
O turismo de pesca costuma ser associado a barcos, equipamentos, técnicas de captura e, principalmente, ao público masculino. Mas será que essa é a única forma de compreender esse segmento? A experiência do grupo Elas no Velho Chico, formado por mulheres que viajam para pescar em Três Marias, em Minas Gerais, ajuda a ampliar essa perspectiva e traz questões importantes sobre o comportamento dos turistas, a diversificação dos produtos turísticos e as oportunidades de desenvolvimento dos destinos.
O grupo surgiu em Contagem a partir da iniciativa de mulheres que queriam compartilhar uma experiência de pesca e aproveitar alguns dias fora da rotina. O que começou como um encontro entre amigas ganhou novas proporções e passou a atrair participantes de diferentes lugares, muitas delas por indicação ou pelas redes sociais. Segundo Larissa, uma das organizadoras, o grupo já soma 268 mulheres considerando as participantes das diferentes edições.
Fique por dentro das notícias que importam para você!
O crescimento da iniciativa chama a atenção para um aspecto relevante do mercado turístico: a formação de grupos em torno de interesses específicos. Em vez de escolher uma viagem exclusivamente pelo destino, essas mulheres se organizam a partir de uma atividade que desejam praticar e encontram no deslocamento uma oportunidade de lazer, convivência e aprendizado. A pesca é o elemento que conecta as participantes, mas a experiência inclui outros componentes, como o contato com a natureza, a troca de conhecimentos e a possibilidade de conhecer pessoas com interesses semelhantes.
Para quem trabalha com planejamento turístico, esse comportamento merece atenção. Grupos organizados por afinidades podem contribuir para a estruturação de demandas mais previsíveis, favorecer a realização de viagens recorrentes e estimular a divulgação espontânea de destinos. Quando uma experiência agrada, as próprias participantes se tornam agentes de divulgação, compartilhando registros, recomendações e informações que podem despertar o interesse de novas viajantes.
LEIA MAIS: Do Bolshoi ao jacaré do Natal: descubra Joinville
Três Marias, às margens do rio São Francisco, oferece um contexto favorável para esse tipo de atividade. A relação do município com as águas e a pesca constitui um atributo importante de sua identidade turística. Entretanto, a existência de recursos naturais não garante, por si só, a consolidação de um destino. É necessário compreender quem o visita, quais experiências procura, como organiza sua viagem, quanto tempo permanece e quais serviços utiliza durante a estadia.
É nesse ponto que o turismo de pesca pode ser analisado para além da atividade realizada no rio. A hospedagem, a alimentação, o transporte, a contratação de condutores e piloteiros, a locação de embarcações e a aquisição de equipamentos podem integrar a cadeia de serviços associada à viagem. O impacto econômico efetivo depende, contudo, da estrutura de cada operação e da parcela dos gastos que permanece no município. Por isso, conhecer o perfil dos visitantes e acompanhar seus hábitos de consumo são medidas importantes para avaliar as oportunidades de desenvolvimento local.
A experiência do Elas no Velho Chico também evidencia a necessidade de observar a diversidade do público que consome produtos turísticos tradicionalmente direcionados a determinados perfis. A pesca recreativa não precisa ser divulgada apenas a partir de uma imagem masculina, nem o turismo de pesca deve ser compreendido exclusivamente pela técnica ou pelo resultado da pescaria. Há diferentes motivações para participar dessa atividade, e reconhecê-las permite ampliar a comunicação dos destinos e alcançar novos públicos.
Essa discussão envolve também a participação feminina em espaços historicamente associados aos homens. A presença de mulheres viajando em grupo para pescar questiona estereótipos sobre quem pratica a atividade e quais experiências são consideradas adequadas a cada gênero. Do ponto de vista do mercado, essa mudança convida empreendimentos e destinos a reverem suas estratégias de divulgação, acolhimento e oferta de serviços, sem presumir que todas as mulheres tenham as mesmas preferências ou necessidades.
Segundo Larissa, algumas participantes chegam sem conhecer as demais e acabam estabelecendo novas amizades durante a viagem. Outras buscam principalmente aprender a pescar ou desfrutar do contato com a natureza. Há, portanto, diferentes expectativas reunidas em uma mesma experiência. Para parte das integrantes, a convivência e o afastamento temporário da rotina são tão importantes quanto a própria pesca.
Esse dado permite refletir sobre o conceito de experiência turística. O valor percebido pelo visitante não está necessariamente concentrado no atrativo principal, mas na combinação de atividades, relações, serviços e condições que compõem a viagem. No caso do grupo, a pescaria funciona como eixo organizador, enquanto a paisagem, as conversas e a convivência complementam a experiência. A brincadeira das participantes de que a pescaria é tudo, menos pelo peixe sintetiza essa multiplicidade de motivações.
Para os destinos que desejam desenvolver o turismo de pesca, compreender essas motivações pode ajudar a estruturar produtos mais adequados à demanda. Isso não significa descaracterizar a atividade ou transformar toda pescaria em uma experiência de convivência, mas reconhecer que diferentes públicos podem atribuir valores distintos ao mesmo recurso turístico. A segmentação, nesse sentido, permite desenvolver estratégias específicas de promoção e qualificação dos serviços.
Também é importante considerar as condições ambientais que sustentam a atividade. O turismo de pesca depende da conservação dos ecossistemas aquáticos, do respeito à legislação pesqueira e das regras aplicáveis a cada modalidade, incluindo períodos de defeso e restrições locais. A sustentabilidade do segmento exige que a promoção turística esteja acompanhada de orientação aos visitantes, responsabilidade dos operadores e atenção à capacidade de uso dos ambientes naturais.
LEIA MAIS: Village Resort na Serra do Cipó celebra resultados e lança novo produto
Outro aspecto relevante é a possibilidade de articulação entre os diferentes atores locais. Empreendimentos de hospedagem, restaurantes, operadores de pesca, guias, barqueiros e poder público podem contribuir para organizar a oferta, melhorar a informação turística e promover o destino de forma integrada. Grupos como o Elas no Velho Chico também podem estabelecer relações com essa rede, desde que as parcerias respeitem as características e os objetivos das participantes.
As organizadoras já mantêm contato virtual com mulheres do Pantanal e de Goiás que compartilham o interesse pela pesca e por viagens entre mulheres. A possibilidade de reunir essas participantes em futuras edições demonstra como comunidades formadas em torno de interesses comuns podem ampliar seu alcance geográfico e criar novas oportunidades de deslocamento. Para os destinos envolvidos, iniciativas desse tipo podem representar uma oportunidade de atrair visitantes, desde que haja planejamento e capacidade de atendimento.
A história do Elas no Velho Chico oferece, portanto, uma perspectiva interessante para pensar o turismo de pesca em Minas Gerais. Mais do que divulgar uma atividade específica, ela mostra a importância de conhecer os públicos, compreender suas motivações e identificar como os recursos naturais podem se transformar em experiências turísticas estruturadas. Para Três Marias, o desafio e a oportunidade estão em valorizar sua relação com o rio São Francisco e qualificar a oferta de serviços para diferentes perfis de visitantes.
O turismo se desenvolve quando os destinos conseguem conectar seus atrativos às expectativas de quem viaja, sem perder de vista a sustentabilidade ambiental e os benefícios para a comunidade local. No caso do turismo de pesca, isso significa olhar não apenas para o rio e para os peixes, mas também para as pessoas, os serviços, os negócios e as novas demandas que se formam em torno dessa prática. O Elas no Velho Chico é um exemplo de como a observação desses movimentos pode contribuir para ampliar a compreensão do segmento e identificar caminhos para sua diversificação.
Siga o @portaluaiturismo no Instagram e no TikTok @uai.turismo
