
Os candidatos ao Governo de Minas 2026 incluem o turismo em seus planos, mas com diferenças importantes na profundidade das propostas e na maneira de enxergar o setor como atividade econômica. Em um mercado que movimentou US$ 11,6 trilhões no mundo em 2025, o Uai Turismo analisou os documentos de Cleitinho Azevedo (Republicanos), Patrus Ananias (PT), Alexandre Kalil (PDT), Mateus Simões (PSD) e Gabriel Azevedo (MDB) para identificar o espaço reservado ao turismo e como as propostas dialogam com políticas públicas que Minas Gerais desenvolve há cerca de 25 anos.
Segundo o World Travel & Tourism Council (WTTC), viagens e turismo responderam por 9,8% da economia mundial em 2025 e sustentaram 366 milhões de empregos. Os números dimensionam um setor que ultrapassou a esfera do lazer e se tornou parte relevante da estratégia econômica de diferentes países.
Diante desse cenário, a análise dos planos dos candidatos ao Governo de Minas para as eleições de 2026 buscou responder a uma questão: o turismo mineiro aparece apenas associado a rotas, patrimônio, eventos e promoção ou é tratado também como instrumento de geração de receitas, empregos e desenvolvimento regional?
A análise não estabelece ranking, não classifica um programa como melhor que outro e não representa indicação de voto. O levantamento considera exclusivamente o conteúdo apresentado nos documentos analisados.
O que os candidatos ao Governo de Minas 2026 propõem para o turismo
O plano de Cleitinho Azevedo prevê turismo social, estruturação de roteiros turísticos regionais, qualificação de trabalhadores de hotéis, restaurantes, receptivos e outros serviços, além de investimentos em sinalização, acessibilidade e centros de atendimento ao turista nos circuitos. Patrimônio, artesanato, gastronomia e eventos também aparecem entre as propostas.
Patrus Ananias dedica um capítulo específico ao turismo e o define como política de desenvolvimento regional sustentável. O documento propõe fortalecer e regionalizar a Política Estadual de Turismo, ampliar a articulação do Estado com os municípios e integrar a atividade a áreas como cultura, patrimônio, meio ambiente, agricultura familiar, infraestrutura, mobilidade e economia criativa. Emprego, renda, crédito, qualificação e promoção também integram as propostas.
O plano de Alexandre Kalil detalha o turismo como cadeia econômica e propõe acompanhar indicadores como permanência média do visitante, gasto, empregos, renda e sazonalidade. A regionalização ocupa posição central e o documento prevê articulação da Secretaria de Estado de Cultura e Turismo com municípios, instâncias de governança regionais, setor privado e comunidades.
Mateus Simões apresenta diretrizes mais sintéticas. O próprio documento esclarece que não se trata de um catálogo de ações ou cronograma de implementação. Para o turismo, propõe articular cultura e turismo como eixo econômico, fortalecer a identidade de Minas como ativo de mercado, captar e qualificar eventos e ampliar e diversificar as rotas turísticas.
Já Gabriel Azevedo trata cultura, turismo e esporte como ativos regionais. Entre as propostas estão profissionalização da gestão do turismo e dos equipamentos culturais, estruturação de roteiros e circuitos regionais, fortalecimento de consórcios e qualificação dos destinos. O documento também propõe transformar o conjunto de estâncias hidrominerais de Minas em uma plataforma de turismo e serviços, com gestão profissional e ações para reduzir a sazonalidade.
Turismo em Minas precisa de mais rotas ou de melhores resultados?
A criação, ampliação ou estruturação de rotas, roteiros e circuitos aparece de diferentes maneiras nos planos dos candidatos ao Governo de Minas. A recorrência levanta uma discussão importante: aumentar a quantidade de municípios envolvidos com o turismo significa necessariamente desenvolver a atividade?
Minas Gerais possui 853 municípios, com realidades, vocações econômicas e estruturas muito diferentes. Nem todos apresentam necessariamente demanda, acesso, serviços ou capacidade de transformar recursos naturais, culturais ou históricos em produtos turísticos competitivos.
Criar uma rota no papel não garante que turistas chegarão até ela. Para transformar um território em destino entram fatores como acesso, hospedagem, gastronomia, atendimento, qualificação profissional, comercialização, promoção e, sobretudo, capacidade de entregar a experiência prometida ao visitante.
A discussão sobre turismo em Minas Gerais, portanto, pode ir além da quantidade de municípios, circuitos e roteiros e incorporar indicadores reais de desempenho: número e perfil dos visitantes, permanência média, gasto, ocupação, geração de empregos, renda e participação dos negócios locais na riqueza produzida.
Entre os documentos analisados, o plano de Alexandre Kalil explicita de maneira mais detalhada indicadores dessa natureza. A constatação representa uma diferença objetiva entre os documentos, e não uma classificação sobre qual plano é melhor.
Regionalização do turismo em Minas existe há cerca de 25 anos
Quem vencer as Eleições 2026 em Minas Gerais não começará do zero na política de turismo. A regionalização do turismo começou a ser desenvolvida no estado em 2001, antes mesmo da criação do Ministério do Turismo, em 2003, e do Programa de Regionalização do Turismo do governo federal, lançado em 2004.
Em 2003, Minas institucionalizou os Circuitos Turísticos. A política evoluiu e atualmente reconhece essas organizações como Instâncias de Governança Regionais (IGRs), responsáveis por articular poder público, iniciativa privada e sociedade civil no desenvolvimento turístico dos territórios.
Segundo a Secretaria de Estado de Cultura e Turismo de Minas Gerais (Secult-MG), o estado conta atualmente com 47 IGRs certificadas e 727 municípios regionalizados. A política trabalha com princípios como descentralização, participação social, sustentabilidade e integração entre diferentes agentes do setor.
A atual gestão estadual também deu continuidade à regionalização, além de desenvolver ações de promoção e qualificação. Em 2024, novas diretrizes foram estabelecidas para a Política Estadual de Turismo e, em 2025, foram atualizadas as regras para reconhecimento das Instâncias de Governança Regionais.
Diante desse histórico, uma das questões para os candidatos ao Governo de Minas não é apenas quais novas políticas pretendem criar, mas o que planejam manter, aperfeiçoar ou corrigir da estrutura construída ao longo de diferentes governos.
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ICMS Turismo não aparece nominalmente nos planos analisados dos candidatos ao Governo de Minas
Outro instrumento já existente é o ICMS Turismo de Minas Gerais. O mecanismo utiliza critérios da distribuição do ICMS aos municípios para estimular a estruturação da gestão turística local. A legislação exige, entre outros critérios, participação na política de regionalização, existência de política municipal de turismo e manutenção de Conselho Municipal de Turismo e Fundo Municipal de Turismo para que o município possa se habilitar ao critério Turismo.
Apesar dessa estrutura existente, a análise dos documentos não identificou referência nominal ao ICMS Turismo em nenhum dos cinco planos. Também não foram encontradas citações nominais ao Programa de Regionalização do Turismo (PRT) federal, ao Mapa do Turismo Brasileiro ou ao relacionamento com as diretrizes federais. Vale ressaltar que o Governo Federal pouco tem feito com relação à política pública de turismo no país e que o trabalho mais técnico e organizado vem sendo desenvolvido melhor pela Embratur do que pelo Ministério do Turismo.
Isso não significa ausência de propostas de regionalização em Minas Gerais. Kalil menciona as instâncias regionais de governança, Patrus propõe fortalecer e regionalizar a Política Estadual de Turismo e a articulação com municípios, Cleitinho cita os circuitos turísticos, Gabriel trabalha com circuitos, roteiros e consórcios e Mateus propõe ampliar e diversificar rotas. A diferença está entre propor ações que utilizam a lógica da regionalização e explicitar como elas se relacionarão com os instrumentos de política pública que já estão em funcionamento.
Quem vai gerir a política de turismo de Minas Gerais?
A discussão dos planos de governo traz ainda uma questão que vai além das propostas: a capacidade de execução. Ao longo de diferentes governos, o comando da política de turismo de Minas já foi exercido tanto por agentes políticos quanto por gestores com trajetória empresarial ou técnica relacionada ao setor.
Atualmente e nos idos de 2007, a pasta ficou a cargo de profissionais técnicos. Porém, na maior parte das gestões, o cargo foi destinado a figuras políticas e como moeda política. Por isso, mais do que discutir nomes ou partidos, a questão é qual espaço a gestão técnica do turismo ocupará no próximo governo. Se o setor for tratado como vetor econômico, sua gestão exige capacidade de articulação com municípios e iniciativa privada, conhecimento de mercado, planejamento, definição de metas e avaliação de resultados.
Assim, uma pergunta que permanece para os candidatos ao Governo de Minas é qual perfil de gestão será adotado para transformar as propostas apresentadas durante a campanha em resultados mensuráveis.
Turismo como atividade econômica e geração de receitas
Talvez uma das principais discussões reveladas pelos planos seja a maneira como Minas pretende enxergar economicamente o turismo. A economia mineira foi historicamente construída sobre setores de grande peso, como mineração, agronegócio e indústria. O turismo funciona sob uma lógica diferente: em vez de exportar fisicamente uma mercadoria, o território recebe o consumidor, que compra hospedagem, alimentação, transporte, cultura, comércio, entretenimento e experiências.
Nos Estados Unidos, os gastos de visitantes internacionais são oficialmente contabilizados como exportações de viagens e turismo. Em 2025, visitantes estrangeiros gastaram mais de US$ 250 bilhões em viagens e atividades relacionadas ao turismo no país. A lógica ajuda a compreender o potencial econômico do turismo: na exportação tradicional, o produto viaja até o consumidor e no turismo receptivo, é o consumidor que viaja até o produto.
Para Minas Gerais, isso significa que os resultados da política de turismo podem ser avaliados não somente pelo número de visitantes, eventos ou rotas criadas, mas pela capacidade de atrair receita e mantê-la circulando na economia mineira. Não com grandes empresas, mas com milhares de pequenos e médios empreendimentos que são o motor do turismo.
Empregos no turismo também entram na discussão
Geração de postos de trabalho é apenas uma parte dessa equação. Outra questão é a qualidade desses empregos. Uma estratégia de desenvolvimento do turismo precisa considerar se hotéis, pousadas, restaurantes, receptivos, guias, atrativos e demais empresas conseguirão aumentar produtividade e receita para crescer, investir, qualificar trabalhadores e oferecer remuneração capaz de competir com outros setores da economia.
Também envolve a capacidade de pequenas empresas e empreendedores dos destinos turísticos de participarem da riqueza gerada pelos visitantes.
Por isso, a discussão dos planos dos candidatos ao Governo de Minas pode avançar de uma pergunta tradicional: quantos turistas Minas recebe? para questões econômicas mais amplas: quanto esses visitantes gastam, quanto tempo permanecem, quantos empregos geram e quanto dessa receita permanece nos territórios?
As propostas apresentadas mostram que o turismo está presente nos cinco documentos analisados. O desafio a partir das Eleições 2026 será transformar propostas, rotas, patrimônio e promoção em resultados que possam ser efetivamente mensurados.
No fim, a questão ultrapassa a experiência de quem visita: qual turismo Minas Gerais quer construir nos próximos quatro anos e qual resultado econômico e social essa atividade será capaz de entregar para quem recebe?
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