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Correio Braziliense

Estratégia de transformar filmes em minisséries para TV é analisada em obra

A jornalista Juliana Sangion fez uma análise da influência da Globo Filmes dentro da programação da emissora


postado em 23/01/2019 06:15

Elis, que estreou nas telonas em 2016, teve uma versão de corte para a tevê com exibição na segunda semana de janeiro(foto: Globo Filmes/Divulgação)
Elis, que estreou nas telonas em 2016, teve uma versão de corte para a tevê com exibição na segunda semana de janeiro (foto: Globo Filmes/Divulgação)

Todo fim e início de ano, a Globo estreia em sua programação minisséries que são incorporadas à grade de férias da emissora. Apesar de serem vendidas como novas, algumas delas não são, de fato, inéditas. Parte desse conteúdo é, na verdade, um reaproveitamento do canal de longas-metragens da Globo Filmes, empresa vinculada à Rede Globo voltada para produções cinematográficas, em formato seriado.

Neste ano, as duas produções escolhidas para a programação foram  cinebiografias: Elis (2016), de Hugo Prata e protagonizada por Andréia Horta, que interpretou a cantora Elis Regina, e 10 segundos para vencer (2018), de José Alvarenga Jr e com atuações de Osmar Prado e Daniel Oliveira sobre a vida do lutador Éder Jofre. Os dois foram exibidos em formato de minissérie de terça a sexta-feira, entre 8 e 11 de janeiro, com um episódio de cada um seguido do outro.

Essa estratégia e tendência na programação da Globo foi alvo de estudo da jornalista e escritora Juliana Sangion, que durante o doutorado em multimeios na área de cinema, pela Unicamp, resolveu analisar o impacto da Globo Filmes nas relações entre televisão e cinema no Brasil, que deu origem ao livro lançado no ano passado, Vale a pena ver de novo?, pela Traçado Editorial. “Na época, a Globo Filmes estava no que podemos chamar de sua primeira fase, no início dos anos 2000, e havia causado grande burburinho no mercado, entre produtores e diretores”, lembra Juliana ao Correio.

“Lembro-me que ao conversar com meu então orientador, o cineasta Nuno César Pereira Abreu, ele me alertou para a dificuldade que seria abordar um tema “tão recente”, pois não teríamos o distanciamento necessário para analisar. Hoje, ao lançar o livro depois de duas décadas da Globo no mercado de cinema, vejo quão importante foi a pesquisa. Especialmente a partir de agora, com essa péssima notícia do fim do Ministério da Cultura, precisamos estar atentos ao tratamento que será dado ao cinema e ao audiovisual em nosso país”, completa a jornalista.

Obra


Na obra, que tem 280 páginas e um teor mais acadêmico, Juliana Sangion destrincha o universo da Globo Filmes, desde o funcionamento atrelado à TV Globo, e também as diferentes aproximações com a tevê. Seja com produções que foram para o cinema graças ao sucesso na televisão — a exemplo de O auto da compadecida e Caramuru, que eram minisséries antes de virarem filmes —, seja com filmes que depois do sucesso no cinema ganharam à telinha em formato de séries originais — como Carandiru e A mulher invisível —, ou ainda em longas-metragens que ganharam o formato televisivo apenas pela mudança dos cortes — como Entre irmãs e Serra Pelada.

Sobre esse método adotado pela Globo, Juliana analisa que existem pontos positivos e negativos. Para a emissora, ela aponta a facilidade: “Quando a Globo edita um filme para exibi-lo de modo seriado na tevê, ela faz um processo extremamente simples em audiovisual, que são os cortes. Então, ela ganha duas vezes: de um lado, praticamente não há custos de produção de outro, pode lhe render uma boa audiência e consequentemente ganhos com venda de espaços publicitários”. Em relação ao público, ela aponta a possibilidade de assistir a um filme de forma gratuita. “Há a facilidade de ver na tevê aberta um conteúdo que no cinema lhe obrigaria a pagar um ingresso caro, além de todos os outros custos dos shoppings (onde está a maior parte das salas de cinema hoje)”, completa.

Juliana Sangion: impacto das relações entre cinema e tevê nos últimos anos pela Globo(foto: Arquivo Pessoal)
Juliana Sangion: impacto das relações entre cinema e tevê nos últimos anos pela Globo (foto: Arquivo Pessoal)


Além disso, a pesquisadora acredita que essa é uma forma da emissora, que é a maior do país atualmente na tevê aberta, abrir o debate em relação ao setor audiovisual, que ainda tem suas restrições no Brasil. “Quando a maior emissora de televisão do país passa a atuar também no cinema, obrigatoriamente, passamos a discutir uma importante relação dentro do setor audiovisual e da produção de bens simbólicos: a relação entre cinema e televisão.

Entre os pontos negativos, a jornalista aponta a lógica de mercado da Globo Filmes, que investe muito mais em comédias, cinebiografias ou versões de algo que já existe. “A crítica que faço é que a Globo Filmes teria todas as condições para promover um cinema mais diverso e muito menos óbvio, além de especialmente conectado com padrões televisivos”, afirma. E ainda emenda: “Assim, por meio do livro, uma pergunta importante que proponho é se a entrada da Globo Filmes brindou o espectador brasileiro com maior diversidade estética, outras possibilidades narrativas, enfim, outros cinemas possíveis. Creio que, nesse sentido, a empresa poderia ter sido muito mais ousada”.

Tendência


Apesar de ter a Globo Filmes como foco, Juliana Sangion também propõe uma análise, mesmo que mais superficial, aos modelos adotados pelos serviços de streaming que estão se aproximando do cinema. Atualmente, basta ver o esforço da Netflix em fechar contratos com diretores e atores mais conhecidos pelo sucesso nas telonas. Recentemente, Sandra Bullock protagonizou Bird box, o filme de maior audiência da plataforma, visto por 80 milhões de usuários, e ainda Roma, do mexicano Alfonso Cuáron, indicado ao Oscar na categoria de melhor filme.

“Acho que é mais um espaço para muitos profissionais do audiovisual que se abre, não apenas atores, mas principalmente roteiristas e diretores. Acho que para a diversidade estética e de conteúdos é bem interessante”, explica.

Outras emissoras também tentam aos poucos se colocar no mercado. Tanto o SBT quanto a Record, em coprodução, levaram para as telonas filmes de novelas de sucesso. A emissora de Silvio Santos, com Carrossel, e a de Edir Macedo com Dez mandamentos. “As emissoras se deram conta da possibilidade de fidelização de público. No entanto, não vejo que elas tenham um departamento de cinema como estratégia de negócio, até porque dispõem de muito menos força produtiva, de divulgação e associação com grandes agentes do setor, mas usam os filmes fruto das novelas ou programas como fortalecimento de uma marca e da própria marca da emissora”, comenta Juliana Sangion.

Vale a pena ver de novo? O impacto dos vinte anos da Globo Filmes nas relações entre TV e cinema no Brasil
De Juliana Sangion. Traçado Editorial, 280 páginas. Preço médio: R$ 55.

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