O Enamed, o Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica, revelou dados alarmantes sobre a formação em medicina no Brasil.
Por FliparMais de 30% dos cursos de medicina do país tiveram resultado tido como insuficiente no exame nacional aplicado a estudantes do último ano da graduação.
Reportagem do Fantástico, da Rede Globo, mostrou que houve falhas em questões elementares do atendimento médico, como diagnóstico de dengue, avaliação de dor de cabeça e na prescrição de medicamentos.
O Enamed funciona como um termômetro da formação médica. Ele avalia o nível de conhecimento adquirido ao longo do curso por alunos prestes a se formar.
Na primeira edição do exame, em outubro de 2025, mais de 39 mil estudantes participaram da prova, que avaliou 351 cursos de medicina em todo o país.
De acordo com os dados oficiais, mais de 30% dessas graduações tiveram resultado abaixo do esperado, com estudantes acertando menos de 60% das questões.
Um relatório do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), responsável pela aplicação do exame, revelou falhas graves em perguntas consideradas simples para a prática médica cotidiana.
Entre os quase 13 mil alunos reprovados, muitos erraram questões relacionadas a doenças comuns no Brasil, o que preocupa especialistas da área.
Uma das perguntas tratava do atendimento a pacientes com sintomas graves de dengue, como febre alta, dores intensas e vômitos persistentes. Mesmo sendo um problema recorrente no sistema de saúde brasileiro, 66% dos estudantes que não atingiram a nota mínima erraram a resposta.
Para o presidente do Sindicato dos Médicos do Rio de Janeiro, Alexandre Telles, esse tipo de erro pode levar a condutas inadequadas, como liberar um paciente que deveria ser internado, aumentando o risco de agravamento do quadro, inclusive para dengue hemorrágica.
Outra questão abordava um caso de dor de cabeça persistente em uma mulher de 55 anos, acompanhada de alterações visuais e cansaço. A conduta correta era solicitar um exame de sangue simples para investigar uma inflamação nos vasos sanguíneos, mas 65% dos estudantes reprovados erraram a resposta.
O Ministério da Educação informou que faculdades com notas mais baixas no Enamed poderão sofrer sanções, como a suspensão de novas matrículas ou a redução de vagas.
Ainda segundo a pasta, todas as instituições com desempenho insuficiente passarão por processos administrativos para corrigir problemas estruturais e pedagógicos.
Mesmo sem uma etapa prática, o Enamed cobra conhecimentos que deveriam estar consolidados em alunos que já atenderam pacientes.
Uma questão sobre doença de Parkinson, por exemplo, exigia o reconhecimento de sintomas e a identificação dos medicamentos corretos para o tratamento. Mais da metade dos estudantes reprovados errou os dois remédios que deveriam ser prescritos.
Diante dos resultados, o Conselho Federal de Medicina avalia medidas mais rigorosas. O presidente da entidade, José Hiran Gallo, defende a criação de um exame obrigatório de proficiência para que médicos recém-formados possam obter registro profissional. O projeto de lei que trata do tema está em tramitação no Congresso Nacional e pode ser votado ainda neste ano.
O exame teve sua primeira aplicação nacional em 2025, passando a integrar o conjunto de instrumentos usados pelo governo federal para monitorar o ensino médico no país. O exame não tem caráter eliminatório individual, mas seus resultados servem como base para ações regulatórias do MEC, incluindo abertura de processos administrativos, redução de vagas e até a suspensão de novos ingressos em cursos com desempenho insatisfató
A criação do Enamed está diretamente ligada à expansão acelerada dos cursos de medicina no Brasil. Entre 2014 e 2025, o total desses cursos no Brasil quase dobrou, saltando de 252 para 494, enquanto o número de vagas disponíveis cresceu de 23 mil para mais de 50 mil, de acordo com um levantamento da Faculdade de Medicina da USP.
A pesquisa aponta ainda que aproximadamente 80% dessas instituições pertencem à rede privada. Muitas foram criadas nos últimos 15 anos, o que ampliou o acesso ao curso, mas também gerou preocupação com a qualidade da formação oferecida.