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Correio Braziliense

Justiça retoma audiência de religiosos acusados de desvios em Formosa

Em 19 de março de 2018, religiosos vinculados à Diocese de Formosa foram presos acusados de desviar mais de R$ 2 milhões dos cofres da Igreja Católica


postado em 05/02/2019 20:03 / atualizado em 06/02/2019 15:00

Os religiosos são acusados de desviar o pagamento de dízimos, batizados, ofertas e de eventos realizados pelas 33 paróquias vinculadas à Diocese de Formosa(foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)
Os religiosos são acusados de desviar o pagamento de dízimos, batizados, ofertas e de eventos realizados pelas 33 paróquias vinculadas à Diocese de Formosa (foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)

O Tribunal de Justiça do estado de Goiás (TJGO) interrogou mais duas testemunhas de defesa dos religiosos acusados de desviar mais de R$ 2 milhões dos cofres da Igreja Católica. A audiência começou por volta das 8h30, no salão do Júri de Formosa (GO). Deflagrada em 19 de março de 2018, a Operação Caifás, do Ministério Público de Goiás (MPGO) resultou na acusação de 11 pessoas, incluindo o bispo da região, dom José Ronaldo Ribeiro, que renunciou ao cargo em 12 de setembro.  

Douglas Chegury, um dos promotores à frente do caso, explica que a defesa não conseguiu localizar duas testemunhas em Brasília e solicitou ao juiz para que houvesse a substituição delas, o que foi acatado. Como na audiência anterior, realizada em 9 de novembro, os interrogados falaram sobre a conduta dos réus e ressaltaram que eles eram pessoas de confiança.  

Agora, a próxima sessão está marcada para 29 de março, quando a defesa apresentará o padre João Assunção, pároco da Paróquia Santo Expedito de Formosa. De acordo com a investigação, o sacerdote deve ser a aposta dos advogados. Ele deve se contrapor ao depoimento dos outros padres que acusaram os religiosos durante as últimas sessões.  

Para Douglas, a próxima audiência deve ser a última que o juiz interrogará testemunhas de defesa. “Em março, o interrogatório dos réus deve começar. A expectativa é de que eles sejam ouvidos em dias consecutivos, sem grandes intervalos entre uma audiência e outra”, explica. Até a sessão, a defesa deve ter em mãos precatórias de Iaciara (GO) e Planaltina de Goiás, um dos motivos para grande intervalo entre as sessões.  

Além do bispo, são acusados: Thiago Wenseslau, juiz eclesiástico; Waldson José de Melo, pároco da Paróquia Sagrada Família, em Posse; Guilherme Frederico Magallhães, secretário da Cúria de Formosa; Darcivan da Conceição Serracena, funcionário da Diocese de Formosa; Edmundo da Silva Borges Junior, advogado da Diocese de Formosa; Pedro Henrique Costa Augusto e Antônio Rubens Ferreira, empresários apontados como laranjas do esquema; Mario Vieira de Brito, pároco da Paróquia São José Operário, em Formosa; Moacyr Santana, pároco da Catedral Nossa Senhora da Imaculada Conceição, em Formosa; Epitácio Cardozo Pereira, vigário-geral; e José Ronaldo Ribeiro, bispo de Formosa.    

O Correio entrou em contato com a defesa dos réus. Um dos advogados do grupo que representa os religiosos, Lucas Rivas, afirmou que não comentará o caso  

Papa aceita renúncia 

Em 12 de setembro deste ano, o bispo dom José Ronaldo Ribeiro, acusado de ser mentor do esquema, renunciou ao cargo. A Nunciatura Apostólica no Brasil comunicou a decisão, acatada pelo papa Francisco. Em 9 de setembro, a defesa de dom José solicitou ao juiz permissão para ele se mudar para Brasília, já que o TJGO havia decidido que o bispo não poderia sair da comarca de Formosa. A Justiça concedeu o pedido, e o réu se mudou para Sobradinho, onde residem familiares dele.      

Com a saída de dom José, o bispo interventor dom Paulo Mendes Peixoto assumiu a Diocese de Formosa como administrador apostólico. De acordo com a Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), ele acumulava duas funções e não deixará de realizar as pendências de Uberaba, onde atua como arcebispo.      

Mesmo com a renúncia, dom José permanece como bispo emérito. A Diocese de Formosa informou que a renúncia foi apenas do ofício de bispo e que ele ainda mantém o vínculo com a Igreja.     

Operação Caifás     

Deflagrada em 19 de março, a Operação Caifás, a cargo do Ministério Público do Estado de Goiás, investiga 11 pessoas por desvios de mais de R$ 2 milhões dos cofres da Igreja Católica. A suspeita é a de que eles tenham adquirido propriedades, veículos e joias com dinheiro pago pelos fiéis em casamentos, batizados e eventos promovidos pelas paróquias e cujos preços foram reajustados.      

Assim que a operação foi deflagrada, nove dos acusados permaneceram presos por quase 30 dias, mas, na terceira tentativa, conseguiram habeas corpus impetrado no TJGO. Eles respondem por apropriação indébita, associação criminosa e alguns por lavagem de dinheiro.     

Em 5 de setembro, advogados de seis dos réus encaminharam um pedido ao TJGO um pedido para cancelar a ação penal e impedir que o processo continue. A justificativa era de que a verba seria privada e os religiosos poderiam dar qualquer finalidade a elas. No entanto, em 11 de setembro, a desembargadora Carmecy Rosa Maria Alves de Oliveira indeferiu o pedido de forma preliminar. Agora, a liminar tramita na 2ª Vara Criminal de Formosa, onde o mérito será julgado.     

Entre as alegações dos advogados, está a afirmação de que a denúncia "é uma verdadeira peça de ficção produzida desde as investigações exclusivas realizadas pelo Ministério Público, como que buscando transformar atividades corriqueiras do exercício religioso e sua gestão interna em tipos penais alheios à atividade da Igreja Católica". 

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