Esse comportamento indicou que o espaço não interrompe o envelhecimento, mas interfere nos mecanismos que regulam o equilíbrio celular. A análise da expressão gênica também apontou mudanças relevantes em cerca de 7% dos genes observados, com impactos em processos ligados à imunidade, ao metabolismo, ao reparo do DNA e à resposta ao estresse fisiológico.
A maioria dessas alterações voltou ao padrão habitual após a missão, embora parte delas tenha persistido por mais tempo, o que demonstra que o organismo entra em um estado de adaptação contínua diante das condições extremas da órbita terrestre.
O sistema imunológico, embora funcional, mostrou sinais de alerta constante, como se o organismo identificasse o espaço como uma ameaça fisiológica ininterrupta. Os pesquisadores observaram ainda modificações no microbioma intestinal, conjunto de microrganismos fundamentais para a digestão e para o equilíbrio do organismo, que passou por variações em comparação com os padrões anteriores à missão e com os dados coletados na Terra.
Após o retorno à Terra, os pesquisadores observaram uma tendência gradual de normalização desses indicadores biológicos, mas o estudo ressaltou a importância de manter um acompanhamento contínuo e detalhado dessas alterações em futuras missões espaciais de longa duração.
Diferentemente de outras funções analisadas, alterações cognitivas surgiram principalmente durante o processo de readaptação à gravidade terrestre, quando testes apontaram redução temporária na velocidade de processamento mental e na precisão de algumas tarefas.
Os pesquisadores atribuíram grande parte dessas mudanças à combinação entre microgravidade e radiação espacial, fatores capazes de alterar o funcionamento de sistemas biológicos essenciais e de afetar células e estruturas genéticas.
O uso de um irmão gêmeo idêntico como referência permitiu separar com maior precisão os efeitos do ambiente espacial das influências genéticas, o que tornou o experimento um marco na medicina espacial contemporânea.
Além disso, o conjunto de evidências reunidas demonstrou que o corpo humano possui capacidade real de adaptação fora da Terra, embora esse processo envolva custos biológicos mensuráveis e ainda não totalmente esclarecidos.
Esses dados se tornaram fundamentais para o planejamento de missões de longa duração, incluindo futuras viagens à Lua e a Marte, que exigirão permanência prolongada em ambientes ainda mais extremos do que a órbita terrestre.
A escolha dos irmãos Scott e Mark Kelly não foi aleatória, pois ambos já detinham o status de astronautas veteranos, o que garantia que a base biológica para o teste fosse a de indivíduos já acostumados com as condições extremas de uma viagem como essa.