
Enquanto o Adventure Travel World Summit debate o futuro do setor em Québec, no Canadá, Brasil amplia iniciativas voltadas a trilhas, observação de aves e experiências de natureza
O turismo de aventura chega a 2026 em um momento de transformação. Viajar para a natureza já não significa apenas procurar paisagens bonitas ou atividades que envolvam algum grau de adrenalina. Para uma parcela crescente de viajantes, a experiência passa também pela possibilidade de desacelerar, reduzir o contato com a tecnologia, conhecer comunidades locais e estabelecer uma relação mais próxima com o ambiente visitado.
Esse movimento estará no centro das discussões do Adventure Travel World Summit (ATWS), um dos principais encontros internacionais do setor. A edição de 2026 será realizada em Québec City, no Canadá, entre os dias 14 e 17 de setembro, reunindo cerca de 800 operadores, representantes de destinos, jornalistas e especialistas em turismo de aventura.
O próprio tema escolhido para o encontro, Trace, propõe uma reflexão sobre os rastros deixados pela atividade turística e sobre o legado que destinos e empresas pretendem construir para as próximas gerações. A discussão aproxima turismo de aventura, conservação ambiental, cultura e desenvolvimento das comunidades que recebem os visitantes.
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A natureza como experiência de viagem
A mudança no comportamento do viajante ajuda a explicar por que o turismo de aventura deixou de ocupar um espaço restrito entre praticantes de esportes radicais. Caminhadas, observação de fauna, ciclismo, experiências em áreas protegidas e roteiros de contato com comunidades passaram a integrar um mercado muito mais amplo.
Nesse cenário, a ideia de luxo também começa a ganhar novos significados. Em vez de estar necessariamente relacionada a hotéis grandiosos ou serviços exclusivos, a experiência premium pode estar associada ao silêncio, à privacidade, ao acesso controlado a ambientes naturais e à possibilidade de passar alguns dias longe das telas.
Unplugged ou turismo de isolamento essa modalidade nova de viajar que encontra espaço especialmente em destinos onde a ausência de sinal de celular deixa de ser um problema e passa a fazer parte da experiência.
Outro movimento é o das chamadas microaventuras: viagens curtas, muitas vezes realizadas em um fim de semana, para praticar trekking, ciclismo, canoagem ou rafting em regiões próximas aos grandes centros urbanos.
A lógica é simples: não é necessário esperar pelas férias para experimentar uma aventura.
Brasil amplia estrutura para o ecoturismo
O Brasil parte de uma posição privilegiada nesse cenário por reunir diferentes biomas e uma extensa rede de áreas naturais. Mas, além da biodiversidade, o país começa a investir na estruturação de produtos capazes de transformar esse patrimônio em experiências turísticas organizadas.
Segundo o Ministério do Turismo, o Brasil possui atualmente 205 trilhas de longo curso. Esses caminhos atravessam praias, chapadas, serras, florestas e montanhas, conectando unidades de conservação, municípios e comunidades.
A política pública também ganhou um novo instrumento em agosto de 2026. Portaria do Ministério do Turismo que detalha o Programa de Infraestrutura Turística prevê, entre outras ações, o aperfeiçoamento de municípios, regiões e trilhas de longo curso, incluindo sinalização turística e melhorias na infraestrutura de acesso aos atrativos.
Um exemplo desse processo é o Caminho de Cora Coralina, em Goiás, com aproximadamente 300 quilômetros. A rota atravessa o Cerrado e combina natureza, patrimônio histórico, literatura, gastronomia e experiências comunitárias.
No Rio de Janeiro, a Trilha Transcarioca, com cerca de 180 quilômetros, conecta diferentes áreas naturais da cidade e é considerada a primeira trilha de longo curso estabelecida no país.
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Observação de aves deixa de ser um nicho desconhecido
Entre os segmentos que melhor representam essa mudança está o turismo de observação de aves.
O Ministério do Turismo vem desenvolvendo ações específicas para qualificar e inserir no mercado produtos ligados ao birdwatching. Em 2026, uma iniciativa de cooperação técnica com a UNESCO colocou entre suas prioridades a observação de aves, as trilhas de longo curso e o turismo de base comunitária.
Um diagnóstico elaborado pelo Ministério mostra por que esse mercado chama a atenção. A pesquisa, que reuniu 2.640 respostas, identificou entre os praticantes características como elevada escolaridade, forte afinidade com a conservação ambiental e disposição para realizar viagens de média e longa duração. O estudo também aponta gastos superiores aos observados no turismo convencional.
Não se trata, portanto, apenas de colocar binóculos na mochila. O visitante interessado em aves movimenta uma cadeia que envolve guias especializados, hospedagem, transporte, alimentação e equipamentos.
E o Brasil tem uma vantagem evidente: a variedade de ambientes e espécies permite criar produtos diferentes em praticamente todas as regiões.
Pantanal transforma fauna em experiência
A observação de animais também ocupa espaço importante nesse mercado. O Pantanal é um dos exemplos mais conhecidos, especialmente pela possibilidade de avistar espécies em seu habitat natural.
No Parque Nacional do Pantanal Matogrossense, o período entre maio e setembro é considerado especialmente favorável à observação da fauna, quando a redução das chuvas facilita os avistamentos. A unidade também destaca a observação embarcada e os dormitórios de aves entre as experiências possíveis na região.
A experiência, nesse caso, é muito diferente de uma atração convencional. O visitante não sabe exatamente quando ou onde o animal aparecerá. É justamente a imprevisibilidade que faz parte do encanto.
Destinos brasileiros acompanham a tendência
Alguns dos principais destinos de natureza do país já estão associados a esse novo momento do turismo.
Jalapão, no Tocantins, combina dunas, rios, fervedouros e paisagens do Cerrado em roteiros que misturam aventura e contato com a natureza.
Na Chapada dos Veadeiros, em Goiás, e na Chapada Diamantina, na Bahia, as trilhas de diferentes níveis de dificuldade são protagonistas de viagens que podem durar vários dias e combinar caminhada, cachoeiras, comunidades e paisagens de montanha.
Bonito, em Mato Grosso do Sul, representa outro modelo. O destino construiu sua reputação a partir da organização da visitação, do controle de acesso a atrativos naturais e de experiências como flutuação em rios de águas cristalinas.
O reconhecimento do mercado também aparece em pesquisas recentes. No Prêmio Melhores Destinos 2025/2026, Bonito ficou novamente em primeiro lugar na categoria de melhor destino de ecoturismo do Brasil, seguido por Foz do Iguaçu e Lençóis Maranhenses.
A aventura que deixa uma marca diferente
A realização do ATWS em Québec ajuda a colocar em perspectiva uma transformação que já pode ser percebida no Brasil. O turismo de aventura não está mais restrito à busca por emoção. A experiência passou a envolver conservação, cultura, bem-estar, conhecimento e participação das comunidades.
O desafio para os destinos brasileiros será transformar a enorme oferta natural em produtos estruturados, seguros e responsáveis, sem comprometer justamente aquilo que atrai o viajante: a natureza.
É uma equação delicada. Quanto maior a procura por lugares preservados, maior também a necessidade de controlar a visitação e distribuir seus benefícios.
Talvez seja essa a principal questão que acompanhará o crescimento do turismo de aventura nos próximos anos: não apenas para onde viajar, mas como viajar sem destruir o motivo que
nos fez chegar até lá.
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