar sozinhas com alguma frequência. O lazer aparece como principal motivo, citado por 72,6% das entrevistadas. Logo depois vêm independência e liberdade, mencionadas por 65,1%.

A idade também ajuda a desenhar esse novo perfil. A maior parcela das viajantes solo está entre 35 e 44 anos, faixa que representa 34,6% das entrevistadas. Em seguida aparecem as mulheres de 45 a 54 anos, com 22,1%, e as de 25 a 34 anos, que correspondem a 21,7%.

São números que ajudam a desmontar uma ideia ainda comum de que viajar sozinha seria um comportamento restrito às mulheres mais jovens.

A experiência também ganhou espaço entre mulheres maduras, profissionais que viajam a trabalho, mães e viajantes interessadas em segmentos específicos, como gastronomia, bem-estar, natureza e cultura.

No levantamento, 67,7% das entrevistadas não têm filhos. Entre as mães com filhos menores, 58,5% disseram sentir-se seguras ao viajar com eles.

O destino precisa fazer sentido para quem viaja sozinha

A viagem solo também está mudando a maneira como os destinos são escolhidos.

Quando não há necessidade de conciliar gostos e horários com outra pessoa, a viajante pode montar um roteiro muito mais próximo dos próprios interesses. Museus, centros históricos, trilhas, gastronomia, praias, experiências de bem-estar e pequenas cidades entram na programação conforme aquilo que desperta sua curiosidade.

O Guia para Mulheres que Viajam Sozinhas mostra que 68,3% das entrevistadas têm interesse em atividades culturais, enquanto 64,2% demonstram interesse por natureza e ecoturismo. As viagens de bem-estar também aparecem com força, alcançando 44,9% das preferências entre as viajantes solo.

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Essa diversidade é importante para o setor turístico porque mostra que não existe uma única turista solo. Há mulheres que procuram aventura, outras que querem descansar. Algumas viajam para se conhecer melhor. Outras aproveitam uma viagem de trabalho para estender a estadia e conhecer o destino.

A viagem pode até começar com uma passagem aérea comprada por necessidade profissional e terminar com alguns dias de férias que não estavam nos planos originais.

Segurança ainda é o principal obstáculo

Se a autonomia ajuda a explicar o crescimento das viagens solo, a segurança mostra por que essa transformação ainda não acontece sem obstáculos.

Segundo a pesquisa do Ministério do Turismo e da Unesco, 62% das mulheres entrevistadas já deixaram de viajar sozinhas por questões de segurança. Além disso, 61% afirmaram ter vivido alguma situação durante uma viagem desacompanhada que as fez sentir inseguras.

O dado muda a conversa. Viajar sozinha não depende apenas da disposição individual da turista. Também depende da estrutura encontrada no destino.

Transporte, iluminação pública, informações confiáveis, atendimento, hospedagem, acesso a serviços de emergência e preparo dos profissionais do turismo fazem parte dessa equação.

Por isso, a segurança deixa de ser apenas uma preocupação da viajante e passa a ser também uma responsabilidade compartilhada por hotéis, restaurantes, empresas de transporte, atrativos e demais integrantes da cadeia turística.

O turismo começa a olhar para essa viajante

O próprio mercado já percebeu a mudança.

Em 2025, o Ministério do Turismo firmou uma parceria com a Associação Brasileira da Indústria de Hotéis (ABIH) para incentivar tarifas especiais destinadas a mulheres que viajam sozinhas. A iniciativa previa descontos em hospedagens participantes e buscava estimular esse segmento turístico.

A criação de produtos específicos, entretanto, não deveria significar simplesmente colocar a palavra feminino em um pacote turístico.

A viajante solo quer, antes de tudo, ser tratada como viajante. O que muda são algumas necessidades específicas relacionadas à segurança, acolhimento e facilidade de acesso a informações.

Em outras palavras, não basta oferecer um quarto. É preciso pensar em como aquela mulher chega ao hotel, como encontra transporte, quais informações recebe sobre o entorno e como consegue ajuda se alguma coisa sair do planejado.

Uma tendência que também aparece fora do Brasil

O movimento brasileiro acompanha uma transformação observada em outros mercados.

O relatório State of Solo Travel 2025, da Hostelworld, aponta que as mulheres representam 60% dos viajantes solo consultados pela plataforma. Entre elas, aparecem com força motivações relacionadas a autoconhecimento, confiança e conexão cultural. O levantamento também mostra que a segurança continua sendo uma das principais barreiras para as mulheres que pretendem viajar sozinhas.

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Outra estimativa, da Grand View Research, aponta que as mulheres responderam por 54,6% da receita do mercado global de viagens solo em 2025. Como se trata de uma estimativa de mercado, o número deve ser lido como indicador da dimensão econômica do segmento, e não como um retrato estatístico de todas as viajantes do mundo.

O que parece mais significativo, porém, não é apenas a participação feminina nesses números. É a mudança de percepção.

Viajar sozinha deixou de ser necessariamente o plano B para quando ninguém pode acompanhar.

O Brasil diante de uma nova viajante

O levantamento do Ministério do Turismo coloca o país diante de uma oportunidade e de um desafio.

A oportunidade está em um público que já viaja, pretende viajar novamente e demonstra interesse por experiências diferentes. Entre as brasileiras que já fizeram uma viagem solo, 35,9% disseram ter realizado essa experiência exclusivamente no Brasil.

O desafio é fazer com que os destinos estejam preparados para recebê-las.

Não se trata apenas de criar roteiros exclusivos para mulheres. Trata-se de construir destinos nos quais uma pessoa possa caminhar, utilizar o transporte, escolher uma hospedagem e conhecer uma atração com o mínimo possível de insegurança.

A viagem solo feminina, nesse sentido, acaba funcionando como uma espécie de termômetro do próprio destino. Quanto mais fácil for para uma mulher viajar sozinha, maior tende a ser a percepção de organização, acolhimento e segurança daquele lugar.

No fim das contas, talvez essa seja a principal mudança trazida por esse novo comportamento.

A mulher que viaja sozinha não está necessariamente procurando distância das pessoas. Muitas vezes, está procurando proximidade consigo mesma. E, ao escolher o próprio caminho, também está ajudando o turismo brasileiro a enxergar que liberdade, segurança e autonomia podem fazer parte do mesmo roteiro.

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Uai Turismo
Vinicius Espírito Santo - Uai Turismo
postado em 18/08/2026 19:18
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