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Correio Braziliense

O que se sabe sobre a morte de Luana, assassinada na frente das filhas

Grávida de três meses do quinto filho, Luana Bezerra da Silva, 28 anos, levou ao menos quatro facadas nas costas e uma, fatal, no pescoço. É a oitava vítima de feminicídio este ano no DF


postado em 15/04/2019 06:00 / atualizado em 15/04/2019 07:49

Luana Bezerra morreu com pelo menos quatro facadas nas costas e uma, no pescoço. Ela pediu ajuda ao irmão para fugir, mas não houve tempo(foto: Arquivo Pessoal)
Luana Bezerra morreu com pelo menos quatro facadas nas costas e uma, no pescoço. Ela pediu ajuda ao irmão para fugir, mas não houve tempo (foto: Arquivo Pessoal)
O Distrito Federal viveu um fim de semana de barbárie. Chacinasuspeita de estupro, homicídio e tentativa de homicídio. Pelo menos sete pessoas foram mortas na capital entre sexta-feira e ontem. Entre os crimes mais cruéis, o assassinato de uma mulher de 28 anos pelo companheiro em frente às duas filhas. Grávida de três meses do quinto filho, Luana Bezerra da Silva levou ao menos quatro facadas nas costas e uma, fatal, no pescoço — ela ainda tem marcas nos braços, que indicam luta corporal. O suspeito, Luiz Filipe Alves de Sousa, 20, fugiu e, até o fechamento desta edição, não havia sido preso. 

O crime, investigado pela 35ª Delegacia de Polícia (Sobradinho 2), ocorreu na Quadra AR 5, em Sobradinho 2. Conforme informações preliminares coletadas pela Polícia Civil, Luana e Luiz, que se relacionavam havia cerca de três anos, brigaram na noite de sábado. Entre 22h30 e 23h, o jovem estava na esquina de casa, em uma bicicleta, quando gritou com a vítima: “O que é que você quer, me perturbando de novo?”. Em resposta, a mulher, que estava com a filha do casal, Maria Luiza, de 1 ano e 3 meses, disse que “só queria entrar em casa com a minha menina”. Àquela noite, Luiz a ameaçou: “Você vai ver. Ainda me paga!”, esbravejou, segundo relatos de vizinhos.

Devido à desavença, Luana pediu ao único irmão, Daniel Bezerra da Silva, 31, por mensagem de WhatsApp, R$ 30 emprestados para ir embora da casa onde vivia com Luiz. O rapaz, entretanto, não conseguiu ajudá-la a tempo. “Eles tinham um relacionamento conturbado, com brigas frequentes. O Filipe também era um homem ciumento, mas nunca pude imaginar algo assim. Sinceramente, não tenho o que dizer, estou sem chão, sem nada. Perdi a única pessoa que estava comigo aqui em Brasília. Se eu tivesse dado o dinheiro, nada disso teria acontecido”, lamentou o irmão, que veio com Luana do município baiano de Bom Jesus da Lapa. 

A mulher foi atacada pelo marido por trás, quando terminava de servir almoço para as duas crianças. A filha dela, Letícia, de 9 anos, e a do casal, Maria Luiza, presenciaram a atrocidade. A mais velha chegou a correr à rua para pedir ajuda, enquanto gritava que Luiz havia matado a mãe dela. Um vizinho foi o primeiro a prestar socorro. Por mais de 20 minutos, Thales Ícaro Oliveira, 35, usou os conhecimentos de brigadista para tentar estancar o sangue das perfurações. “Ela só gemia de dor e tentava respirar. A única coisa que conseguiu falar ao irmão foi que estava com a sensação de que iria morrer”, contou.

Segundo informações do Corpo de Bombeiros, a jovem teve uma parada cardiorrespiratória ainda durante o atendimento dos militares. O quadro foi revertido pelos socorristas, que a levaram para o Hospital Regional de Sobradinho, onde deu entrada inconsciente. Luana morreu minutos depois. A mulher de 28 anos ainda era mãe de outros dois pequenos: Ryana, de 8 anos, que mora com a avó na Vila Buritis, em Planaltina; e Ryan, de 7 anos, que reside na Bahia. 

"Eles tinham um relacionamento conturbado, com brigas frequentes"
Irmão de Luana Bezerra da Silva, vítima de feminicídio 

Situação triste

O casal morava em um lote com duas casas — ficavam na residência dos fundos e a família do suspeito, na da frente. Vizinhos relataram ao Correio que as brigas do casal eram frequentes. Ontem, ouviram a gritaria, mas, acostumados com as desavenças, tentaram ajudar apenas quando a filha da moça pediu socorro. Os parentes de Luiz também não esperavam pelo crime bárbaro. 
“É uma situação triste para todos nós, tanto para a Luana, quanto para nós, que somos familiares do Luiz. A mãe dele está completamente desnorteada com tudo o que aconteceu. A culpa não é dela, pois tentou criá-lo do melhor modo, mas os filhos seguem os próprios passos. Dói a todos nós, porque são duas famílias destruídas”, desabafou uma parente do suspeito, que não quis ser identificada. 

Testemunhas contaram que as gritarias na casa eram constantes e só acreditaram que houve algo grave quando a filha da vítima gritou por socorro(foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
Testemunhas contaram que as gritarias na casa eram constantes e só acreditaram que houve algo grave quando a filha da vítima gritou por socorro (foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
Luiz detém histórico de registro policial. Em 2017, foi preso por tráfico de drogas e porte ilegal de arma de fogo de uso permitido. O suspeito, conhecido na região, se mudou para a rua havia pouco tempo. Moradores contaram que era um rapaz “tranquilo” e que jogaram bola com ele durante a infância. Depois de um tempo, porém, envolveu-se com tráfico e brigas de gangues. “Já tinha gente o ameaçando por conta desses envolvimentos”, segundo um dos relatos.

A Secretaria de Segurança Pública informou o registro, no primeiro trimestre do ano, de sete ocorrências de feminicídio no DF. No mesmo período de 2018, foram oito. A pasta destacou que, no consolidado do último ano, ocorreram 26 crimes de feminicídio. 
 
Testemunhas contaram que as gritarias na casa eram constantes e só acreditaram que houve algo grave quando a filha da vítima gritou por socorro(foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
Testemunhas contaram que as gritarias na casa eram constantes e só acreditaram que houve algo grave quando a filha da vítima gritou por socorro (foto: Ed Alves/CB/D.A Press)

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