Cultura

TEM MÁQUINA POR AÍ QUERENDO SER ARTISTA!

A inteligência artificial já cria textos, músicas e imagens, mas levanta uma questão essencial: até onde vai a tecnologia e onde começa a experiência humana que transforma cultura em arte?

TEM MÁQUINA POR AÍ QUERENDO SER ARTISTA! -  (crédito: Uai Turismo)
TEM MÁQUINA POR AÍ QUERENDO SER ARTISTA! - (crédito: Uai Turismo)
TEM MÁQUINA POR AÍ QUERENDO SER ARTISTA! (Imagem gerada por IA. (Foto: Gerada por IA))

A inteligência artificial já escreve, compõe, desenha, interpreta vozes e recria imagens, mas, quando a tecnologia entra no território da criação, quem é o autor, de onde vêm as referências e qual será o lugar reservado à sensibilidade humana?

Até pouco tempo, nós nem sonhávamos com uma máquina escrevendo poemas, compondo músicas, criando pinturas ou reproduzindo vozes, tudo isso parecia assunto de ficção científica. Hoje, basta digitar algumas palavras em uma plataforma digital para que, em poucos segundos, surjam textos, imagens, melodias, roteiros, vídeos e personagens que nunca existiram, mas que se fazem reais. Os resultados impressionam!

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Algumas imagens são tão realistas que desafiam o olhar. músicas podem ser produzidas sem que nenhum instrumento seja tocado, vozes conhecidas são recriadas, estilos artísticos são imitados e histórias inteiras aparecem quase instantaneamente na tela.

Diante de tantas possibilidades, a inteligência artificial deixou de ser apenas uma ferramenta utilizada por cientistas e empresas de tecnologia e entrou de vez nos escritórios, nas escolas, nas redações, nos estúdios, nos palcos, nos ateliês e na casa da gente.

A questão é, quando a máquina também parece querer ser artista, precisamos refletir não apenas sobre o que a tecnologia consegue fazer, mas sobre aquilo que entendemos como criação.

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Criar ou reorganizar o que já foi criado?

Na minha compreensão, imagino que a inteligência artificial não acorda inspirada, não sente saudade, não sofre por uma perda e naturalmente não se encanta diante de uma paisagem. Se não contarmos, ela não guarda lembranças da infância, não participa de uma festa religiosa, não conhece o cheiro da comida preparada no fogão a lenha nem experimenta a emoção de ouvir uma antiga canção que marcou determinado momento da nossa vida.

Pelo que percebo, o que ela faz é processar uma quantidade enorme de informações, identificar padrões e reorganizar referências para oferecer uma resposta a um comando recebido. O resultado pode ser tecnicamente admirável, estético e até emocionalmente convincente, mas permanece uma diferença essencial a meu ver, a máquina não viveu aquilo que está representando.

O artista, ao contrário, transforma experiências em linguagem. Uma composição musical pode nascer de uma despedida, um poema pode surgir de uma inquietação, uma pintura pode carregar lembranças, uma dança pode transmitir a memória de uma comunidade.

No fundo, uma obra aparentemente simples guarda escolhas, intenções, hesitações e marcas da trajetória de quem a produziu.

Essa diferença não faz diminuir a importância da tecnologia, porém, serve para lembrar que criatividade não é apenas combinar elementos de maneira eficiente. Criar também é atribuir sentido ao mundo.

E quem ensinou a máquina?

Por trás de cada imagem, texto ou composição gerada por inteligência artificial existe uma dúvida, afinal, com quais conteúdos esses sistemas aprenderam?

As ferramentas de inteligência artificial são desenvolvidas a partir do processamento de enormes quantidades de conteúdos, fotografias, ilustrações, músicas, vídeos, notícias e livros. Boa parte desse material foi criada por escritores, jornalistas, fotógrafos, músicos, designers, cineastas e outros profissionais que dedicaram tempo, conhecimento e recursos à produção de suas obras.

É justamente aí, que o debate deixa de ser apenas tecnológico e passa a envolver ética, autoria e direitos culturais. Artistas de diferentes partes do mundo questionam se seus trabalhos foram utilizados no treinamento dessas ferramentas sem autorização, identificação ou remuneração.

No Brasil, essa discussão ganhou novos contornos. Em agosto de 2026, um escritor recorreu à Justiça alegando o uso não autorizado de suas obras por um sistema de inteligência artificial. Pouco depois, a Câmara dos Deputados aprovou o novo Plano Nacional de Cultura, que inclui, entre suas diretrizes, a proteção dos direitos autorais no ambiente digital e no contexto da inteligência artificial.

É uma questão complexa e ainda não possui respostas definitivas, imagino, mas uma pergunta precisa acompanhar o avanço tecnológico, é justo desenvolver produtos economicamente viáveis, baseados em obras e criações de terceiros?

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Ferramenta, parceira ou concorrente?

Seria precipitado tratar a inteligência artificial apenas como uma ameaça. Para muitos profissionais, especialmente aqueles que trabalham de forma independente ou possuem poucos recursos, ela pode representar uma importante ferramenta de apoio e de fato, hoje em dia é uma ferramenta utilizada em quase todos os ambientes do mundo corporativo.

Os artistas em geral, podem utilizar a IA para fins diversos e certamente o resultado só melhora a finalização dos eventuais produtos. Fiz um MBA em Leis de Incentivo e conheci um prompt ou um assistente em elaboração de projetos, que facilita e muito a vida dos produtores culturais.

Escritores podem organizar pesquisas, produtores culturais podem sistematizar informações e empreendedores criativos podem alcançar públicos antes distantes. Nesse sentido, a tecnologia pode democratizar conhecimentos, reduzir barreiras e ampliar possibilidades. O problema e o grande receio começam quando a ferramenta, teoricamente de apoio, passa a ser utilizada para substituir integralmente o trabalho de quem cria.

É bom reforçar, que não se trata de negar a inovação ou impedir o surgimento de novas linguagens. A história da cultura sempre esteve relacionada às transformações tecnológicas. A fotografia provocou mudanças nas artes visuais, o cinema alterou a forma de contar histórias, a televisão reorganizou hábitos culturais e a internet modificou a produção, a divulgação e o consumo de conteúdos, isso é fato!

Em todos esses momentos, artistas aprenderam a conviver com novas ferramentas, na criação e na prática artística e aprenderam também, a questionar seus impactos. Com a inteligência artificial não será diferente, a inovação pode avançar, mas precisa vir acompanhada de transparência, responsabilidade e respeito aos direitos de quem ajudou a construir o conhecimento que alimenta essas tecnologias.

O risco de uma cultura sem território

Importante ficarmos atentos, pois existe ainda outro aspecto que merece atenção. A cultura nasce dos territórios, dos lugares. Ela está presente nos sotaques, nas festas, nos modos de fazer, nas crenças, nas paisagens, nas receitas, nas músicas e nas histórias transmitidas entre gerações.

Uma música composta em Minas Gerais pode carregar montanhas, sinos, religiosidade, mineração, ruralidade e memórias familiares. Uma manifestação cultural do Pará pode expressar os rios, a floresta, os deslocamentos, os sabores, os conflitos e as formas de resistência de suas comunidades.

Quando sistemas digitais passam a produzir conteúdo com base em padrões gerais de aceitação, existe o risco de termos criações cada vez mais eficientes, mas também mais parecidas entre si. Teremos imagens muito bonitas, músicas agradáveis e textos bem-organizados, porém, muitas vezes, sem as marcas que revelam de onde vieram e a quem pertencem.

Sei que parece estranho essa reflexão toda, a essa altura, mas, sejamos sinceros, a padronização cultural é um risco, apesar de que, isso não começou com a inteligência artificial. A indústria do entretenimento, as redes sociais e os algoritmos já influenciam comportamentos e preferências. A questão é que agora essa padronização pode alcançar também o próprio processo de criação.

Se não houver cuidado, a facilidade de produzir conteúdo poderá estimular uma cultura visualmente atraente, consumível e facilmente descartável e o pior, desconectada das experiências e identidades que dão sentido à vida coletiva.

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E o público, saberá distinguir?

Outra mudança importante está na relação de confiança entre obra e público. Quando ouvimos uma música, lemos um poema ou observamos uma fotografia, geralmente pressupomos que existe uma pessoa por trás daquela criação, ou seja, alguém que tenha feito escolhas, assumido uma posição e decidido compartilhar uma experiência.

Com a inteligência artificial, essa relação se torna menos evidente. Uma voz pode pertencer a quem nunca cantou aquela música. Uma imagem pode registrar um acontecimento que jamais ocorreu. Um texto pode imitar o estilo de um autor que nunca escreveu aquelas palavras. Uma pessoa já falecida pode aparentemente retornar para anunciar produtos ou defender ideias.

Por isso, identificar conteúdos gerados ou alterados por inteligência artificial não deveria ser visto como um detalhe e sim como uma condição necessária para preservar a confiança, proteger trajetórias e permitir que o público compreenda aquilo que está consumindo.

A transparência não impede a experimentação artística, ao contrário, ajuda a estabelecer uma relação mais honesta entre criadores, tecnologias e sociedade.

O artista continua sendo necessário

Penso que a pergunta mais importante não seja se a inteligência artificial conseguirá substituir o artista. A questão é saber que valor estaremos dispostos a atribuir à criação humana em um mundo no qual conteúdos podem ser produzidos em escala, com velocidade e com custos cada vez menores.

A tecnologia pode sugerir acordes, mas não vive a emoção que inspira uma composição. Ela pode escrever sobre uma festa popular, mas não sente o chão tremer com os tambores. pode reconstruir digitalmente uma cidade histórica, mas não compreende o significado afetivo de uma praça, de uma igreja ou de uma casa para seus moradores e o instinto de convivência.

O futuro provavelmente não será dividido entre artistas de um lado e máquinas do outro, mas será construído por pessoas que aprenderão a utilizar novas ferramentas, estabelecer limites e desenvolver formas de criação que ainda não conseguimos imaginar.

No entanto, essa convivência só será justa se os criadores forem reconhecidos, se suas obras não forem apropriadas silenciosamente e se a eficiência tecnológica não for utilizada como justificativa para tornar precário o trabalho cultural.

Como músico, produtor cultural e alguém que aprendeu a reconhecer a cultura nas histórias, nos sons e nos modos de viver de cada território, não consigo imaginar a criação separada da experiência humana. A máquina pode sugerir acordes, organizar palavras e produzir imagens surpreendentes, mas ainda somos nós que conhecemos a saudade, o medo, a esperança, a fé e o pertencimento, que aliás, anda desaparecido em muitos lugares.

Talvez o futuro da arte não dependa de impedir que a máquina crie, mas de assegurar que, por trás de cada nova ferramenta, o ser humano continue sendo reconhecido, respeitado e lembrado.

Até a próxima.

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Uai Turismo
Ubiraney Silva - Uai Turismo
postado em 12/09/2026 06:11
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