Literatura

A Brasília de Renato Russo e Eduardo e Mônica

Parque da Cidade, Espaço Cultural Renato Russo e SQS 303 Sul ajudam a contar a relação do músico com a capital que marcou sua trajetória e suas canções

A Brasília de Renato Russo e Eduardo e Mônica -  (crédito: Uai Turismo)
A Brasília de Renato Russo e Eduardo e Mônica - (crédito: Uai Turismo)
A Brasília de Renato Russo e Eduardo e Mônica (Placa do Espaco Cultural Renato Russo, na 508 Sul, que homenageia o musico que fez de Brasilia parte de sua historia e de suas cancoes. (Foto: Divulgacao) )

As três casas de Pablo Neruda são atrações turísticas fundamentais no Chile; Jorge Amado é referenciado em diversas cidades, como Salvador e Ilhéus; a casa de Anne Frank é um dos museus mais visitados de Amsterdam. Seria natural então esperar que Brasília referenciasse seu maior poeta, Renato Russo.

Renato Manfredini, o homem, nasceu no Rio de Janeiro em 1960. Mas Renato Russo, o artista, nasceu em Brasília, onde criou o Aborto Elétrico, em 1978, e, depois, a Legião Urbana, em 1982. Mais do que isso, Renato colocou Brasília em suas músicas. Eduardo e Mônica se encontram no Parque da Cidade; João de Santo Cristo, em Faroeste Caboclo, chega à Rodoviária e passa por Taguatinga, Planaltina, Sobradinho e Ceilândia; e a própria cidade é personagem de Tédio, que Renato definiu como um hino punk de Brasília.

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Mas as referências ao grande compositor, considerado por Nelson Motta como o Chico Buarque do rock, são muito tímidas na cidade. Há um Viaduto Renato Russo fazendo a ligação entre o Eixo Monumental e a Estrada Parque Indústria e Abastecimento, um Espaço Cultural Renato Russo, uma estátua alusiva a Eduardo e Mônica no Parque da Cidade e uma placa em homenagem ao cantor na quadra em que viveu. Mas ele é referenciado, não reverenciado.

No Parque da Cidade, onde Eduardo e Mônica se encontraram na música baseada em uma história real de um casal que se conheceu nesse parque há um monumento bonito com a cifra da música, próximo ao lago. E próximo a ele há um busto de… Gandhi.

Escultura alusiva a cancao Eduardo e Monica. (Foto: Divulgacão)

O local que hoje se chama Espaço Cultural Renato Russo começou como Teatro Galpão, em 1974, instalado em antigos galpões da Fundação Cultural do Distrito Federal. Em 1977, o complexo foi ampliado e passou a se chamar Centro de Criatividade, tornando-se um importante ponto de encontro da produção artística brasiliense. Renato frequentou o lugar ainda muito jovem, se apresentou por lá aos 17 anos, depois se apresentou com o Aborto Elétrico. Só que não há nenhuma referência ao compositor além do nome. Nenhuma imagem, foto, busto, nem alusão a suas canções.

Na quadra SQS 303 Sul, em que Renato viveu em Brasília e onde nasceram muitos dos encontros que gerariam as futuras bandas, uma placa na beira da avenida faz uma alusão tímida ao seu ilustre morador. E para encontrar a placa tivemos de perguntar para os porteiros dos prédios da região, porque o Google nos colocou mais para dentro da quadra. Triste, aliás, que uma porteira não sabia quem era Renato Russo, outra tinha ouvido falar que ele morara por ali, mas não sabia da placa, e um terceiro pelo menos deu a direção de onde “parecia ter uma placa”.

Prédio em que viveu Renato Russo. (Foto: Divulgação)

Aí fico pensando se não era para ter uma estátua dele ali na quadra, ou pelo menos um busto, como o de Gandhi no local da homenagem a Eduardo e Mônica (aliás, tem uma estátua do Renato na Ilha do Governador, RJ, onde ele nasceu, mas não em Brasília, cidade que imortalizou). Se não poderia também haver shows semanais de bandas cover do Legião no centro cultural que leva seu nome, se não poderia haver um circuito sobre os locais citados em algumas das músicas. Então, na verdade, esse acaba sendo um texto que poderia ter sido escrito sobre a relação de Renato Russo com Brasília e o que visitar para entender essa relação, para matar a saudade do músico ou das letras que embalaram a juventude da minha geração e segue emocionando jovens de hoje. Mas acaba sendo uma reflexão sobre o porquê do seu relativo apagamento.

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A Brasília de fora do eixo

O legal de termos ido atrás das referências a Renato na capital é que descobrimos uma Brasília para além do Eixo Monumental, famoso pelas magníficas construções de Niemayer.

A quadra SQS 303 Sul, onde o músico viveu, é um belo exemplo de como funcionam as quadras planejadas do plano piloto da cidade, com escola, posto de gasolina e comércio em locais delimitados, além de prédios cujo andar térreo são abertos e permitem a circulação.

Lago do Parque da Cidade, onde a paisagem de Brasília se encontra com a memória de Eduardo e Mônica. (Foto: Divulgação)

No Parque da Cidade, oficialmente chamado de Parque da Cidade Dona Sarah Kubitschek, descobrimos uma excelente pista de caminhada ou corrida, separada da pista de ciclistas e patinetes, além de um belo lago, uma incrível estrutura de kart e tantas outras atrações. Com seus 420 hectares, é considerado o maior parque urbano da América Latina, com quase 80 hectares a mais que o famoso Central Park, de Nova York.

Eu já havia estado na Capital outras três vezes e nunca me ocorreu ir ao Parque (ao contrário de São Paulo, em que sempre faço questão de ir ao Ibirapuera), e foi uma grata surpresa. Especialmente pela coincidência do que encontraríamos em um domingo à tardinha, um saxofonista tocando Legião em pleno pôr do sol.

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Projeto Pôr do Sol no Parque toca Legião Urbana

O projeto Pôr do Sol no Parque surgiu em 2024, inspirado no evento Pôr do Sol da Praia do Jacaré, em Cabedelo, cidade vizinha de João Pessoa, no qual um saxofonista dentro de uma canoa toca o Bolero, de Ravel, como homenagem ao pôr do sol. Por lá, tornou-se um importante ponto turístico que diariamente leva centenas de pessoas para assistir ao pôr do sol às margens do rio Paraíba.

Projeto Pôr do Sol no Parque leva música ao entardecer às margens do lago em Brasília. (Foto: Divulgação)

Em Brasília, a ideia ganhou uma versão própria: o saxofonista Luno Delluci apresenta-se às margens do lago do Parque da Cidade, acompanhando o entardecer. Mas o evento ocorre ocasionalmente em 2026 foi de 16 de agosto a 11 de outubro.

Na versão brasiliense do evento, o saxofonista inicia pelo Bolero, mas segue com outras tantas músicas de acordo com a temática proposta pelo evento naquele dia. E tivemos a sorte de participar do evento justo no dia em que o tema era Legião Urbana e Renato Russo. Foi o ponto alto desta busca por referências ao poeta pela cidade com uma seleção de repertório que incluiu grandes sucessos como Tempo Perdido, Vento no Litoral, Pais e Filhos e, claro, Eduardo e Mônica.

Ver aquela multidão reunida em torno do lago para ouvir Renato no parque que ele frequentou foi uma experiência única. Mas foi pura sorte nossa estar naquele fim de semana específico do ano ali, pois o evento varia o repertório a cada domingo (o próximo seria MPB e depois temas da Disney, por exemplo).

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Uai Turismo
Marcelo Spalding - Uai Turismo
postado em 02/10/2026 06:13
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