Publicidade

Correio Braziliense

Ministério Público do Trabalho cobra explicação por intoxicações em lavoura

Órgão recebeu denúncia contra três empresas após 21 casos de intoxicação em lavoura de soja na quarta-feira (14/3). Companhias têm 15 dias para se justificarem


postado em 21/03/2018 10:00 / atualizado em 21/03/2018 16:47

Trabalhadores foram atendidos por profissionais do Samu e do Corpo de Bombeiros após entrarem em lavoura de soja. Três deles estão hospitalizados(foto: Arquivo pessoal)
Trabalhadores foram atendidos por profissionais do Samu e do Corpo de Bombeiros após entrarem em lavoura de soja. Três deles estão hospitalizados (foto: Arquivo pessoal)

O Ministério Público do Trabalho da 10ª Região (MPT-10) deu início a um processo administrativo para investigar a conduta de três empresas associadas aos casos de intoxicação por pesticidas em trabalhadores de uma lavoura de soja. Na última quarta-feira (14/3), 21 pessoas deram entrada em hospitais públicos do DF com sintomas como dor de cabeça, inchaço em diversas partes do corpo, náuseas e vômito. 

Desde então, pelo menos 14 outros funcionários da plantação de soja – localizada próxima à BR-251, no Programa de Assentamento Dirigido do Distrito Federal (PAD-DF) – foram hospitalizados com sinais semelhantes. 

As investigações do Ministério Público do Trabalho estão em fase inicial,  mas o órgão já notificou as companhias DuPont do Brasil S. A., a Pioneer Sementes Ltda. – uma das empresas do grupo DuPont – e a prestadora de serviços JC&F Gestão e RH, responsável pela contratação dos trabalhadores. As três companhias têm 15 dias corridos para apresentarem justificativas ou para pedirem mais prazo para resposta.

Segundo o Correio apurou, as investigações começaram um dia após a divulgação dos casos em veículos de comunicação. Na quinta-feira (15/3), o MPT-10 recebeu uma denúncia a respeito do caso e enviou uma Notícia de Fato (NF) para as três companhias, solicitando explicações a respeito dos casos de intoxicação. O procurador do trabalho Raimundo Paulo Neto está à frente das investigações, mas não pôde conceder entrevista por estar de férias.

Ainda hospitalizados


Pacientes reclamam de inchaço em diferentes partes do corpo, náusea, vômito, dor de cabeça e fadiga muscular(foto: Arquivo pessoal)
Pacientes reclamam de inchaço em diferentes partes do corpo, náusea, vômito, dor de cabeça e fadiga muscular (foto: Arquivo pessoal)
Após idas e vindas em unidades de saúde pública e particular do DF, três trabalhadores permanecem hospitalizados no Hospital Santa Helena, na 516 Norte. Roberta Dias, 24 anos, recebeu, nesta terça-feira (20/3), um laudo médico que confirmou um quadro de intoxicação por inalação sem contato por manuseio. Ela está internada desde sábado e ainda não tem previsão de receber alta.

“Não souberam informar o nome do produto que causou. Antes, desconfiavam de que o problema pudesse afetar meus rins, mas essa possibilidade já foi descartada. Estou me alimentando melhor e parei de sentir náuseas, mas continuo com dores de cabeça e moleza no corpo”, relata Roberta. 

Mônica Oliveira, 28, conta que, desde o primeiro dia de manifestação dos sintomas nos trabalhadores, ela precisou ser hospitalizada três vezes. “Primeiramente fui atendida no Hospital do Paranoá, depois na Clínica CDC de Planaltina e estou desde ontem aqui no Santa Helena. Continuo com fraqueza nas pernas, náuseas, boca seca e muita dor de cabeça”, reclama.

O terceiro é Antônio Roberto de Oliveira, 30. Assim como Roberta e Mônica, ele trabalha na lavoura separando pés-de-soja de cores diferentes. Ele conta que desde quarta-feira (14/3) deu entrada em hospitais todos os dias. “Estou passando mal o tempo todo. Tudo o que como, eu vomito. Estou tomando um monte de remédios e estou com muita dor de cabeça. Um médico disse que é possível que seja intoxicação”, afirma Antônio Roberto.

Levantamento de informações


A Confederação Nacional dos Trabalhadores Assalariados e Assalariadas Rurais (Contar) está acompanhando o caso. De acordo com o assessor jurídico da entidade, Carlos Eduardo Chaves Silva, a Contag está fazendo um levantamento das informações apresentadas pelos trabalhadores para, primeiramente, descobrir os tipos de agrotóxicos utilizados. 

“Estamos aguardando os resultados dos laudos médicos porque, por enquanto, os pacientes só foram medicados. Em termos de estrutura, há uma limitação para identificar esses casos. Tivemos relatos de funcionários que afirmaram que um médico da empresa teria dito que os sintomas são psicológicos, como se eles estivessem inventando isso. Estamos nessa luta para descobrir qual foi o agrotóxico utilizado e qual foi a forma de aplicação”, comenta Carlos Eduardo.

Ainda de acordo com o assessor, a confederação aguarda um posicionamento das empresas responsáveis. “Dado o volume e a quantidade de trabalhadores com os sintomas, parece que houve uma falha. A questão é saber quem falhou. Vamos prestar assistência aos funcionários, mas também dependemos da disposição da empresa. Continuaremos coletando informações e aguardando explicações das companhias”, ressalta.

Por meio de nota, a Pioneer e a DuPont do Brasil se posicionaram afirmando que não foram notificadas a respeito da denúncia do MPT-10 e que estão acompanhando as investigações.
 
"A companhia esclarece que até o momento não foi notificada e informa que está acompanhando o caso de perto e prestando todo suporte a seus funcionários. As investigações necessárias estão em curso e é de interesse da empresa apurar a fundo o ocorrido e garantir a saúde e segurança de seus funcionários", informa o texto.
 
A reportagem tentou contato, por telefone, com os responsáveis pela JC&F, mas não foi atendida.

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade