Detentor de uma das vozes mais singulares da música brasileira, Edson Cordeiro evocou os balangandãs de Carmen Miranda e criticou o etarismo ao ver sua idade destacada em crítica, afirmando: “Talento não tem prazo de validade”.
Por FliparO cantor, que construiu carreira rompendo fronteiras estéticas, sonoras e simbólicas com seu talento amplamente reconhecido, sempre foi figura sofisticada, desafiando convenções de gênero e mercado.
Essa postura o consolidou como nome respeitado, sobretudo em círculos artísticos e dentro da comunidade LGBTQIA+. Foi desse lugar de maturidade e consciência crítica que decidiu se manifestar contra a lógica etarista em avaliações de sua arte.
Segundo Edson, incomodou ler na mídia que “aos 58 anos ainda exibe voz notável”. Para ele, esse tipo de leitura associa juventude à potência artística, restringe a arte aos jovens e trata a maturidade como desgaste.
Ao falar sobre tempo e técnica vocal, o cantor também rejeitou a ideia de que a voz seja descartável. Assim, transformou a crítica em afirmação de continuidade, reafirmando que sua trajetória segue viva e pulsante.
Em show no Teatro Rival Petrobras, em janeiro de 2026, o cantor evocou Carmen Miranda ao interpretar sambas como “E o mundo não se acabou”. Também cantou “Bambo do bambu”, com andamento ágil e acento percussivo, e “Como vaes você?”, com vivacidade e malícia.
Tais performances remeteram ao canto de Carmen nos anos 1930, antes da ida da artista para os Estados Unidos. A menos de um mês de completar 59 anos, em 9 de fevereiro, o mesmo dia do aniversário de sua homenageada, ressaltou em cena esse orgulho.
Edson Cordeiro mostrou, assim, que ainda ostenta uma voz incomparável, mesmo sem o alcance fenomenal dos anos 1990, quando foi revelado como prodígio.
Nascido em Santo André, em 1967, cresceu em família simples e desde cedo revelou vocação musical. Sem um segundo nome de registro, é conhecido profissionalmente e civilmente apenas como Edson Cordeiro. E tornou-se um renomado contratenor.
Na infância, viveu em Santa Cruz do Rio Pardo, onde cantou por dez anos no coro da Igreja Presbiteriana Independente. Ainda jovem, envolveu-se com teatro infantil ao participar da companhia da Turma da Mônica e ampliou sua presença cênica.
Em 1985, estreou na ópera rock “Amapola”, e três anos depois, brilhou na montagem brasileira de “Hair”, dirigida por Antônio Abujamra, o que consolidou sua versatilidade artística.
No ano seguinte, em 1989, atuou em “O Doente Imaginário”, de Molière, sob direção de Cacá Rosset. Assim, também desenvolveu sua veia artística ao mostrar força também como ator.
Paralelamente a isso, Edson Cordeiro começou a cantar nas ruas de São Paulo, na Barão de Itapetininga. Uma experiência que lhe deu contato direto com o público.
Em 1990, realizou seus primeiros shows solo no Rio de Janeiro e em São Paulo, chamando atenção pela potência vocal e presença de palco.
Logo assinou contrato com a gravadora Sony Music e lançou em 1992 seu primeiro álbum, “Edson Cordeiro”, que lhe abriu portas internacionais.
Nele, destacou-se pela amplitude vocal de quatro oitavas, interpretando desde sambas de Noel Rosa até árias de Handel. Sua carreira, aliás, sempre foi marcada pela diversidade, transitando entre MPB, ópera, pop e música eletrônica, sem a perda de identidade.
Edson também se tornou referência de autenticidade, assumindo seu interesse por outros homens em um período em que poucos artistas o faziam.
Com o tempo, o cantor conquistou reconhecimento internacional. Realizou turnês pela Europa e até fixou residência na Alemanha. Mas, apesar da distância, manteve forte vínculo com o Brasil, retornando para shows e homenagens a ícones nacionais.
Ao reagir em pleno 2026 contra o etarismo, Edson Cordeiro lembra que a arte não se mede em anos vividos. Assim, ele se reinventa em cada show e prova que coragem, inovação e resistência estarão sempre atreladas à sua vocação de cantar e encantar.