O dia 24 de agosto marcou uma tragédia que reverberaria por décadas. Em 1954, o presidente Getúlio Vargas cometeu suicídio no Palácio do Catete. Em meio a uma crise política insustentável, deu um um tiro no peito. Sua ação marcou profundamente a história brasileira e encerrou uma trama política intensa e desgastante.
Por FliparSeu suicídio representou o desfecho dramático de uma trajetória que moldou profundamente o Brasil. Mesmo décadas depois, seu legado continua a provocar intensos debates sobre os rumos da política nacional e o papel do Estado.
Nascido em 19 de abril de 1882, Getúlio Dorneles Vargas foi um influente militar, advogado e líder político. Assumiu a presidência do Brasil entre 1930 e 1945, período conhecido como Era Vargas, e retornou ao poder em 1951, permanecendo até sua morte em 1954.
Capa do jornal ‘Última Hora’, alinhado ao governo Vargas, anunciando o suicídio do presidente Getúlio Vargas. Publicação de 1954, Rio de Janeiro – disponível na Hemeroteca da Biblioteca Nacional.
O desfecho trágico provocou comoção nacional, especialmente entre os trabalhadores e milhões de brasileiros que o admiravam. Após quase duas décadas no poder, sua morte deixou o país em estado de choque e marcou a memória coletiva com dor e reverência.
Em sua carta-testamento, se apresentou como um mártir do povo, que enfrentou corajosamente os ataques de seus opositores. Esses adversários, retratados como anti-heróis, buscavam expulsá-lo do poder e distorcer a política em favor de interesses pessoais.
Obviamente, ele omitiu os anos de regime autoritário de seu governo, período em que a censura e a repressão foram impostos. A propaganda oficial construiu a imagem de um líder infalível, benevolente e destinado a guiar o país, silenciando críticas e opositores.
Durante seu governo, Vargas impulsionou a industrialização, transformando profundamente a economia brasileira. Essa mudança alterou a estrutura social do país e consolidou o papel do Estado como motor do desenvolvimento.
Em 1955, apenas um ano após sua morte, a indústria já respondia por 30% do PIB brasileiro. Esse avanço expressivo contrastava com os modestos 10% registrados em 1930, evidenciando seu impacto econômico.
Getúlio fortaleceu os direitos trabalhistas, criando bases duradouras para a legislação social brasileira. A Consolidação das Leis do Trabalho, sancionada em 1943, tornou-se um marco na defesa dos trabalhadores.
Contudo. sua trajetória teve momentos controversos, como o Estado Novo (1937–1945), quando instaurou uma ditadura. Nesse período, houve intensa repressão a opositores, especialmente comunistas, e forte concentração de poder nas mãos do Executivo.
Político da República Velha oriundo do Rio Grande do Sul, Getúlio Vargas construiu sua carreira nos círculos do poder. Foi ministro de Washington Luís, mas acabou preterido como sucessor, o que impulsionou sua ruptura com o regime vigente.
Diante da exclusão como sucessor, Vargas posicionou-se na oposição e tentou vencer nas urnas. Com o fracasso eleitoral, articulou a Revolução de 1930, que resultou em um golpe de Estado e sua ascensão ao poder.
Durante o Estado Novo, Vargas utilizou intensamente a propaganda e a censura para construir sua imagem de líder carismático. Inspirado por regimes totalitários da época, conquistou apoio popular, sobretudo entre os trabalhadores.
Ao assumir o poder, Getúlio percebeu o potencial político das massas trabalhadoras. Buscou então conquistá-las como base de apoio, fortalecendo sua liderança e legitimidade.
Promoveu intensamente as leis trabalhistas e a legislação sindical, destacando o papel do trabalhador na construção nacional. Embora sem participação direta, o operariado passou a ser valorizado como peça central do projeto do Estado Novo.
Em 1951, eleito pelo voto popular, Vargas enfrentou forte resistência das elites econômicas e políticas. Suas propostas nacionalistas e sociais eram vistas como ameaças à ordem estabelecida, intensificando os conflitos.
O atentado da Rua Tonelero, em 5 de agosto de 1954, resultou na morte de um major da FAB e feriu o jornalista opositor Carlos Lacerda. O episódio agravou a crise política e aumentou a pressão sobre o governo Vargas.
As suspeitas de envolvimento do governo no atentado fortaleceram a oposição, que exigia a renúncia de Vargas. Sem alternativas políticas, ele cometeu suicídio em 1954, gesto que teria postergado o golpe militar até 1964.
A retórica golpista de 1964 repetia padrões: João Goulart, herdeiro político de Vargas, enfrentava forte pressão da UDN por intervenção militar. Dessa vez, ao contrário de 1954, o golpe foi bem-sucedido e instaurou uma ditadura que duraria duas décadas.
Para marcar a década septuagenária da morte de Vargas, o Museu da República, no Catete (RJ), organizou exposição a qual mostra peças emblemáticas, como o famoso pijama de iniciais “GV” bordadas, a arma utilizada pelo presidente, e sua máscara mortuária.
Decorridos 71 anos da morte de Getúlio, a memória do controvertido líder continua a dividir opiniões e despertar debates intensos. Para uns, foi um ditador autoritário; para outros, o maior estadista da história brasileira.
O Centro de Memória do IREE, em São Borja (RS, resgatou 70 fotos raras do acervo do Museu Getúlio Vargas. Essas imagens inéditas revelam bastidores da trajetória do presidente que mais tempo governou o Brasil.
As imagens retratam Getúlio em momentos diversos, desde cerimônias oficiais e eventos públicos até cenas íntimas com familiares e amigos. Esse acervo revela facetas pouco conhecidas do líder que marcou a história política brasileira.
Naquele período, a assessoria presidencial não se preocupou em registrar os nomes dos personagens nem os locais das fotos. Com isso, muitos detalhes das imagens permanecem desconhecidos, dificultando sua contextualização histórica.
Getúlio Vargas, aliás, entendia o uso das imagens como instrumento de construção política e popularidade. Ao mesmo tempo, fez questão de registrar momentos íntimos, revelando o lado pessoal por trás do líder público.
Para muitos, o suicídio de Getúlio Vargas foi um gesto dramático em defesa dos mais humildes, marcado por profundo simbolismo político. Sua frase final — “saio da vida para entrar na História” — eternizou o ato como legado à posteridade.
Apesar das constantes ressignificações feitas pelas novas gerações, a memória dos eventos daquele período mantém seu peso histórico. O lugar que ocupam na narrativa da História do Brasil segue firme, preservado pelo tempo e pelo debate.