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Bets mudam a relação entre turismo, consumo e esporte no Brasil e agora entram em uma nova fase

Apostas movimentaram bilhões, ajudaram a financiar esporte e turismo, mas também passaram a disputar o orçamento destinado ao lazer. Com a possibilidade de saída das plataformas do país, o setor turístico enfrenta novos cenários

Bets mudam a relação entre turismo, consumo e esporte no Brasil e agora entram em uma nova fase -  (crédito: Uai Turismo)
Bets mudam a relação entre turismo, consumo e esporte no Brasil e agora entram em uma nova fase - (crédito: Uai Turismo)
Bets mudam a relação entre turismo, consumo e esporte no Brasil e agora entram em uma nova fase (A emoção do futebol ao vivo na palma da sua mão! Seja para analisar as estatísticas, conferir as odds do clássico ou torcer pelo seu time do coração, as plataformas de apostas transformaram a forma como vivenciamos cada minuto do jogo. (Foto: Uai Turismo IA))

Durante pouco mais de uma década, as apostas esportivas, bets, passaram de uma atividade restrita a poucos usuários para um dos mercados digitais de maior crescimento no Brasil. Nesse percurso, as chamadas bets passaram a ocupar espaço no futebol, na publicidade, no entretenimento e nas finanças das famílias e também estabeleceram uma relação indireta com o turismo.

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Agora, essa trajetória entra em uma nova fase. Em 25 de setembro de 2026, o governo federal publicou a Medida Provisória 1.394, que proíbe a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade das apostas de quota fixa no país. A medida alcança tanto as apostas esportivas quanto os jogos on-line e determina que sites e aplicativos deixem de operar a partir de 6 de outubro. O texto também estabelece regras para a devolução dos valores que permanecerem nas contas dos apostadores.

A MP, porém, ainda depende da análise do Congresso Nacional. Portanto, o fim das bets deve ser entendido, neste momento, como o cenário estabelecido pela medida provisória, e não como uma mudança legislativa definitivamente consolidada.

A discussão interessa ao turismo porque as apostas passaram a disputar o mesmo orçamento destinado a lazer, entretenimento e consumo. Ao mesmo tempo, o próprio setor se tornou fonte de arrecadação pública e de recursos para o esporte, dois segmentos que têm ligação direta com a atividade turística.

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De atividade permitida a mercado regulamentado

A história recente das bets no Brasil começou antes da atual onda de plataformas digitais. As apostas esportivas de quota fixa foram legalizadas em 2018. Em 2023, a Lei 14.790 ampliou o marco legal para incluir os jogos on-line e estabeleceu novas regras para a exploração da atividade.

A regulamentação federal avançou em 2024 e entrou efetivamente em uma nova etapa em 1º de janeiro de 2025. Desde então, somente empresas autorizadas pela Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda poderiam operar nacionalmente, dentro das regras estabelecidas pelo governo.

Foi justamente em 2025 que a dimensão econômica do mercado ficou mais evidente. Dados obtidos pelo Ministério da Fazenda por meio da Lei de Acesso à Informação mostram que o volume de apostas passou de R$ 442,8 bilhões no primeiro semestre para R$ 587,2 bilhões no segundo, crescimento de 32,6%.

Na distribuição da arrecadação, esporte e turismo apareceram entre os principais destinos dos recursos: R$ 1,6 bilhão para o esporte e R$ 1,26 bilhão para o turismo.

Isso criou uma situação contraditória. Enquanto as bets passaram a retirar recursos do orçamento de parte das famílias, também começaram a gerar dinheiro para setores que movimentam viagens, eventos e entretenimento.

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O dinheiro que deixa de viajar

É nesse ponto que o impacto das bets sobre o turismo doméstico se torna mais perceptível.

Uma viagem normalmente distribui o gasto por diferentes atividades: transporte, hospedagem, alimentação, passeios, ingressos, comércio e serviços. Uma aposta, por sua vez, acontece de maneira essencialmente digital e pode concentrar o fluxo financeiro na plataforma que intermedeia a operação.

A FecomercioSP chamou atenção para essa disputa pelo orçamento de lazer antes mesmo da atual decisão de proibição. Em estudo relacionado à Copa do Mundo de 2026, a entidade apontou que 39% dos entrevistados que apostavam disseram que, sem as apostas, destinariam o dinheiro a lazer. O levantamento também mostrou frequência elevada de apostas entre as faixas de menor renda.

Outro levantamento, do Comitê Nacional de Secretários de Fazenda (Comsefaz), estimou que as famílias brasileiras tiveram perda líquida de R$ 62,5 bilhões para as bets em 2025. O valor corresponde à diferença entre o que foi apostado e o que retornou aos jogadores em prêmios. No mesmo período analisado, as plataformas movimentaram quase R$ 351 bilhões em transações via Pix.

Um estudo do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades (Made), ligado à FEA-USP, chegou a outra dimensão para o fenômeno. A pesquisa estimou que as apostas reduziram o consumo e retiraram entre R$ 120 bilhões e R$ 141 bilhões da atividade econômica brasileira em 2025, equivalente a 0,9% a 1,1% do PIB. As entidades ligadas ao setor de apostas contestam interpretações desse tipo e a metodologia utilizada para calcular o efeito sobre a economia.

Para o turismo, a questão não é apenas quanto dinheiro foi apostado, mas qual consumo deixou de acontecer em seu lugar.

Um fim de semana em uma cidade histórica, uma viagem de carro, uma diária em uma pousada, uma refeição em um restaurante ou um ingresso para uma atração cultural distribuem recursos por uma cadeia de empresas e trabalhadores. Parte desse consumo pode simplesmente deixar de existir quando o orçamento familiar é direcionado para apostas.

Da ilusão dos cliques à realidade do destino: o verdadeiro ganho está na experiência. (Foto: Uai Turismo IA)

O outro lado da conta

A relação entre bets e turismo, entretanto, não pode ser analisada somente pelo dinheiro que deixou de circular em viagens.

Durante o período de regulamentação, o setor passou a contribuir para a arrecadação federal e para o financiamento de áreas ligadas ao esporte e ao turismo. Os dados de 2025 mostram que turismo e esporte concentraram parcela significativa dos recursos destinados pela legislação.

Há ainda uma conexão importante com o futebol. Levantamento da Sports Value aponta que as casas de apostas destinaram aproximadamente R$ 1,1 bilhão aos 20 maiores clubes brasileiros em 2025. O valor correspondeu a cerca de 34% das receitas de marketing dessas equipes.

O efeito chega ao turismo por diferentes caminhos. Grandes partidas, finais de campeonatos, torneios internacionais e eventos esportivos geram deslocamentos de torcedores, ocupação hoteleira, consumo em bares e restaurantes e utilização de serviços de transporte.

Quando uma empresa de apostas patrocina um clube, ela não está necessariamente financiando diretamente uma viagem, mas ajuda a sustentar uma cadeia esportiva que também produz deslocamentos e eventos. A retirada dessas marcas, portanto, cria uma necessidade de substituição.

O cenário se as bets continuarem

Caso o Congresso não confirme a proibição e o mercado volte a operar sob algum modelo regulado, o setor entrará em uma segunda etapa de sua história.

O primeiro desafio será conciliar arrecadação e atividade econômica com mecanismos de proteção ao consumidor. O próprio modelo regulatório criado a partir de 2024 já incorporava regras de jogo responsável, publicidade e fiscalização.

Nesse cenário, o turismo continuaria diante de uma dupla realidade. De um lado, permaneceria a disputa pelo dinheiro destinado ao lazer. A aposta pode competir com viagens, restaurantes, shows e outras formas de entretenimento, especialmente entre consumidores com orçamento mais limitado.

De outro, permaneceriam os recursos públicos provenientes da atividade e os investimentos privados em esporte, publicidade e entretenimento.

Para o turismo, a discussão passaria então pela capacidade de transformar uma parcela maior do dinheiro disponível para lazer em consumo efetivo de viagens e experiências, sem ignorar a contribuição fiscal e econômica que o setor de apostas passou a representar.

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O cenário sem as bets

Se a proibição estabelecida pela MP avançar e o mercado legal deixar definitivamente de operar, o impacto será imediato em algumas áreas e gradual em outras.

A primeira mudança será a retirada das plataformas de publicidade e patrocínios. A MP determina também o fim de novos contratos e estabelece a retirada de materiais publicitários e de patrocínio.

No futebol, clubes precisarão substituir uma fonte relevante de receita comercial. O valor de aproximadamente R$ 1,1 bilhão recebido pelos 20 maiores clubes em 2025 dá uma dimensão do tamanho desse desafio.

No turismo, a consequência pode ocorrer em duas direções. A primeira é a perda de parte da arrecadação que vinha sendo destinada ao setor. A segunda é a possibilidade de que uma parcela do dinheiro anteriormente direcionado às apostas volte a disputar espaço no consumo tradicional.

Isso, porém, não significa que os R$ 62,5 bilhões estimados como perda líquida das famílias em 2025 se transformarão automaticamente em viagens. O dinheiro pode ser usado para pagar dívidas, recompor poupança, comprar produtos, quitar despesas domésticas ou simplesmente permanecer fora do consumo.

É justamente essa incerteza que torna o efeito sobre o turismo difícil de medir antecipadamente.

Turismo internacional também entra na discussão

No mercado internacional, a relação é menos direta. As bets não substituem necessariamente uma viagem internacional da mesma maneira que podem competir com um fim de semana em um destino brasileiro. Ainda assim, o volume financeiro do mercado de apostas ganhou escala suficiente para entrar na discussão sobre saída e circulação de recursos.

Para o turismo receptivo, o ponto central é diferente: enquanto o visitante estrangeiro traz dinheiro para o Brasil e o distribui por hotéis, restaurantes, transporte, atrativos e comércio, uma aposta realizada em uma plataforma digital não produz o mesmo tipo de circulação territorial.

Por isso, a comparação entre os dois mercados deve ser feita com cautela. O dinheiro movimentado em apostas não é equivalente à receita turística, e o volume bruto apostado também não corresponde ao dinheiro efetivamente perdido pelas famílias.

Ainda assim, os números ajudam a dimensionar o tamanho da disputa pelo orçamento destinado ao lazer e ao entretenimento.

Bets deixam uma pergunta para o turismo: para onde vai o dinheiro do lazer?

As bets chegaram a um ponto em que já não podem ser analisadas apenas como uma modalidade de entretenimento. Em poucos anos, passaram a movimentar bilhões, ocupar espaço no futebol, gerar arrecadação para o poder público e disputar diretamente o orçamento destinado ao lazer. Ao mesmo tempo, estudos apontaram efeitos sobre o consumo das famílias e levantaram preocupações relacionadas ao endividamento e ao jogo problemático.

Para o turismo, a questão ganha uma dimensão própria. Uma viagem distribui dinheiro por hotéis, restaurantes, transporte, comércio, atrações e trabalhadores locais. As apostas funcionam de outra maneira, em uma cadeia essencialmente digital. Mas parte dos recursos gerados pelas bets também retornou à economia por meio de impostos, patrocínios esportivos e investimentos em setores ligados ao entretenimento.

Com a possibilidade de uma saída definitiva das plataformas, surge agora uma experiência econômica que ainda não tem resposta pronta. O dinheiro que antes era destinado às apostas poderá voltar para o consumo, mas não necessariamente para viagens. Poderá pagar dívidas, recompor a renda das famílias, financiar outros produtos e serviços ou simplesmente deixar de circular.

É justamente aí que o turismo terá uma nova disputa pela frente. Mais do que saber se as bets permanecerão ou desaparecerão, será preciso observar como o brasileiro escolherá gastar seu dinheiro quando uma das principais opções de entretenimento digital deixar de estar disponível.

Se bilhões de reais mudarem de destino, o próximo grande capítulo será descobrir: esse dinheiro vai voltar para as viagens, para o lazer e para as cidades turísticas ou encontrará outro caminho?

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Uai Turismo
Vinicius Espírito Santo - Uai Turismo
postado em 29/09/2026 14:05
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