Em entrevista ao jornal “O Estado de S.Paulo”, o renomado cientista brasileiro Marcelo Gleiser fez um alerta sobre a forma de utilização da inteligência artificial.
Por Flipar“Você não pode se fiar completamente, cegamente, na inteligência artificial. Você tem de checar de onde estão vindo essas afirmações feitas por esse programa de computador”, afirmou Gleiser.
“O que me incomoda são as afirmações que dizem que a inteligência artificial vai superar a inteligência humana. Existem vários erros categóricos nessa expressão”, completou.
Gleiser contesta a ideia de que a IA possa ultrapassar a mente humana. “Ela não é uma inteligência. É uma máquina que usa cálculo estatístico para fazer análise de dados”, afirma.
O físico ressalta que a IA é um apoio ao pensamento humano, sem consciência, vida ou emoções reais. O debate, sustenta ele, não deve se concentrar na máquina, mas em quem a utiliza. “O perigo não é a inteligência artificial, mas como as pessoas, os humanos, vão usá-la”, ressalta.
Marcelo Gleiser nasceu no Rio de Janeiro, em 19 de março de 1959, e construiu uma carreira que transita entre a física, a astronomia, a docência e a divulgação científica.
Graduado em Física pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, ele concluiu o mestrado na Universidade Federal do Rio de Janeiro em 1982 e, quatro anos depois, obteve o doutorado em cosmologia no King’s College London.
Na sequência, realizou pós-doutorado na Universidade da Califórnia em Santa Barbara e no Fermilab, nos Estados Unidos, um dos principais centros mundiais de pesquisa em física de partículas.
Ainda jovem, foi contratado como professor assistente de Física e Astronomia no Dartmouth College, no estado americano de New Hampshire, tornando-se professor titular aos 39 anos. Radicou-se nos Estados Unidos.
Especialista em cosmologia, publicou cerca de uma centena de artigos científicos e construiu também uma sólida carreira como autor, com livros lançados em português e inglês.
No Brasil, ganhou ampla visibilidade como colunista da “Folha de S.Paulo” e como apresentador de uma série sobre cosmologia exibida pelo “Fantástico”, da TV Globo, em 2006.
Marcelo Gleiser conquistou duas vezes o prestigioso Prêmio Jabuti, o mais tradicional e importante premiação literária do Brasil, como autor de divulgação científica.
O primeiro veio em 1998, com “A Dança do Universo”, obra que marcou sua estreia editorial no Brasil. No livro, o pesquisador discute as origens do cosmos articulando ciência e reflexão filosófica.
O reconhecimento se repetiu em 2002, com “O Fim da Terra e do Céu”, consolidando seu nome como um dos principais divulgadores científicos do país.
Entre os livros mais recentes de Marcelo Gleiser estão “O Despertar de um Universo Consciente: Um Manifesto Para o Futuro da Humanidade”, no qual defende uma ciência mais integrada à responsabilidade ética e ambiental.
Também lançou, em coautoria com Adam Frank e Evan Thompson, “O Ponto Cego: Por Que a Ciência Não Pode Ignorar a Experiencia Humana”, obra que discute os limites do método científico e a importância da experiência humana na construção do conhecimento.
Essas publicações reforçam sua fase mais recente, marcada por reflexões sobre consciência, sustentabilidade e o papel da ciência no século 21.
Desde o fim da pandemia de covid-19, Marcelo Gleiser vive com sua família na Toscana, na Itália. Na região, ele vem desenvolvendo projetos que conectam ciência, filosofia e liderança, em trabalho de reflexão sobre ciência, sociedade e futuro da humanidade.