
À medida que se aproximam o dia da votação para o segundo turno das eleições presidenciais de 2026, o debate sobre as propostas dos candidatos para diferentes setores ganha relevância. Como o turismo ocupa papel estratégico na geração de emprego e renda, na valorização do patrimônio cultural e natural e no desenvolvimento dos territórios, a proposta é apresentar, de forma objetiva, as prioridades, os investimentos e as estratégias para o desenvolvimento do turismo brasileiro previstas nos planos de governo de Lula e Flávio Bolsonaro para os próximos quatro anos.
Os programas de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) reconhecem o potencial econômico do turismo, mas apresentam abordagens distintas para impulsionar a atividade. Enquanto o plano de Flávio relaciona o crescimento do setor principalmente à infraestrutura, à segurança e à integração regional, o de Lula enfatiza a diversificação de destinos e experiências, a economia criativa, o financiamento, a promoção internacional e a conservação ambiental. Os documentos oficiais estão disponíveis no Tribunal Superior Eleitoral.
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Lula: diversidade de destinos, economia criativa e turismo sustentável
No plano de governo de Lula, o turismo é apresentado como um dos pilares da economia e do desenvolvimento regional. O documento faz um balanço do atual mandato e afirma que houve crescimento das viagens domésticas e recorde na entrada de turistas estrangeiros. Também menciona US$ 10,4 bilhões em gastos de visitantes internacionais e mais de 6 mil operações apoiadas pelo Fundo Geral de Turismo (Fungetur), com R$ 2,8 bilhões mobilizados. Esses números são apresentados pelo próprio programa como resultados do período e fundamentam a proposta de continuidade.
Para um eventual novo mandato, a intenção é ampliar a contribuição do turismo para o Produto Interno Bruto (PIB), apoiando destinos de diferentes regiões e explorando a riqueza natural e a diversidade cultural brasileira.
Um dos eixos da proposta é a aproximação entre turismo e economia criativa. Artes, música e gastronomia são apontadas como áreas que podem atuar conjuntamente para criar experiências diferenciadas e ampliar a oferta de produtos turísticos. O programa também prevê o desenvolvimento e a promoção de roteiros temáticos ligados à gastronomia, à arte, à cultura e ao ecoturismo, inclusive para atender a segmentos específicos do mercado.
A promoção internacional é outra prioridade. O objetivo é ampliar a presença do Brasil no mercado turístico global, diversificando os segmentos de atuação e os destinos divulgados no exterior.
No financiamento, o plano propõe dar continuidade ao apoio ao setor por meio do Fungetur, instrumento de crédito destinado à atividade turística. A medida busca manter os mecanismos de financiamento para empreendimentos e estimular o desenvolvimento dos negócios ligados ao turismo.
A sustentabilidade também aparece de forma explícita. O documento prevê incentivos à criação de Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPNs) e uma política de valorização dos 75 parques nacionais, associando conservação ambiental, turismo sustentável, desenvolvimento regional e educação ambiental.
As diretrizes dialogam com o Plano Nacional de Turismo 20242027, que estabelece ações de regionalização, desenvolvimento de produtos e experiências, sustentabilidade, qualificação profissional, promoção, mobilidade, crédito e atração de investimentos. Entre suas metas estão ampliar o número de municípios turísticos, os empregos formais no setor, as viagens domésticas e a entrada de visitantes internacionais.
Flávio Bolsonaro: infraestrutura, segurança e integração regional
No plano de governo de Flávio Bolsonaro, o turismo está inserido no eixo denominado Brasil que Cresce, ao lado de temas como infraestrutura, energia, agronegócio, tecnologia, meio ambiente e inserção internacional. O setor é apresentado como uma vocação econômica ainda subaproveitada, cujo potencial poderia ser ampliado com melhorias na infraestrutura e nas condições de circulação de visitantes.
O programa destaca praias, florestas, patrimônio histórico e cultural, festas e outras manifestações da diversidade brasileira como ativos turísticos. A proposta é associar a promoção do Brasil à valorização das características de cada região, buscando gerar emprego e renda também no interior e em áreas consideradas menos desenvolvidas.
A infraestrutura de transporte ocupa espaço importante nessa estratégia. O plano prevê investimentos de R$ 900 bilhões em quatro anos em rodovias, hidrovias, portos, aeroportos e ferrovias, com participação de concessões, parcerias público-privadas e investimentos privados.
Entre os projetos ferroviários citados está o Trem do Nordeste, uma malha de passageiros de 1.400 quilômetros ligando Salvador, Aracaju, Maceió, Recife, João Pessoa, Natal e Fortaleza. Segundo o documento, a ligação também teria função turística, aproximando praias, cidades históricas e polos culturais.
O plano propõe ainda a conclusão da Transnordestina e a ampliação de seu escopo para contemplar a Paraíba e o Rio Grande do Norte. A integração entre transporte, produção e turismo é apresentada como uma estratégia de desenvolvimento regional, especialmente para o Nordeste.
A segurança pública também é apontada como condição para o crescimento da atividade. O programa afirma que a capacidade de receber turistas brasileiros e estrangeiros depende de um ambiente seguro. Nesse contexto, a segurança turística não é tratada como uma política isolada, mas como parte de uma agenda mais ampla de segurança pública.
Assim, a proposta de Flávio Bolsonaro associa o desenvolvimento do turismo à expansão da infraestrutura, à melhoria da conectividade, à segurança, à participação de investimentos privados e à integração territorial.
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Duas estratégias para o turismo brasileiro
A principal diferença entre os programas está nos instrumentos escolhidos para ampliar a participação do turismo no desenvolvimento nacional.
No plano de Flávio Bolsonaro, destaca-se a conexão entre transporte, infraestrutura e atividade turística. O Trem do Nordeste exemplifica essa abordagem ao propor uma ligação ferroviária de passageiros que poderá articular capitais, praias, cidades históricas e polos culturais. A segurança pública e a atração de investimentos privados também ocupam posições centrais na estratégia.
Um ponto que merece atenção é a ausência de detalhamento sobre a estrutura institucional responsável pela execução das políticas de turismo. Embora o programa reconheça a importância econômica do setor, não informa se pretende manter o Ministério do Turismo em sua configuração atual nem esclarece como seriam tratados programas e instrumentos existentes, como o Fungetur, o Cadastur, o Programa de Regionalização do Turismo e o Plano Nacional de Turismo. O documento apresenta diretrizes gerais para o desenvolvimento da atividade, mas não especifica como se daria a continuidade ou a reformulação dessas políticas.
Já o plano de Lula concentra suas propostas na diversificação da oferta turística, na criação de novos produtos e roteiros, na aproximação com a economia criativa, no financiamento aos empreendedores e na promoção internacional. A conservação ambiental também recebe destaque, com medidas voltadas aos parques nacionais e às RPPNs.
Essa diferença se reflete na abordagem do patrimônio natural. Enquanto Lula explicita a valorização das áreas protegidas como parte de uma estratégia de turismo sustentável, o plano de Flávio enfatiza o potencial econômico da biodiversidade preservada, da bioeconomia e do desenvolvimento regional. O segundo turno coloca em debate diferentes caminhos para o futuro do turismo brasileiro. Embora os dois candidatos reconheçam sua capacidade de gerar emprego, renda e desenvolvimento, os programas apresentam prioridades distintas: de um lado, infraestrutura, segurança e integração territorial; de outro, diversificação de experiências, economia criativa, financiamento e sustentabilidade. A implementação dessas diretrizes dependerá das políticas, dos recursos e das estruturas institucionais que vierem a ser definidos em um eventual novo governo.
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