O compositor americano Philip Glass decidiu cancelar a estreia de um concerto de sua autoria no Kennedy Center, sala de espetáculos em Washington D.C. que é um dos mais relevantes centros culturais dos Estados Unidos.
Por FliparA apresentação estava marcada para junho de 2026 e incluiria a estreia da Sinfonia nº 15, obra concebida como uma homenagem a Abraham Lincoln, o 16° presidente dos Estados Unidos. A decisão foi comunicada pelo próprio músico em uma carta enviada à instituição no dia 27 de janeiro.
No texto, Glass afirma que a sinfonia foi inspirada na figura de Lincoln e nos valores associados ao ex-presidente, princípios que, segundo ele, não correspondem mais aos que atualmente orientam o Kennedy Center.
Desde 2025, o espaço passou a operar sob influência direta do presidente Donald Trump, que determinou a inclusão de seu próprio nome na fachada do edifício, Trump-Kennedy Center.
A desistência de Glass abre uma lacuna na programação comemorativa dos 50 anos do Kennedy Center. De acordo com o jornal “The New York Times”, o centro cultural vem registrando queda no número de visitantes e sendo alvo de boicotes por parte de artistas ligados à música clássica.
Além de Glass, outros nomes de destaque também cancelaram participações no espaço. A soprano Renée Fleming e o músico Béla Fleck, conhecido por seu trabalho com o banjo, optaram por não realizar apresentações no Kennedy Center, reforçando o momento delicado vivido pela instituição.
Philip Glass nasceu em 31 de janeiro de 1937, em Baltimore, no estado americano de Maryland. Sua formação acadêmica começou na Universidade de Chicago, onde ingressou ainda adolescente, e prosseguiu na Juilliard School, em Nova York, uma das instituições de música mais prestigiadas do mundo.
Nos anos 1960, Glass mudou-se para Paris para estudar com a renomada pedagoga Nadia Boulanger. Nesse período, trabalhou como assistente do compositor Ravi Shankar, transcrevendo partituras de música indiana, experiência que teve papel decisivo em sua linguagem musical.
De volta aos Estados Unidos, Glass enfrentou anos de dificuldades financeiras, chegando a trabalhar como taxista e encanador enquanto desenvolvia sua estética musical.
Em 1968, fundou o Philip Glass Ensemble, grupo com o qual passou a apresentar suas obras em espaços alternativos, fora do circuito tradicional da música clássica. F
Foi nesse contexto que se consolidou como um dos principais expoentes do minimalismo, ao lado de nomes como Steve Reich e Terry Riley.
O reconhecimento internacional veio em 1976 com a ópera “Einstein on the Beach”, criada em parceria com o encenador Robert Wilson.
A obra, que dispensava narrativa convencional e utilizava números, sílabas e padrões repetitivos, tornou-se um marco da ópera do século 20 e o projetou mundialmente. A partir daí, sua produção se expandiu de forma impressionante, incluindo óperas como “Satyagraha” e “Akhnaten”.
Ao longo das décadas seguintes, Philip Glass construiu uma carreira multifacetada. Ele compôs mais de dez sinfonias, concertos para diferentes instrumentos, quartetos de cordas e obras para piano.
Além disso, criou trilhas sonoras para cinema, entre elas” Koyaanisqatsi”, “Powaqqatsi” e “Naqoyqatsi”, a trilogia documental dirigida por Godfrey Reggio que se tornou referência na relação entre imagem e música.
No cinema, ele também assinou trilhas para filmes como “O Show de Truman”, “As Horas”, “Kundun” e “Mishima: Uma Vida em Quatro Capítulos”, trabalho que lhe rendeu grande prestígio junto a críticos e cineastas.
Glass sempre manteve um diálogo constante com outras áreas artísticas e com a música popular, colaborando com nomes como David Bowie, Paul Simon, Leonard Cohen e Björk, além de escrever para dança, teatro e artes visuais.
Aos 89 anos, Philip Glass segue ativo, compondo, se apresentando e participando de debates culturais e políticos, frequentemente associando sua obra a reflexões sobre ética, história e sociedade.