
Entre desaparecimentos de navios e aviões, lendas sobre bússolas descontroladas e teorias sobrenaturais, uma das regiões mais famosas do Atlântico, o Triângulo das Bermudas, também revela praias paradisíacas, naufrágios e um dos cenários mais procurados por mergulhadores e turistas.
Navios que desaparecem, aviões que nunca são encontrados e bússolas supostamente enlouquecidas. Há décadas, o Triângulo das Bermudas alimenta o imaginário popular como um dos grandes mistérios do planeta. A fama é tão forte que basta mencionar o nome da região para surgir a imagem de um oceano capaz de engolir embarcações inteiras.
Mas existe uma diferença importante entre a lenda e o que a ciência consegue comprovar.
Conhecida popularmente como Triângulo das Bermudas, a área do Atlântico Norte costuma ser associada a um espaço delimitado aproximadamente entre a Flórida, Porto Rico e o arquipélago de Bermuda. Não existe, porém, uma delimitação oficial do triângulo.
A própria Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) afirma que não há mapas oficiais que definam seus limites e que não existem evidências de que desaparecimentos ocorram ali com frequência maior do que em outras regiões oceânicas grandes e muito movimentadas. Ainda assim, os casos associados ao local são suficientemente intrigantes para manter a história viva.
O desaparecimento do Voo 19
Nenhum episódio ajudou tanto a consolidar a fama do Triângulo das Bermudas quanto o desaparecimento do Voo 19, em dezembro de 1945.
Cinco aviões torpedeiros da Marinha dos Estados Unidos desapareceram durante uma missão de treinamento. Uma aeronave enviada posteriormente para participar das buscas também não retornou.
O episódio rapidamente ganhou contornos misteriosos e passou a ser associado a supostas falhas inexplicáveis nos instrumentos de navegação. Com o tempo, versões cada vez mais fantásticas foram incorporadas à história.
O problema é que a documentação disponível não sustenta a existência de um fenômeno sobrenatural. A própria Guarda Costeira americana afirma que, ao analisar desaparecimentos atribuídos ao Triângulo, não encontrou fatores extraordinários que explicassem as ocorrências. O Voo 19 continua sendo um dos grandes mistérios da aviação militar mundial.
O HMS Atalanta e uma história que ganhou o Triângulo depois
Outro caso frequentemente incluído na lista é o do HMS Atalanta, navio-escola britânico que desapareceu em 1880 com cerca de 290 pessoas a bordo, durante a viagem entre Bermuda e a Inglaterra.
A embarcação nunca foi encontrada e o desaparecimento provocou uma extensa operação de busca na época. O caso, entretanto, passou a ser relacionado ao Triângulo das Bermudas décadas depois, quando a região já havia adquirido sua fama.
Pesquisas históricas apontam para hipóteses relacionadas às condições meteorológicas e à própria navegação do período. Ou seja, não há evidência de que o navio tenha sido vítima de algum fenômeno inexplicável.
É justamente esse tipo de história que ajuda a entender como o mito foi construído: acontecimentos marítimos reais foram posteriormente reunidos em uma mesma região e interpretados como parte de um grande enigma.
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O que a ciência diz sobre os desaparecimentos?
A explicação mais simples para o fenômeno pode ser justamente a menos misteriosa.
O Atlântico Norte é uma área de intensa circulação de navios e aeronaves. Somam-se a isso tempestades, furacões, mudanças rápidas nas condições do mar, correntes fortes, recifes e grandes áreas de oceano profundo.
Para a NOAA, é a sigla em inglês para National Oceanic and Atmospheric Administration, que em português significa Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos, esses fatores ambientais, combinados com falhas humanas e problemas de navegação, são suficientes para explicar muitos dos acidentes atribuídos ao Triângulo.
A agência também destaca que não há evidência de uma incidência extraordinária de desaparecimentos quando comparada a outras áreas oceânicas de tamanho e movimentação semelhantes.
A Guarda Costeira dos Estados Unidos chega a uma conclusão semelhante: não reconhece o chamado Triângulo das Bermudas como uma região geográfica de risco específico para navios ou aviões.
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Onde termina o mistério e começa o turismo?
É justamente aqui que a história fica mais interessante para quem gosta de viajar.
Bermuda, o arquipélago que empresta seu nome ao famoso triângulo, está longe de ser um cenário sombrio. Localizada no Atlântico Norte, a cerca de 650 milhas náuticas da costa da Carolina do Norte, a ilha é conhecida pelas praias de areia rosada, águas transparentes, recifes e patrimônio marítimo.
O turismo local aproveita, inclusive, a própria história marítima que ajudou a construir a fama da região. Bermuda é considerada um dos grandes destinos de mergulho em naufrágios do Atlântico. As águas ao redor do arquipélago abrigam mais de 300 embarcações naufragadas, algumas delas acessíveis a mergulhadores e praticantes de snorkel.
O cenário combina história e aventura: em um mesmo mergulho, o visitante pode encontrar estruturas de antigos navios tomadas pela vida marinha, enquanto acima da superfície estão águas azul-turquesa e algumas das praias mais características do arquipélago.
O lado paradisíaco do Triângulo
Bermuda também oferece uma experiência turística muito distante da imagem de um oceano ameaçador. O arquipélago reúne trilhas, patrimônio histórico, gastronomia, esportes náuticos, passeios de barco e observação de baleias, além das famosas praias de areia rosada.
O próprio turismo da ilha explora a relação entre o destino e o mar. O Bermuda Underwater Exploration Institute, em Hamilton, mantém exposições dedicadas ao universo submarino e à história do chamado Triângulo das Bermudas.
Em 2025, Bermuda recebeu 199.193 visitantes por via aérea e 467.525 passageiros de cruzeiros, segundo dados divulgados pela autoridade de turismo local. Ou seja, enquanto a lenda continua atraindo curiosos, o destino real recebe milhares de viajantes interessados justamente naquilo que existe de concreto: praias, mergulho, vida marinha e muitas histórias.
No fim das contas, o Triângulo das Bermudas é menos assustador quando visto do ponto de vista da ciência e talvez ainda mais interessante quando descoberto como destino turístico. Entre praias cor-de-rosa, recifes, naufrágios e águas cristalinas, o visitante encontra uma região em que o verdadeiro mistério não precisa de monstros marinhos ou portais interdimensionais para continuar fascinante.
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