Mais que culinária, a Baiana do Acarajé é símbolo da resistência afro-brasileira. Sua história entrelaça fé, ancestralidade e luta pela liberdade, visto que os bolinhos de feijão com dendê financiaram terreiros e cartas de alforria. Assim, ser baiana do acarajé é profissão centenária, feminina e sagrada, concedida pelos orixás.
Por FliparO acarajé nasceu da tradição iorubá, onde “acará” significa bola de fogo e “jé” comer. Ao atravessar o Atlântico, manteve sua força simbólica, tornando-se alimento ritual e também sustento econômico. Dessa forma, o prato carrega tanto sabor quanto espiritualidade.
A atividade da baiana de acarajé remonta ao começo do século 18, quando as chamadas escravas de ganho saíam para vender doces e salgados nas ruas de Salvador, Recife e Rio de Janeiro, e levar lucro aos seus senhores. Porém, guardavam parte do dinheiro e, com isso, muitas compraram a própria liberdade. O tabuleiro tornou-se arma contra os grilhões.
Na África, mulheres já vendiam alimentos como forma de autonomia. No Brasil, essa prática se manteve, garantindo às escravizadas não apenas renda, mas também protagonismo social. Assim, o comércio ambulante foi herança e resistência.
Cada etapa do quitute é exclusivo. O feijão-fradinho é batido manualmente com cebola e sal até formar uma massa, guardada em grandes potes plásticos junto ao fogareiro nos fundos da barraca. Modelados e fritos no azeite de dendê na hora, os bolinhos são abertos e recheados com vatapá, caruru, vinagrete, camarões e um molho de pimenta especial.
Do feijão-fradinho ao azeite de dendê, tudo carrega significados ligados aos orixás. O ato de fritar e servir, portanto, não se resume à culinária: é oferenda, tradição e espiritualidade.
E a roupa da baiana, não poderia ser diferente, é parte essencial do ofício. Saia rodada, pano da costa, turbante e fios de contas revelam a ligação com os orixás. Não há dúvidas: arrumar-se para vender acarajé é também vestir a ancestralidade.
Ser baiana do acarajé é trabalho concedido pelos orixás às mulheres. Essa exclusividade reforça o caráter sagrado da profissão, que une fé e sustento. A mulher negra torna-se guardiã de um patrimônio cultural.
As baianas seguiram vendendo acarajé e obtendo fonte de renda vital. Além disso, com o símbolo de preservação cultural, a tradição atravessou séculos e se manteve viva.
Em 2005, a atividade das baianas de acarajé foi registrada como patrimônio cultural imaterial do Brasil no Livro dos Saberes do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan),
O Governo da Bahia, inclusive, oferece cursos para aprimorar o ofício das baianas. Além de técnicas culinárias, há palestras sobre empreendedorismo e boas práticas. A tradição, portanto, se alia à modernidade.
Em Salvador, foi inaugurada no fim de 2025 a primeira efígie de uma baiana de acarajé, homenageando Cira do Acarajé, precursora de um dos tabuleiros mais famosos da cidade. O monumento foi erguido na praça Oxum Baeté, no bairro de Itapuã, onde fica uma das barracas que levam o nome da baiana. É memória viva em praça pública.
Segundo a Associação Nacional das Baianas de Acarajé e Mingau, Receptivos e Similares (ABAM), aliás, só em Salvador existem cerca de 3,5 mil baianas. No Brasil, aproximadamente 10 mil pessoas trabalham na atividade, sendo 90% mulheres. Esses números revelam a força da tradição.
Além disso, ao formalizar o negócio como Micro Empreendedor Individual (MEI), a baiana de acarajé garante acesso a benefícios como aposentadoria e salário-maternidade. Assim, o tabuleiro se torna também instrumento de cidadania e segurança social.
Apesar das tentativas de apagamento, as baianas mantêm viva sua prática ancestral. O acarajé é resistência contra o esquecimento e afirmação da identidade afro-brasileira. Cada bolinho, portanto, conta quem é o Brasil.
Hoje, pessoas de diferentes religiões e gêneros vendem acarajé. Contudo, é importante lembrar que a origem é sagrada e feminina. A diversidade convive com a ancestralidade, mas não deve apagar sua raiz.
O acarajé e suas baianas tornaram-se ícones da Bahia e do Brasil. Mais que comida, são expressão de fé, cultura e luta. Assim, cada tabuleiro é altar, cada venda é história, e cada baiana é guardiã da memória.