
João Antônio, ator, diretor e professor de teatro
Sou um desastre para datas. Elas passam por mim como figurantes apressados, sem deixar marca. Mas há momentos que se recusam a sair de cena. Junho de 1971, por exemplo. Esse ficou. Cheguei a Brasília meio por acaso, vindo de São Paulo, com a leveza de quem não devia satisfação a ninguém — e com a imprudência de quem também não tinha plano algum.
Vinha visitar amigos de Uberaba que tinham se aventurado por aqui. Eu mesmo vinha de uma pequena explosão pessoal: tinha acabado de mandar o poderoso diretor de um grande museu para um destino pouco nobre. Resultado imediato? Desempregado. Resultado secreto? Livre. E liberdade, quando chega assim de repente, costuma dar ideias.
Brasília, naquele tempo, era quase um esboço. Um cenário montado à espera de atores. E eu, ator, me vi diante de um palco grande demais, iluminado demais, silencioso demais. Parecia um monólogo sem público. Mas havia alguma coisa ali — um vazio convidativo, desses que não intimidam, chamam.
Pensei: fico um pouco. Só um tempo. Depois eu vejo.
Esse "depois" nunca teve vez.
O começo foi áspero, como quase tudo que vale a pena. Mas havia espaço — físico e simbólico. Espaço para errar, tentar, inventar. Espaço para caber. Entreguei meu currículo ao Walter Melo, na Fundação Cultural, e ali, sem perceber, comecei uma história longa. Um vínculo. Um tipo de amor que não faz alarde, mas não acaba.
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Com o tempo, fui vendo Brasília deixar de ser promessa para virar realidade. Os espaços se enchendo, as ideias ganhando corpo, as pessoas se encontrando. Um sotaque novo surgindo — mistura de tantos outros, costurado na pressa e na necessidade de pertencimento. Uma arte nascendo com a cara de quem ainda não sabia bem quem era, mas tinha urgência em descobrir.
Passei por lugares que, mais do que instituições, foram territórios de vida: Fundação Cultural, Ensaio Teatro e Dança, Faculdade Dulcina, UnB. Em cada um, deixei um pouco de mim — e levei muito mais do que trouxe.
Brasília foi me ensinando a ficar. E, aos poucos, fui desaprendendo a ideia de partida. Hoje, quando me perguntam de onde sou, não hesito. Respondo rápido, quase com orgulho de quem escolheu: sou de Brasília. E, aos 79 anos, nem sempre explico.
Porque há cidades onde a gente nasce. E há cidades onde a gente, finalmente, renasce.
