
Pequena ilha iraniana de Larak, guarda vestígios de antigas disputas marítimas e ocupa posição estratégica em um dos corredores do caminho do petróleo mais importantes do mundo.
Há lugares no mundo em que geografia e história parecem ter sido desenhadas para se encontrar. A ilha de Larak, no sul do Irã, é um deles. Cercada pelas águas do Golfo Pérsico e próxima ao Estreito de Ormuz, ela está inserida em uma das regiões marítimas mais importantes e mais sensíveis do planeta.
Para quem olha um mapa turístico, Larak pode parecer apenas uma pequena ilha próxima de destinos mais conhecidos, como Qeshm e Hormuz. Para quem observa a geopolítica internacional, porém, sua localização é estratégica. E, para o viajante, essa diferença é fundamental: a mesma paisagem marítima que poderia servir de cenário para passeios, praias e experiências culturais está hoje associada a navios petroleiros, bases militares, ameaças à navegação e conflitos internacionais.
A importância da ilha ficou ainda mais evidente em 30 de agosto de 2026, quando forças dos Estados Unidos atacaram dois lançadores iranianos localizados em Larak, segundo autoridades americanas. Washington afirmou que os equipamentos estavam ligados a preparativos para lançamento de foguetes e instalação de minas marítimas no Estreito de Ormuz. O Irã confirmou o ataque e prometeu resposta.
O episódio colocou novamente uma pequena ilha iraniana no noticiário mundial. Mas a história de Larak começou muito antes dos mísseis.
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Antes do petróleo, vieram os navegadores
A importância estratégica de Larak não nasceu no século 20, durante a expansão portuguesa pelo Golfo Pérsico, a ilha passou a fazer parte de uma rede de fortalezas e pontos de controle marítimo. Os portugueses construíram estruturas defensivas em Larak e nas vizinhas Qeshm e Hormuz.
A fortificação de Larak foi posteriormente reforçada pelos governantes safávidas. Registros históricos indicam que o forte recebeu melhorias em 1665 diante do temor de ataques ingleses e portugueses e voltou a ser reforçado em 1683, quando aumentaram as tensões entre os safávidas e os holandeses.
A história ajuda a entender uma característica que continua presente até hoje: quem controla as ilhas próximas ao Estreito de Ormuz ganha uma posição privilegiada para observar e influenciar as rotas marítimas.
Uma ilha quase do tamanho de Manhattan
Para dimensionar Larak no mapa, uma comparação ajuda. A ilha iraniana tem cerca de 49 quilômetros quadrados, enquanto Manhattan, em Nova York, possui aproximadamente 59 quilômetros quadrados de área terrestre. Em outras palavras, Larak tem cerca de 83% da área de Manhattan.
A diferença, porém, está no que acontece sobre essas duas ilhas. Enquanto Manhattan abriga milhões de pessoas, arranha-céus, metrô, museus, hotéis e alguns dos endereços mais conhecidos do turismo mundial, Larak permanece pouco povoada e marcada por uma paisagem árida, comunidades tradicionais e uma localização estratégica diante do Estreito de Ormuz.
É uma comparação que ajuda a entender o contraste. Uma ilha quase do tamanho de Manhattan pode passar praticamente despercebida no mapa turístico mundial e, ao mesmo tempo, estar ao lado de uma das rotas marítimas mais importantes do planeta.
Sua posição, junto à entrada do Estreito de Ormuz, explica boa parte da importância que a ilha adquiriu ao longo dos séculos, primeiro nas disputas pelas rotas marítimas e, mais tarde, pelo petróleo e pela estratégia militar.
O turismo que poderia existir mas esbarra na geopolítica
É aqui que a história de Larak encontra diretamente o turismo. Em condições normais, a proximidade com Qeshm e Hormuz poderia favorecer roteiros envolvendo diferentes ilhas, passeios de barco, observação da paisagem, contato com comunidades locais e turismo de natureza.
Mas turismo depende de uma condição básica: segurança.
Quando uma área marítima passa a ser considerada zona de risco, a primeira consequência é a redução da circulação. Não é necessário que um hotel seja atingido ou que uma atração turística seja destruída. Basta que o visitante não consiga chegar com segurança.
Esse é um dos efeitos mais perversos dos conflitos para o turismo: o medo pode afastar o viajante muito antes de a guerra chegar fisicamente a uma atração. E situações como essa estão acontecendo com muito mais frequência.
Quando o mar deixa de ser seguro
Para o turismo, as consequências são claras. Uma região onde a navegação comercial encontra dificuldades dificilmente consegue manter um turismo náutico normal.
Passeios marítimos, deslocamentos entre ilhas, cruzeiros e outras atividades dependentes do mar passam a sofrer com restrições, cancelamentos, aumento dos custos de seguro e, principalmente, percepção de risco.
No fim de agosto, a situação continuava longe da normalidade. A Guarda Revolucionária afirmou ter “controle total” sobre o Estreito de Ormuz, enquanto os Estados Unidos sustentavam que a passagem permanecia aberta.
Para o turista, pouco importa qual discurso prevalecerá no campo político. Se companhias marítimas, seguradoras e operadores de turismo considerarem a região insegura, o visitante simplesmente deixa de ir e setor passa a ser um grande prejudicado.
O petróleo também chega ao bolso do turista
O turista que nunca ouviu falar em Larak pode sentir as consequências de um conflito ali mesmo sem jamais viajar para o Oriente Médio, e o motivo é o petróleo.
Quando aumenta o risco de interrupção do fluxo pelo Estreito de Ormuz, o mercado reage. Após o ataque americano contra Larak, o petróleo Brent chegou a superar US$ 90 por barril em 31 de agosto.
Combustível mais caro significa pressão sobre toda a cadeia de transporte. Para o turismo, isso pode representar aumento de custos para companhias aéreas, transporte terrestre, logística, cruzeiros e outros serviços ligados à mobilidade.
É uma das características mais interessantes de Ormuz: uma disputa localizada pode produzir efeitos a milhares de quilômetros de distância.
Uma viagem de férias no Brasil, por exemplo, pode ser afetada indiretamente por acontecimentos em uma pequena ilha iraniana.
O que sobra para o turismo?
A curto prazo, a resposta é pouco animadora. A instabilidade militar reduz a circulação de visitantes, prejudica atividades náuticas, afeta conexões de transporte e aumenta a percepção de risco em todo o sul do Irã.
Estudo da Oxford Economics divulgado no início de 2026 estimou que uma queda do turismo provocada pelo conflito poderia reduzir em 11% a 27% as chegadas internacionais ao Oriente Médio durante o ano, dependendo da duração da guerra.
Mas existe uma segunda história, que só poderá ser contada quando houver estabilidade. As ilhas do Estreito de Ormuz possuem características que podem sustentar um turismo de natureza, cultura, geologia e história. Qeshm já demonstrou esse potencial. Hormuz tornou-se conhecida por suas paisagens coloridas e pela cultura local. E Larak, justamente por permanecer menos conhecida, poderia encontrar seu espaço em roteiros de turismo de experiência e de natureza.
Mas isso depende de uma palavra que parece simples e, naquele pedaço do mundo, tem enorme valor: PAZ.
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