Segundo uma reportagem da BBC, em países como Índia, México e Emirados Árabes Unidos, por exemplo, as mensagens de voz alcançam níveis de popularidade semelhantes aos textos. Já no Reino Unido, a adesão às mensagens de voz permanece limitada. Uma pesquisa feita pelo instituto YouGov indicou que apenas 4% dos 2,3 mil entrevistados utiliza o recurso, enquanto a maioria (83%) prefere a comunicação escrita.
O contraste se torna ainda mais evidente quando se observa o Brasil, citado por Mark Zuckerberg como um dos maiores usuários de áudios no mundo, com volume significativamente superior ao de outros países — a pesquisa feita pelo YouGov não incluiu o país. 'As pessoas no Brasil enviam mais figurinhas, participam mais de enquetes e enviam quatro vezes mais mensagens de voz no WhatsApp do que em qualquer outro país', disse o CEO da Meta.
Parte da explicação para esse fenômeno está na forma como a voz transmite emoção. Estudos da University of Wisconsin-Madison demonstraram que ouvir a voz de alguém reduz o estresse e fortalece vínculos afetivos, ainda que a pesquisa tenha analisado ligações telefônicas.
Especialistas sugerem que mensagens gravadas podem oferecer benefícios semelhantes, embora com menor intensidade, já que não permitem interação imediata. Essa capacidade de transmitir nuances emocionais ajuda a explicar por que aplicativos de relacionamento adotaram o recurso, buscando criar conexões mais autênticas entre usuários.
Por outro lado, críticas frequentes apontam para o esforço exigido de quem recebe. Diferentemente do texto, que permite leitura rápida e seletiva, o áudio demanda atenção contínua e não oferece previsibilidade sobre seu conteúdo ou duração.
Para muitos, isso gera desconforto, sobretudo em contextos profissionais ou em ambientes públicos. No Reino Unido, essa resistência também pode estar associada a um estilo de comunicação mais contido, no qual mensagens curtas e diretas são valorizadas.
Para Jessica Ringrose, professora de sociologia do University College de Londres, a resistência britânica tem raízes culturais. As mensagens de voz atraem quem gosta de falar e tem um componente mais expressivo e até performático. 'Vejo os britânicos certamente menos propensos a enviar mensagens de voz e mais breves nas suas interações', comentou ela.
Fatores linguísticos e sociais também influenciam o sucesso do recurso. Em países multilíngues, como a Índia, a comunicação oral facilita a alternância entre idiomas e contorna dificuldades de escrita. Segundo dados do YouGov, 48% dos indianos consultados dá preferência para as mensagens de áudio no WhatsApp.
Além disso, comunidades com altos índices de migração internacional utilizam mensagens de voz como alternativa prática às ligações, já que permitem comunicação em horários diferentes sem perder o tom pessoal. Esse uso assíncrono reforça laços familiares e culturais mesmo à distância.
Apesar das divergências, o crescimento das mensagens de voz revela uma transformação mais ampla na comunicação digital. O recurso ocupa um espaço intermediário entre a objetividade do texto e a interação direta das chamadas, oferecendo uma experiência híbrida que continua a evoluir.
Seja como ferramenta indispensável ou como hábito controverso, o áudio se consolidou como parte do cotidiano moderno, refletindo tanto as preferências individuais quanto as particularidades culturais de cada sociedade, além de evidenciar diferenças de comportamento entre países e até questões de etiqueta no ambiente digital.