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Quatro vezes Brasília

Numa homenagem aos 56 anos da capital do Brasil, parte da equipe da Revista monta um mood board particular com referências de um lugar que não é só um lugar: na verdade, é um caso de amor. Nascidos em décadas diferentes, cada um a seu tempo e a seu modo, descobrimos que há muito em comum nas lembranças e nas vivências, mesmo entre gerações distintas

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postado em 17/04/2016 08:00 / atualizado em 18/04/2016 17:25

QUEM
Cristine Gentil
Nascida em Fortaleza em 1972
Nascida para Brasília em 1976
Pais e irmãos cearenses, três filhos nascidos na capital
Criada debaixo dos prédios do Plano Piloto

 

Mil novecentos e setenta e seis. Chego à cidade inventada. Olho para todos os lados e, de antemão, sei que não vai caber em mim a imensidão de chão e céu desse lugar. É horizonte demais, mesmo para a imaginação de uma menina de 4 anos. Muito espaço vazio para encher de ideia. Juscelino Kubitschek, Oscar Niemeyer e Lucio Costa, os rapazes que criaram esse cenário, até deixaram um manual para quem veio depois montar o quebra-cabeças de quadras e prédios, tudo pensado para cada lugar, mas na época que aportei por aqui faltava ainda tanta peça para encaixar…


Arquivo Pessoal

Em vez de castelos, prédios em construção. Em vez de lápis de escrever, muito giz das obras; em vez de jardins floridos, muito cerrado. O jeito foi brincar com tudo aquilo. Esconderijo nos bueiros; jogo de bete no asfalto; bicicross entre uma quadra e outra. Quebra-queixo e dindim. Bate-bola no carnaval. Bambolê no pilotis. Pedalinho e Piscina de Ondas no Parque da Cidade. Fogos no gramado do Congresso; descer a rampa com papelão. Pipa na Torre de TV; patos — ou eram cisnes? — no espelho d’água da Praça dos Três Poderes; revoada de pombos. A espera pela família no aeroporto. Clube no fim de semana. Almoço no Xique Xique. Cheiro de hóstia no recreio da escola de freira. Balé na escola classe; natação no Defer; festa na portaria; beijo atrás da pilastra. Fui, como tantos, menina criada debaixo de prédio. Obedecendo ao modus operandi da infância candanga. Livres, soltos, protegidos por esse abraço arquitetônico chamado pilotis.

 

Arquivo Pessoal
 

O Plano Piloto era nosso plano infinito, com suas asas gigantes. O Conjunto Nacional, nossa Broadway, com aquele letreiro, dividia Norte e Sul, duas realidades tão distintas quanto parecidas. Cine Atlântida no Conic. Karim na Asa Sul. Food’s. Drive-in. Pintar as quadras para a Copa. Celebrar nas ruas da 109 Sul. Saudade… Lembrança demais, mesmo depois de quatro décadas e um pouquinho. Ainda não cabe em mim.

 

Arquivo Pessoal

Cresci. Gravidez precoce. Enxoval na Fofi. Shows históricos. Legião, Ultraje, Plebe Rude, Paralamas. Então...UnB. Liberdade elevada à potência máxima. O minhocão foi o segundo abraço que recebi de Brasília. Uma arquitetura cheia de boas intenções, que às vezes parecia tão pouco funcional, embora absurdamente libertadora. Que escola é essa, Darcy (Ribeiro) e Anísio (Teixeira)? Fazer jornalismo e flertar com história da arte? Pirar na filosofia e cair de paraquedas na ciência política? Como assim? Quando Darcy morreu, já havia nascido para o jornalismo. E para o Correio. Chorei escondido quando vi aquela capa de jornal. Achei linda demais. A vivência na universidade e o trabalho no jornal, que nasceu com Brasília, me fizeram redescobrir a cidade inventada. Lá se vão mais de 20 anos de imersão nessa Brasília.

 

Reprodução
 

Azulejos, cobogós, Athos Bulcão, Igrejinha, Dom Bosco e seus lustres, Catedral, Burle Marx, Congresso Nacional, hospital Sarah, o mestre da arquitetura Lelé. Escalas, bucolismo, sotaque candango, o concreto em curvas, folhas secas, ipês colorindo a cidade. O que parecia tão absurdamente normal para quem cresceu entre os prédios ganha corpo, significado. Ao sentimento de pertencer à cidade, soma-se o de admirar a obra. Conhecer a fundo sua beleza, contradições e desigualdades. Ser contemporânea dos pioneiros; poder ouvir suas histórias. Dividir a cidade em que cresci com pessoas que a construíram não tem preço.

 

Carlos Moura/CB/D.A Press

Brasília ganha na minha vida adulta novas nuances e formas. Perde também a própria fôrma. A cidade inventada inventou outras cidades. E inventou mal. Muitos dos que viveram embaixo de prédios agora voltam só aos domingos para os pilotis, meu caso. Filhos de classe média migraram para os novos bairros mal planejados. Cá estou em Águas Claras, versão candanga de metrópole. É bom, eu gosto, mas é também ruim. Vivo novamente numa cidade em construção. Agora não cabe em mim a altura dos prédios; não cabem em mim os carros a perder de vista, numa imensa rodovia cada dia mais parada. Não cabe em mim ter uma vista sem ter um horizonte.

 

Luís Tajes/CB/DA Press
 

Descobri um jeito de levar uma vida arborizada. Saí do quadradinho delimitado e planejado, embora nem tanto assim, e criei um quadradinho particular. Meu pilotis gigante virou um mezanino bem aproveitado. Na minha laje térrea, tem limoeiro, pé de acerola e jabuticaba. Tem churrasqueira e chuveirão. Tem cadeira na varanda igual tem nos bairros antigos do meu doce Ceará. Em Águas Claras, anda-se a pé e sempre tem gente. Pode ser bem cedinho, e tem gente. Tarde da noite, e também tem gente. E tem mais "psiu" para as festas de vizinhos do que eu gostaria. Carece daquele espírito liberto e transgressor que havia na Brasília da minha infância. Não há regras impostas pela arquitetura; há regras impostas pela vizinhança e normas de condomínios. Ainda assim, é minha casa e é também Brasília. A cidade que se reinventa. Um pouco a cada dia.

Luís Tajes/CB/DA Press
 

 

Leia também os relatos do nosso subeditor Gustavo Falleiros e das nossas repórteres Flávia Duarte e Juliana Contaifer

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