
Já escrevi sobre política e turismo nesta coluna e, provavelmente, continuarei escrevendo. Não porque faltem assuntos sobre o setor, mas porque existe uma questão que ainda precisa ser internalizada pelo trade turístico e também pelos próprios turistas: turismo é política pública, e política pública depende de decisão política, orçamento e, consequentemente, de quem elegemos.
Nas eleições de 2026, os brasileiros irão às urnas para escolher seis cargos: deputado estadual, deputado federal, duas vagas para o Senado, governador e presidente da República. E, se queremos um turismo estruturado, talvez seja necessário olhar para esses candidatos para além dos discursos de campanha e perguntar: o que eles efetivamente fizeram pelo turismo ou se propõem a fazer?
O Brasil possui 513 deputados federais e 81 senadores. São 594 parlamentares no Congresso Nacional que participam de decisões que impactam diretamente ou indiretamente as políticas públicas do país. E existe uma ferramenta importante para começarmos essa análise: os recursos públicos destinados por meio de emendas parlamentares.
Não se trata de afirmar que toda emenda parlamentar é investimento turístico, nem de confundir indicação com execução. São etapas diferentes. Mas os dados disponíveis permitem enxergar um pouco melhor onde o turismo aparece nas decisões orçamentárias e quais parlamentares estão indicando recursos para o setor.
No próprio Portal do Governo Federal, nos dados disponibilizados pelo Ministério do Turismo, é possível consultar relatórios de emendas parlamentares. Um recorte chama atenção. Entre dezembro de 2024 e abril de 2025, estão registrados ofícios de parlamentares relacionados à solicitações para empenho e pagamento de recursos já indicados.
Os documentos seguem, em linhas gerais, uma estrutura bastante objetiva: o parlamentar informa sua autoria da indicação e apresenta a destinação do recurso, com informações sobre objeto, valor e local de execução. Dessa maneira, esses registros oferecem uma fotografia interessante sobre a presença do turismo nas decisões parlamentares.
E os números do recorte analisado chamam atenção. Em dezembro de 2024, foram identificados 128 ofícios relacionados às emendas no Ministério do Turismo.
Esse volume se concentra no encerramento do exercício, período em que se intensifica a necessidade de encaminhamento e finalização dos processos relacionados às emendas solicitadas durante o ano vigente e, também, de propostas de anos anteriores que ainda dispunham de prazo para execução.
Esse movimento ocorreu ainda no contexto das eleições municipais de 2024, que demandaram maior atenção dos municípios quanto à conclusão e ao encaminhamento dos processos administrativos e à execução dos recursos.
Já em 2025, foram identificados 6 ofícios em abril, 7 em março, 13 em fevereiro e nenhum em janeiro. Somados, os registros totalizam 154 ofícios no período analisado.
Há ainda um dado que merece atenção: no recorte de 2025 analisado, não foram encontrados pedidos em nome de senadores, enquanto os registros de dezembro de 2024 incluem solicitações de senadores com destinação de recursos para diferentes municípios.
É preciso ter cuidado para não transformar esses números em uma conclusão simplista. Eles representam um recorte dos documentos disponíveis e não significam, sozinhos, que apenas esses parlamentares trabalharam pelo turismo ou que todos os recursos tenham sido efetivamente executados. Alguns ofícios podem tratar de recursos destinados a diversos municípios, e a indicação parlamentar é apenas uma etapa do processo.
Mas é justamente aí que está a questão: se o turismo é prioridade, onde está o dinheiro?
Estamos acostumados a ouvir que o Brasil tem um potencial turístico gigantesco. E tem. Minas Gerais tem patrimônio, gastronomia, cultura, natureza, eventos, negócios e uma diversidade enorme de experiências.
Os municípios também conhecem seus atrativos e suas necessidades. Mas potencial turístico não paga obra de infraestrutura, não restaura patrimônio, não instala sinalização, não qualifica trabalhadores, não promove um destino e não estrutura um produto turístico. Para tudo isso, é necessário orçamento. E orçamento é política.
O presidente da República tem papel fundamental na definição das prioridades nacionais, na condução das políticas federais e na articulação dos ministérios. No turismo, isso significa influenciar a direção das políticas nacionais, os investimentos federais e a promoção do Brasil como destino.
Mas o presidente não governa sozinho. O Congresso Nacional participa da aprovação de leis, do orçamento e de diversas decisões que permitem ou dificultam a execução das políticas públicas.
Por isso, o voto para deputado federal também é um voto relacionado ao turismo. Deputados federais elaboram e aprovam leis, fiscalizam o Poder Executivo, participam da definição do orçamento e podem indicar recursos por meio de emendas parlamentares.
Esses recursos podem contribuir para infraestrutura turística, patrimônio, acessibilidade, qualificação, promoção e estruturação de destinos. Mas a pergunta não deve ser apenas quanto o parlamentar destinou.
Precisamos perguntar também: para quê, para onde, foi empenhado, foi pago, foi executado e qual resultado entregou?
Esse acompanhamento é fundamental para que a discussão sobre emendas parlamentares não fique restrita à fotografia da indicação.
O verdadeiro impacto do recurso aparece quando a política pública chega à ponta e produz resultado para a população e para o território.
O mesmo raciocínio vale para o Senado. Em 2026, cada eleitor escolherá dois senadores. São parlamentares que participam da elaboração das leis, da discussão orçamentária e da fiscalização do governo federal.
Infraestrutura, transporte, meio ambiente, patrimônio cultural, tributação e desenvolvimento regional são alguns dos temas discutidos no Congresso e que interferem diretamente no turismo.
Nem sempre uma proposta vem acompanhada da palavra turismo. E talvez esse seja um dos maiores erros da nossa avaliação. Uma estrada em boas condições é política de turismo. Um aeroporto estruturado é política de turismo.
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Patrimônio preservado é política de turismo. Segurança, mobilidade, acessibilidade, qualificação profissional e conectividade também são.
Em Minas Gerais, o deputado estadual exerce papel semelhante no âmbito do Estado. Participa da elaboração das leis, fiscaliza o governo e discute o orçamento estadual. Pode defender investimentos em estradas, sinalização, patrimônio, cultura, meio ambiente, qualificação e promoção turística.
Um deputado estadual que compreende o turismo precisa entender que a atividade não se resume à divulgação de destinos ou à realização de eventos.
O turista não conhece necessariamente os limites administrativos dos municípios. Uma rota pode envolver três, cinco ou dez cidades. Uma manifestação cultural pode atravessar territórios. Uma experiência gastronômica pode ser regional.
Um patrimônio pode ter significado para toda uma comunidade. Por isso, turismo não se faz isoladamente. União, estados e municípios precisam estar articulados.
Então, talvez a pergunta que deveríamos levar para as eleições seja bastante simples: o candidato entende o turismo como política pública?
Não basta saber se ele gosta de viajar. Não basta publicar uma fotografia em um destino turístico. Não basta participar da abertura de um festival. É preciso perguntar se conhece o setor, se compreende a cadeia produtiva, se sabe a importância do planejamento, se defende orçamento, se acompanha a execução dos recursos e se entende patrimônio, infraestrutura, qualificação, promoção, regionalização e desenvolvimento sustentável.
E, principalmente, é preciso olhar para o histórico, não apenas para a promessa eleitoral. Os dados das emendas parlamentares são apenas um dos caminhos possíveis para essa análise. Podemos cruzá-los com leis apresentadas, votações, discursos, participação em comissões, recursos efetivamente executados e resultados entregues aos municípios.
Porque, se repetimos a cada eleição que o turismo é importante, talvez seja hora de fazer uma pergunta mais incômoda: importante para quem e colocado como prioridade por quem?
O Brasil não precisa mais descobrir que possui potencial turístico.
Minas Gerais também não precisa provar que tem história, cultura, gastronomia, natureza e patrimônio. O que precisamos é transformar potencial em política pública. E política pública exige planejamento, legislação, orçamento, infraestrutura, qualificação, preservação, promoção, articulação e continuidade.
Em outubro, teremos seis votos para fazer escolhas. Que, entre elas, esteja também a escolha sobre quais projetos de país, de Estado e de desenvolvimento queremos construir. E que o turismo deixe de ser lembrado apenas quando falamos de destinos, feriados e viagens.
Antes de chegar ao destino, o turista passa por uma estrada, por um aeroporto, por uma política de segurança, por uma cidade organizada, por um patrimônio preservado, por trabalhadores qualificados e por uma série de decisões tomadas muito antes de ele fazer as malas.
Turismo não se faz apenas com belas paisagens ou bons destinos. Turismo se faz com política pública. E política pública também se escolhe pelo voto.
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