No dia 21 de janeiro de 2026 completaram-se 50 anos do primeiro voo comercial do Concorde, o avião supersônico que marcou um dos capítulos mais extraordinários da história da aviação civil.
Por FliparEssa jornada começou em 21 de janeiro de 1976, quando dois jatos Concorde – um da British Airways partindo de Londres com destino ao Bahrein e outro da Air France saindo de Paris rumo ao Rio de Janeiro – decolaram simultaneamente em seus primeiros voos com passageiros.
Esses voos estabeleceram o início de uma era em que passageiros poderiam cruzar o Atlântico a velocidade que ultrapassava o dobro da velocidade do som.
O Concorde foi o resultado de um ousado projeto conjunto entre França e Reino Unido, formalizado em um tratado intergovernamental assinado em 1962. Ele consolidou um esforço binacional para construir o primeiro avião comercial capaz de atingir velocidade supersônica – ou seja, acima de Mach 1, o limite que define a velocidade do som.
O design final, que incluiu a icônica asa em delta e um nariz móvel para melhorar a visibilidade durante pousos e decolagens, refletiu respostas engenhosas a desafios técnicos inéditos.
Esses desafios iam desde a necessidade de suportar enormes pressões aerodinâmicas e intenso aquecimento pela fricção do ar até o desenvolvimento de motores potentes o bastante para manter velocidades superiores a Mach 2 por longos períodos.
O primeiro voo de teste do Concorde ocorreu em 2 de março de 1969, abrindo caminho para anos de ensaios que culminaram com a certificação e autorização para operações comerciais em dezembro de 1975.
Em seu serviço inaugural, a Air France voou de Paris a Rio de Janeiro, fazendo uma escala em Dacar, no Senegal, enquanto a British Airways ligou Londres ao Bahrein, reduzindo tempos de viagem que antes levavam mais do que o dobro do tempo.
Em seu auge, o Concorde também serviu rotas transatlânticas até cidades como Nova York e Washington, D.C., com tempos de voo entre Londres e Nova York de cerca de três horas – um feito impressionante considerando que aeronaves convencionais normalmente gastavam mais do que o dobro desse tempo.
A experiência de voar no Concorde era considerada o auge da aviação de luxo. Com capacidade para cerca de 100 passageiros, a aeronave oferecia um ambiente sofisticado e exclusivo, frequentemente associado a executivos, celebridades e viajantes dispostos a pagar preços substancialmente mais altos por bilhetes que refletiam a exclusividade e a velocidade da viagem.
Contudo, embora seu desempenho tecnológico fosse impressionante – cruzando o Atlântico a cerca de Mach 2.02 (mais de 2.100 km/h) e voando a altitudes em torno de 60 mil pés – esse nível de excelência vinha acompanhado de desafios econômicos e operacionais severos.
Desde o início, o Concorde enfrentou limitações importantes. As rotas que podia voar eram restritas principalmente ao oceano, porque o impacto do estrondo sônico gerado ao ultrapassar a velocidade do som tornava voos sobre áreas continentais densamente povoadas proibitivos ou indesejáveis por reguladores e comunidades.
Além disso, seus altos custos de combustível, manutenção complexa e valor dos bilhetes significavam que poucos passageiros podiam pagar por essa experiência, tornando difícil que as operações fossem financeiramente sustentáveis.
Ao longo de seus anos de serviço, apenas 14 aeronaves comerciais chegaram de fato a voar com passageiros para a British Airways e Air France, um número pequeno frente às expectativas de mercado para um projeto tão grandioso.
Um dos momentos mais críticos na trajetória do Concorde foi o acidente trágico ocorrido em 25 de julho de 2000, quando um avião da Air France caiu logo após a decolagem de Paris rumo a Nova York.
O rompimento de um pneu que estourou e perfurou um tanque de combustível resultou em um incêndio e na perda total de controle da aeronave, matando todas as 109 pessoas a bordo e mais quatro no solo.
Esse foi o primeiro e único acidente fatal envolvendo um Concorde em serviço, e o impacto psicológico e regulatório foi enorme, levando a uma suspensão imediata dos voos e a várias modificações técnicas para tornar a operação mais segura.
Após mais de um ano de melhorias, que incluíram tanques de combustível reforçados com materiais como Kevlar e outros aprimoramentos de segurança, o Concorde voltou a voar comercialmente em 2001.
Contudo, o contexto global havia mudado drasticamente. Os atentados terroristas de 11 de setembro de 2001 reduziram significativamente a demanda por viagens aéreas internacionais de alto padrão, agravando ainda mais os desafios econômicos que a frota já enfrentava.
Combinando o envelhecimento de suas aeronaves, o aumento dos custos de manutenção, a escassez de peças de reposição e a continua dificuldade em gerar lucro, tanto a Air France quanto a British Airways anunciaram em 2003 a aposentadoria do Concorde.
O último voo comercial pela Air France ocorreu em 31 de maio de 2003, e a British Airways operou o último voo histórico em 24 de outubro de 2003, marcando o fim da era supersonica na aviação civil regular.
Mesmo décadas após o fim de suas operações, o Concorde permanece um símbolo eterno de audácia tecnológica e ambição humana. A memória do jato supersônico continua inspirando engenheiros, entusiastas da aviação e viajantes que sonham com o retorno de voos comerciais que cruzem o céu a velocidades impressionantes.