Cultura

Santa Luzia, em Minas Gerais, transforma sua história em palco na 3ª Mostra de Teatro Popular

Com programação gratuita de 4 a 6 de setembro, evento ocupa teatros, espaços culturais e o Adro da Igreja Matriz, aproximando as artes cênicas da memória, da religiosidade e das tradições populares do município.

Santa Luzia, em Minas Gerais, transforma sua história em palco na 3ª Mostra de Teatro Popular -  (crédito: Uai Turismo)
Santa Luzia, em Minas Gerais, transforma sua história em palco na 3ª Mostra de Teatro Popular - (crédito: Uai Turismo)
Santa Luzia, em Minas Gerais, transforma sua história em palco na 3ª Mostra de Teatro Popular (O Auto do Boi_(Foto: Ane Souz))

Em Minas Gerais, história, fé e cultura popular convivem em ruas, igrejas, casarões e celebrações que atravessam gerações e em Santa Luzia, na região metropolitana de Belo Horizonte não é diferente. Entre os dias 4 e 6 de setembro, a cidade histórica ganha novos personagens com a realização da 3ª Mostra de Teatro Popular, que reúne espetáculos teatrais, humor e diferentes experiências cênicas no Teatro Municipal Antônio Roberto de Almeida, no Centro Cultural Casa de Artes Solares e no Adro da Igreja Matriz.

Recebendo esta programação artística, o município reafirma, por meio da Mostra, sua vocação como território de memória e de produção cultural. Ao levar apresentações para espaços tradicionais de encontro e convivência, o evento aproxima artistas e espectadores e ajuda a renovar uma característica muito presente na formação da cidade, a utilização das ruas, praças, adros e espaços comunitários como lugares de celebração, transmissão de saberes e expressão da identidade coletiva, tornando-os de fato, espaços nobres e de convivência.

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Uma cidade formada pela história, pela fé e pela cultura

Inserida na Região Metropolitana de Belo Horizonte, Santa Luzia guarda uma das trajetórias históricas mais representativas de Minas Gerais. Sua formação ajudou a constituir o ciclo do ouro, no final do século XVII, quando as ocupações se estabeleceram às margens do Rio das Velhas. Após uma grande enchente, o povoado foi transferido para o alto da colina onde hoje se encontra o Centro Histórico, diga-se de passagem, um conjunto estético e culturalmente significativo que enriquece a trajetória social de Minas Gerais e tem na Rua Direita seu principal eixo histórico, passando pelos largos do Bonfim e do Rosário até alcançar a Igreja Matriz de Santa Luzia.  

Tive a oportunidade de trabalhar em Santa Luzia e lá conheci uma parte importante da história política do Brasil. Todos os anos, no dia 20 de agosto é relembrado o fato de que em 1842, o município foi cenário da batalha que marcou o desfecho da Revolução Liberal em Minas Gerais.  

É justamente nesse ambiente, em que o passado continua presente na vida cotidiana, que a Mostra de Teatro Popular encontra um cenário especialmente significativo. O teatro, afinal, também se alimenta de histórias, lembranças, conflitos, personagens, causos e experiências humanas como elementos que fazem parte da construção cultural da cidade.

Religiosidade que atravessa gerações

A identidade luziense mantém uma relação profunda e muito bonita com a religiosidade popular. A Igreja Matriz, o Santuário Arquidiocesano de Santa Luzia, desde o século XVIII conserva um acervo de pinturas e elementos ornamentais barrocas e rococós. O Jubileu de Santa Luzia, é comemorado todos os anos e em 13 de dezembro, data dedicada à santa protetora dos olhos e padroeira do município, a cidade se mobiliza para as suntuosas celebrações.

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É bonito de ver, como o Jubileu de Santa Luzia movimenta os moradores, famílias e romeiros em uma manifestação de fé transmitida entre gerações.  

Não posso me referir à religiosidade luziense, sem citar a Igreja de Nossa Senhora do Rosário e sua tradicional festa, originalmente constituída entre fiéis negros africanos e marcada por celebrações, danças e manifestações de devoção popular. Com certeza, uma das mais genuínas festas que conheci no interior mineiro.

As guardas de congado, as visitas de presépios, os festejos religiosos e outras expressões populares revelam uma cidade que reconhece na diversidade faz questão de preservar sua identidade.

Nesse contexto, realizar o encerramento da Mostra no Adro da Igreja Matriz possui um significado especial. O espaço religioso e histórico se transforma novamente em lugar de encontro, acolhendo uma manifestação artística que se inspira no imaginário popular e reafirma a possibilidade de convivência entre patrimônio, tradição e criação contemporânea.

Teatro como encontro e formação de público

A 3ª Mostra de Teatro Popular tem como principal objetivo aproximar o público das artes cênicas e promover o intercâmbio entre espectadores e artistas. Para isso, aposta na descentralização da programação e na diversidade de linguagens, oferecendo experiências que transitam entre o drama, a comédia, a oralidade, o teatro popular e as apresentações em miniatura.

De acordo com Bruno Regenthal, coordenador da Mostra, o projeto foi criado para contribuir com a formação de público e estimular a troca entre quem assiste e quem produz teatro.

A formação de público é um dos pilares mais importantes da Mostra de Teatro Popular. A gente acredita que levar teatro para uma cidade não significa apenas apresentar espetáculos, mas criar oportunidades para que as pessoas tenham contato com diferentes linguagens, conheçam novos artistas e se sintam parte desse universo, explica.

A proposta ganha ainda mais relevância em uma cidade que procura manter uma movimentação cultural ativa enquanto preserva seu patrimônio histórico. Ao ocupar tanto um teatro convencional quanto um centro cultural e o adro de uma igreja, a Mostra amplia o acesso à arte e reforça a compreensão de que a cultura pode estar presente em diferentes lugares da vida comunitária.

Memória, afeto e relações familiares no palco

Um dos destaques da programação é Maio, Antes que Você me Esqueça, protagonizado pelos atores Ilvio Amaral e Maurício Canguçu. A peça acompanha a história de um filho que recebe, a contragosto, a tarefa de hospedar em sua casa o pai, que sofre de Alzheimer.

Maio Antes Que Voce Me Esqueca (Foto: Pedro Vale)

A relação entre os dois sempre foi marcada pela distância e pelos conflitos, mas a convivência forçada abre espaço para lembranças, sentimentos e situações que transitam entre o humor e a emoção. O espetáculo descortina a intimidade dessa relação familiar e aborda, de maneira sensível e divertida, temas como memória, envelhecimento, afeto e os vínculos entre pais e filhos.

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Em uma cidade tão ligada à preservação de suas lembranças coletivas, a montagem estabelece uma conexão especialmente simbólica com o público. Ao tratar da fragilidade da memória individual, a peça também convida à reflexão sobre a importância de conservar histórias, reconhecer trajetórias e fortalecer os laços que unem diferentes gerações.

Humor e diversidade de linguagens

Outro nome de destaque é o humorista Rafael Mazzi, que apresenta seu espetáculo de stand-up no sábado, dia 5. Mazzi já participou de programas como Show do Tom, da Record TV, e Treme Treme, do Multishow. O artista também ganhou projeção nacional ao vencer o quadro Disputa do Riso, do programa Eliana, no SBT, e atualmente participa do programa Grafitte, da Rádio 98 FM.

Rafael Mazzi (Foto: divulgação)

O comediante Joel de Carvalho acompanha Rafael Mazzi com seu conhecido espetáculo em homenagem a Silvio Santos, reproduzindo a voz, os trejeitos e os bordões que marcaram a trajetória do apresentador.

A programação também valoriza narrativas inspiradas no cotidiano e no imaginário popular. Entre as atrações estão Causos de Minas, Revolixão, Festa Estranha com Gente Esquisita e Auto do Boi, montagens que se aproximam da oralidade, do humor, das festas comunitárias e das formas tradicionais de contar histórias.

Pequenos palcos, grandes encontros

Durante os intervalos, o público poderá acompanhar apresentações nas caixas de teatro lambe-lambe. Inspiradas nas antigas máquinas fotográficas dos profissionais conhecidos como fotógrafos lambe-lambe, essas pequenas estruturas cênicas permitem que uma pessoa de cada vez assista, por uma abertura, a um espetáculo de curta duração.

A experiência reduz a distância entre artista e espectador e transforma cada apresentação em um encontro particular. Ao lado dos espetáculos realizados no palco e nos espaços públicos, o teatro lambe-lambe amplia as possibilidades da Mostra e demonstra que uma experiência artística não depende necessariamente de grandes estruturas para provocar encantamento, curiosidade e reflexão.

Cultura que preserva e, ao mesmo tempo, se renova

A realização da 3ª Mostra de Teatro Popular contribui para que Santa Luzia não seja reconhecida apenas pelo patrimônio que herdou, mas também pela cultura que continua produzindo. Preservar a memória de uma cidade é garantir que suas igrejas, casarões, festas e tradições permaneçam protegidos, mas é também permitir que esses espaços recebam novas manifestações e continuem fazendo parte da vida das pessoas.

Quando um adro histórico recebe um espetáculo, quando uma criança conhece o teatro pela primeira vez ou quando moradores se reúnem para ouvir novos e antigos causos, o patrimônio deixa de ser somente uma referência do passado e volta a cumprir sua função de reunir a comunidade.

Assim, a Mostra ajuda a estabelecer uma ponte entre diferentes tempos. De um lado, está a Santa Luzia das irmandades religiosas, dos tropeiros, das festas do Rosário, dos cortejos, dos sinos e das histórias transmitidas oralmente. De outro, está uma cidade contemporânea, inserida em uma grande região metropolitana, que busca ampliar o acesso à arte, formar novos públicos e oferecer espaço aos artistas.

É nessa convivência entre memória e criação que a cultura permanece verdadeiramente viva.

Cia Lamparina

Cia-lamparina – Revolixão (Foto: Romulo-Ferreira)

A Mostra de Teatro Popular de Santa Luzia é produzida pela Cia Lamparina, companhia com mais de uma década de trajetória dedicada à criação e à produção cultural. Seus trabalhos dialogam com o imaginário coletivo, a preservação ambiental e a valorização das tradições locais, combinando teatro, música, audiovisual e cultura popular.

Sob a coordenação de Bruno Regenthal, multiartista premiado, a companhia consolidou sua atuação no interior de Minas Gerais por meio de projetos que aproximam as comunidades da arte e valorizam a oralidade, a música e as experimentações audiovisuais.

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A 3ª Mostra de Teatro Popular de Santa Luzia tem patrocínio master da UAUIngleza, patrocínio da Irani Papel e Embalagem, apoio institucional da Prefeitura de Santa Luzia e apoio da Bella Academia Mineira de Dança e da Elos Consultoria e Projetos. A realização é do Ministério da Cultura, com produção da Cia Lamparina.

Para mim, esta é uma boa oportunidade de voltar à Santa Luzia. E você, já conhece a cidade? Quem sabe se anima a participar?

Programe-se para a 3ª Mostra de Teatro Popular de Santa Luzia

4 de setembro sexta-feira

20h Maio, Antes que Você me Esqueça Cangaral
Teatro Municipal Antônio Roberto de Almeida

21h Festa Estranha com Gente Esquisita
Centro Cultural Casa de Artes Solares

5 de setembro sábado

16h Causos de Minas Cia Lamparina
Teatro Municipal Antônio Roberto de Almeida

17h Caixas de Teatro Lambe-Lambe Cia Lamparina
Teatro Municipal Antônio Roberto de Almeida

18h Revolixão Cia Lamparina
Teatro Municipal Antônio Roberto de Almeida

19h Caixas de Teatro Lambe-Lambe Cia Lamparina
Teatro Municipal Antônio Roberto de Almeida

20h Stand-up com Rafael Mazzi e Joel de Carvalho
Teatro Municipal Antônio Roberto de Almeida

6 de setembro domingo

12h Auto do Boi Cia Solares
Adro da Igreja Matriz de Santa Luzia

Entrada gratuita.

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Uai Turismo
Ubiraney Silva - Uai Turismo
postado em 29/08/2026 06:26
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