BRASÍLIA 66 ANOS

'Morar no Plano é uma dádiva', diz artista

A sensibilidade poética de Climério Ferreira transcende a música e a literatura, circular por entre quadras e superquadras da cidade, como uma brisa perfumada de gratidão e de orgulho pela capital do país

Climério Ferreira representa a mistura cultural de uma Brasília encantada, dos anos 1960/70. Nascido em Angical (PI) em março de 1943, esse contemporâneo de Torquato Neto desceu de um avião para se estabelecer na Capital da Esperança, onde enveredou pela vida acadêmica, iniciada na Universidade de Brasília (UnB), aos 18 anos. Integrante do icônico trio Clodo, Climério e Clésio, ele percebe uma Brasília perfumada de utopia. Jornalista, professor e poeta, foi, durante cinco anos, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), em São José dos Campos (SP), foi um destacado professor da UnB por quase três décadas. Ao Correio, fala de poesia, de música e de Brasília... Agora, prevê para maio o lançamento de mais um livro de poemas. Ao Correio, escreveu o inédito Beirute. Evoé, Climério Ferreira!

Em entrevista ao Correio, você disse "estava nas nuvens quando vi Brasília" — quando chegou de avião à capital. Como foi essa experiência de encontrar a cidade que seria sua casa?

No primeiro voo de avião, vindo de Teresina para Brasília, morrendo de medo, pude ver de onde estava entre nuvens, um projeto revolucionário de planejamento urbano pousado no solo do interior goiano. E eu, vindo de uma cidade planejada em quadriculado, ainda não atinava que tipo de cidade poderia nascer  do que eu via pousado no chão lá da janela do avião. Dalí nasceu Brasília, com seu Plano Piloto e suas asas Norte e Sul, suas Quadras e Superquadras. A partir dos últimos anos da década de 1960, essa cidade me habita até hoje. Penso que é dádiva morar no Plano Piloto e tomar café da manhã, olhando o verde, ouvindo o canto dos pássaros, andando à pé na minha quadra, fazendo amizades e, no meu caso, evitando reuniões de condomínio.

Qual a importância de Brasília na sua carreira de professor e artista?

A cidade me permite pensar e levar um tipo de vida que as cidades não permitem mais. Eu estou sempre imaginando poemas, letras de músicas. Acho que a cidade tem tudo a ver com isso.

Ednardo escreveu Serenata pra Brazilia na época em que vocês eram parceiros. Qual era a sedução de Brasília para esses rapazes que vinham do Norte?

Um amigo baiano, do tempo do mestrado do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), dizia que Brasília seria a minha cidade. Aqui eu viveria num lugar mais perecido com o futuro dos meus sonhos. Na verdade, é a cidade em que todos os rapazes e moças nordestinos criativos e sonhadores se sentem em casa em Brasília. Como disse Clodo numa música que fez pra Brasília: "Tu não tens dono, nasceste sol, tens teus satélites constantes, teus inconstantes habitantes". No Nordeste, as cidades têm donos, que são as famílias que se revessam no poder. E rapazes e moças não são dessas famílias. Em Brasília, vivemos nos nossos setores sem que os outros saibam. E isso é bom.

Clodo, Climério e Clésio formaram um dos mais icônicos trios da MPB, com sucessos em todo o país. Como é onde eram os show em Brasília?

Os nossos shows eram lotados, e todos sabiam as letras das canções e demonstravam gostar delas. Eram "clássicos". Muitos dos nossos amigos tornaram-se famosos e continuaram gostando das nossas músicas.

Ainda há poesia para fazer em Brasília? O encantamento persiste?

A poesia vem de tudo, até dos pilotis.

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