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Correio Braziliense

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Darcy Ribeiro foi o mentor da arquitetura do pensamento de Brasília

Vinte anos após a morte de Darcy Ribeiro, completados nesta sexta-feira (17), colunista do Correio analisa a importância do antropólogo para a formação intelectual e cultural de Brasília

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postado em 17/02/2017 10:03 / atualizado em 17/02/2017 17:22

Tadashi Nakagomi/CB/D.A Press
 

Em 1959, Darcy Ribeiro fez uma blague no meio do fogo cerrado da polêmica sobre a criação da Universidade de Brasília, em um artigo para a revista Senhor, na forma de uma suposta segunda carta de Pero Vaz de Caminha. Ele fechava a epístola apelando para El Rey no sentido de que concedesse o direito de criar a UnB “para não permitir que Brasília crescesse chucra, com mentalidade haurida nas pastagens de Goiás, por falta de universidade”. A blague descontraiu o ambiente tenso do debate que empolgou a intelectualidade brasileira de 1959 a 1961 e fez o maior sucesso: El Rey Juscelino Kubitschek bancou a criação da Universidade de Brasília.

Esse é o maior legado de Darcy à capital modernista. Em uma trama misteriosa, a sua vida quase sempre se misturou com a história de Brasília. Se Lucio Costa e Oscar Niemeyer foram os inventores da arquitetura física, Darcy foi o grande mentor da arquitetura do pensamento, com a criação da Universidade de Brasíliaem 1963.
 

 Darcy lançou a ideia, articulou e conspirou para que ela se transformasse em utopia concreta. Não se tratava meramente de inaugurar mais uma universidade convencional. Era necessário conceber uma instituição de ensino superior à altura da ousadia política e estética da capital modernista. Em todos os países, a universidade é a expressão da riqueza e do desenvolvimento social. Darcy imaginou uma universidade radicalmente diversa: ela teria de ser experimental e, ao mesmo tempo, contribuir para superar os graves problemas do subdesenvolvimento.

O ambicioso projeto da UnB foi atropelado pelo regime militar e, a certa altura, desencantado com os rumos da universidade, Darcy chegou a dizer que a UnB era uma filha desencaminhada na vida. Não escapou de estar exposta a todas as intempéries que assolaram as instituições de educação superior brasileiras. Darcy se reconciliou com a UnB, mas sempre lançou um olhar crítico sobre as mazelas da instituição.

Pediu “ao segundo maior arquiteto do mundo” uma casa digna para guardar seu acervo e funcionar como centro de estudos. O primeiro arquiteto, Oscar Niemeyer, não aceitava muito palpites. Por isso, Darcy optou pelo segundo. Mas o amigo e arquiteto Lelé Filgueiras lhe concedeu muito mais, ao construir o Beijódromo. Aterrissou próximo à reitoria da UnB uma nave-maloca, uma maloca futurista, que alia as formas arcaicas dos índios e a audácia modernista, os materiais de construção de navios e as vitórias-régias, os espaços contíguos e a luz do planalto vazando por todos os lados. A gente sai mais brasileiro daquela maloca moderna, imantado pela beleza luminosa do espaço criado por Lelé.

 

 

Espírito modernista

Darcy nos ensinou com seus livros, mas também com sua vida e personalidade magnetizadora. Enfrentou e superou (alegremente) todas as maldades que uma pessoa idealista sofre em um país como o Brasil, às vezes, tão tacanho com seus melhores filhos.

De repente, teve câncer e mesmo os amigos mais otimistas esperavam que fosse tombar deprimido. No entanto, como escreveu Zuenir Ventura, Darcy humilhou o câncer, retirou os tubos do hospital e fugiu para comer pastel com caldo de cana e escrever O povo brasileiro. Nunca perdeu o senso de humor, mesmo em estado terminal: "Eu não me importo de morrer não. O que não quero é deixar este planeta".

Os que não conhecem sua obra o confundem com um nacionalista folclórico, no gênero de Policarpo Quaresma, personagem de Lima Barreto, que escrevia cartas em tupi-guarani para o presidente da República. Mas Darcy era antes de tudo um modernista, ligado, simultaneamente, em ancestralidades e futurismos. E Brasília era a expressão e a materialização do seu espírito modernista.
 
Em 1978, depois de um longo período de exílio, para escapar da truculência do regime militar, Darcy voltou a Brasília e participou de um debate, registrado nas páginas do jornal Correio Braziliense. Vale a pena evocar alguns trechos, pois eles enfatizam os altos valores que animaram a construção da capital modernista sob o olhar de Darcy: “Tenho o temor de que, talvez por estarem aqui em Brasília, no meio de tantas coisas belas, elas tenham se tornado naturais para vocês.”

A beleza de Brasília

Ele sentia o espanto da beleza de Brasília. Ressaltava a audácia de Brasília ter sido feita como cidade do terceiro milênio, com o apuro técnico e artístico mais alto da Terra: “Foi preciso muito coração para assumir, gostar e realizar Brasília como ela é: o retrato do que o Brasil pode dar. O retrato do nosso espírito: o esteio da inteligência e da sensibilidade brasileiras. Esteio que se faz com que nós sejamos vistos no mundo inteiro não como um terceiro mundo, mas como o futuro do mundo”.

Depois de ter andado por tantos lugares do mundo, Darcy só conseguia comparar Brasília à Roma de Leonardo Da Vinci, Rafael e Miguel Ângelo. À Roma que criou fórmulas para o mundo copiar durante 500 anos: “Brasília veio fazer o quê?”, indaga Darcy. “Brasília copia alguma coisa? É parecida com alguma coisa? Não. Brasília é cânone que está inspirando as cidades e as casas que se fazem pelo mundo. E isso é o que eu queria, que se tivesse vivo o sentimento dessa coisa extraordinária. Somos isso. Nós, o povo mulato, o povo tropical, o povo sofrido. Nós, quando nos é dada oportunidade, realizamos o humano no nível mais alto que o humano pode ser.”

Estar à altura de Darcy Ribeiro será sempre um desafio para a Universidade de Brasília. Para ele, os maiores inimigos da UnB estavam dentro da própria instituição: “As pessoas têm de estar ao nível da universidade”, disse em entrevista concedida do jornal Câmpus. “Ela é a Universidade Nacional do Brasil, tem de ser melhor do que Oxford, que Cambridge. Porque ela foi pensada para isso.”

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