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Correio Braziliense

Show homenageia a radialista Gabi Riot e arrecada fundos para a família

Gabriella Riot deixou sua marca como incansável divulgadora da cena independente, e morreu em outubro em decorrência de um câncer de mama. Dinheiro arrecadado ajudará nos custos funerários


postado em 28/11/2019 08:00 / atualizado em 28/11/2019 15:08

Gabi Riot teve a vida atravessada por grandes amizades músicas, sintetizadas pelo show no Zepelim, em que amigos tocam em sua homenagem e arrecadam fundos para a ajudar a família(foto: Saw Fllorêncio/Divulgação)
Gabi Riot teve a vida atravessada por grandes amizades músicas, sintetizadas pelo show no Zepelim, em que amigos tocam em sua homenagem e arrecadam fundos para a ajudar a família (foto: Saw Fllorêncio/Divulgação)
 
Radialista, produtora, escritora, poeta, militante e divulgadora da cena independente do rock em Brasília, a ceilandense Gabriella Riot, ou Gabi Riot, recebeu nesta quarta-feira (27/11), no Bar e Hamburgueria Zepelim, no Guará, uma homenagem das bandas Subinstante, Duna, Mestre Solar e dos cantores Bruno Z e Mariana Camelo. Todos eles tiveram as trajetórias atravessadas pela de Gabi, seja na forma de incentivo cultural, seja de uma grande amizade. O evento foi idealizado por Ana Paula Coelho.

Amizades regadas pela música e pela cultura do 'faça você mesmo' foram algumas marcas registradas de Gabriella, que morreu em 24 de outubro deste ano em decorrência de um câncer, que começou na mama e se espalhou pelo corpo. O show, além de homenagear a vida da amiga em comum, tem o propósito de arrecadar dinheiro para cobrir os custos dos procedimentos funerários. Além da cobrança de ingressos, haverá outras ações para arrecadar fundos, como um bazar e a rifa da guitarra da banda Dínamo Z. 

A cantora Mariana Camelo produzia, junto com a radialista, o evento Rock de Peito, que, além de valorizar o protagonismo feminino, tinha o propósito de arrecadar fundos para o tratamento de Gabi no Hospital do Câncer de Barretos, que ficava cada vez mais caro. "A gente foi pego de surpresa com essa partida dela, e, infelizmente — mas ao mesmo tempo felizmente, por certo ângulo — a grana que a gente arrecadou da última edição acabou indo para translado do corpo dela, que terminou a vida em Barretos, no hospital. Ela foi cremada e isso tudo gerou um custo, e a família dela teve dificuldade para quitar as dívidas, então resolvemos fazer esse evento", conta Mariana. “Desta vez, a programação do evento tem uma amplitude maior. Não é só protagonismo feminino: resolvemos chamar os amigos da Gabi, por exemplo o Maurício Kosak, que junto com as meninas da Pollyana is Dead (Denia Silva e Karla Machado) montou a banda Duna. Essa banda representa muito tudo que a Gabi amava e as pessoas que ela amava muito”, diz. 

Mariana Camelo e Bruno Z, em apresentações solo, abrirão concessões à pegada majoritariamente autoral do evento para tocar músicas de artistas que Gabi amava, como Pato Fu e Los Hermanos. O amor por estas bandas também trouxe muitas amizades e histórias para a vida de Gabi. Começando por Bruno Z. "Conheci a Gabi em 2003, em um show da minha banda, a Dínamo Z. O show aconteceu na Ceilândia, perto da casa dela", lembra Bruno. "Ela gostou muito da banda e, no final do show, veio falar comigo. A gente tinha acabado de tocar. A primeira pergunta que ela me fez, assim que a gente se conheceu, foi: Você pode tocar um Los Hermanos? Era show só de banda autoral. Aí eu peguei e toquei a música Último Romance, ao violão", detalha.  

Foi o início de uma importante e duradoura amizade. Trocaram telefone, depois telefonaram e decidiram sair para beber. A afinidade musical se transformou em afeto e, depois, em parceira. “A relação foi ficando mais forte com o passar do tempo, porque a gente gosta das mesmas coisas. Mas tínhamos muita coisa em comum além da afinidade musical. Ela me acrescentou muito porque, além de gostar da minha banda, ela quis ajudar minha banda na divulgação. Começou a me ajudar nos flyers e nas artes da banda e, com o tempo, a gente foi virando quase irmão”, conta Bruno. 
 
Ao lado do amigo Bruno Z, Gabriella fundou a rádio Maionese Alternativa, com a qual daria enorme contribuição à divulgação da cena independente no Distrito Federal(foto: Marcos Mendonça/Divulgação)
Ao lado do amigo Bruno Z, Gabriella fundou a rádio Maionese Alternativa, com a qual daria enorme contribuição à divulgação da cena independente no Distrito Federal (foto: Marcos Mendonça/Divulgação)
  
 

Maionese


Se Gabriella foi importante na vida de Bruno, ele também contribuiu na dela, que desde essa época, anonimamente, dava muita força para as bandas autorais da cidade com divulgação. Por volta de 2013, Bruno, que trabalhava em uma rádio do Paranoá que mais tarde viria a ser a Rádio Esplanada, e produzia conteúdos para rádios comunitárias como a agência Abraço (Associação Brasileira de Radiodifusão Comunitária), convidou Gabi para trabalhar com ele na parte de design gráfico e social mídia e, de quebra, aproveitar o espaço da rádio para tocar um programa de música alternativa. "Já que eu vou fazer um programa de rádio, eu vou chamar minha alma gêmea musical, que é a Gabi”, pensou Bruno, na ocasião. Ela, que adorava música e rádio, de prontidão aceitou. 

Faltava encontrar um nome para a rádio, e foi num momento de pura sintonia que este nome apareceu. "A gente queria alguma coisa com 'alternativo', pois a ideia era ser uma coisa meio lado b, com notícias musicais e quadros. A Gabi deu sugestões como 'biscoito alternativo', alguma coisa assim. A gente foi lanchar, aí a gente olhou para o vidro de maionese na mesa da lanchonete e os dois falaram juntos: 'maionese!' Aí o garçom falou: 'que sintonia! Vou trazer já já a maionese'. A gente já subiu do lanche, voltou para o estúdio, já fez um teste ao vivo e já fizemos uma divulgação meio de surpresa e assim começou a primeira Maionese Alternativa da história”, narra. 

Com o tempo e com a saída de Gabi da agência, ela passou a acumular cada vez mais funções e a se dedicar mais ao projeto, que migrou do programa na rádio comunitária para a própria rádio web e tornou-se uma espécie de selo de divulgação. "A Gabi começou a tomar conta da Maionese como produtora mesmo e a atribuir funções para si. Eu estava sem tempo, por trabalhar em outros projetos e ter outra profissão, e passei a ser mais um ajudante coidealizador”, lembra. 

Entre os músicos ajudados pelo selo estão Douglas Almeida, guitarrista da Duna, e Luís Moura, guitarrista da Subinstante, que se apresentaram no show de quarta. "Conheci a Gabi por volta de 2013. Demos um rolê pra ela conhecer minha filha, que tinha acabado de nascer, e ela ficou encantada. Tínhamos um gosto musical muito parecido, claro que tinha Nirvana envolvido (risos). Tínhamos até um projeto de montar uma banda juntos", conta Douglas. "Eu via a Gabi como uma pessoa dócil e empática, sempre adorável. Lembro que na época eu tocava ainda na Signo XIII, e demos uma entrevista pra ela e pro Bruno. Era uma pessoa fantástica, animada para ajudar o movimento do rock em Brasília, sempre criando projetos.”

Luís Moura tem uma lembrança parecida: "A gente não se viu muitas vezes pessoalmente, mas conversávamos muito pelas redes sociais. Ela sempre deu muito apoio pra nós, do Subinstante, e muitas outras bandas daqui do DF. Conversávamos sobre nossas músicas, ideias, sobre nosso trampo e vice-versa. Ela nos ajudou a cada lançamento de material novo, como também fazia com as demais bandas". Conta. 
 
(foto: Gabi Riot e Mariana Camelo: Amizade, força e Rock de Peito)
(foto: Gabi Riot e Mariana Camelo: Amizade, força e Rock de Peito)
 
Rock de Peito

O surgimento da amizade com Mariana Camelo também se deu de maneira semelhante às outras histórias. Mariana tinha acabado de lançar seu primeiro álbum quando Gabriella e Bruno, claro, a chamaram para dar uma entrevista no programa, ainda na Rádio Esplanada. “Sabe quando o santo já bate? Bateu na hora. A gente se identificou muito uma com a outra. Costumo dizer que meus melhores amigos me descobriram, e ela está entre essas pessoas. Ela divulgava muito meu som. Tudo que eu lançava ela já botava na rádio. A todos os shows que ela podia ir, ela ia, e sabia cantar as letras das minhas músicas todas, então ela era muito parceira" conta. 

Com o tempo, mais uma vez, a amizade musical se tornou uma irmandade afetiva. Mariana, que junto a Gabriella produziu os eventos We Can Rock It e Rock de Peito, produzidos após a descoberta do câncer, ressalta a força e a persistência de Gabi, que mesmo em meio às dificuldades jamais deixou de lutar pelo que acreditava. "Era uma das coisas que Gabi gostava muito. Ela apoiava muito a cena autoral, mas ela tinha muito essa veia feminista. Não é à toa que o nome dela era Gabi Riot (revolta, ou levante, em inglês), porque ela era muito fã no movimento riot grrrl, então ela sempre brigava e lutava muito por essa coisa do protagonismo feminino”.
 
O próprio nome do evento, Rock de Peito, é uma alusão ao problema do qual Gabriella foi acometida mas, sobretudo, à força com a qual ela encarava a vida. "A Gabi foi minha companheira até os últimos momentos da vida dela. É uma parceira para além da música. A música e a arte nos uniu, mas acabou que a gente conseguiu ultrapassar as barreiras do business e do trabalho para a vida. Sempre que ela ficava triste, ou se sentindo mal, ela falava comigo. Mas nos últimos momentos, eu fiquei doente e ela todo dia ficava me ligando, perguntando se eu tava bem, com todo aquele cuidado, muito preocupada”, ressalta. "A Gabi, desde sempre, militava pela causa do Outubro Rosa. Irônicamente, foi justamente um câncer que começou na mama que a levou", lamenta Bruno.

A fotógrafa Saw Florêncio declara que Gabriella era sua melhor amiga e também ressalta a força da radialista, que também gostava muito de escrever poemas. "Mesmo com todos os problemas de saúde, ela sempre esteve muito forte, nunca deixou que a doença a limitasse de nenhuma forma. Logo quando eu comecei a ter síndrome do pânico, eu ligava pra ela morrendo de chorar e ela sempre me animava, nunca estava triste, saca. Sempre entusiasmada com alguma coisa, com projetos, com a Maionese Alternativa e seus poemas. Ela escrevia muito", diz Saw.

A irmã de Gabriella, Cristiane P. S. Nobre, não teve a oportunidade de acompanhar os projetos da irmã, mas ressalta ainda a força da personalidade dela. "Eu não tinha muito envolvimento com a vida dela nos movimentos, devido ao trabalho e à correria do dia a dia, e por termos gostos muito diferentes. Ela gostava muito da noite, o que não era muito minha vibe, mas eu respeitava muito o gosto dela. Eu sei que ela foi uma pessoa muito importante na vida de muitas pessoas, influenciava muito essa parte do rock. O que eu posso dizer é que a Gabi era muito forte, muito intensa, muito defensora do que ela acreditava. Ela era muito intensa e feliz dentro do que ela defendia, do que ela gostava, tinha uma vibração muito gostosa", declara a irmã.
 
Gabi e Fernanda Takai, vocalista da banda Pato Fu: admiração e afeto(foto: Arquivo Pessoal)
Gabi e Fernanda Takai, vocalista da banda Pato Fu: admiração e afeto (foto: Arquivo Pessoal)
 

Sanduíche de isopor

Um dos momentos mais especiais da vida de Gabi, segundo seus amigos, foi o dia em que a cantora Fernanda Takai, da banda mineira Pato Fu, foi visitá-la na sua casa, na Ceilândia. "Foi lindo, foi mágico. Acho que foi uma das lembranças mais felizes da Gabi", afirma Mariana. 

Gabriella, que há não muito tempo havia descoberto o câncer que começou na mama mas já havia feito metástase para outras partes do corpo, estava de cama, muito mal, e, naquele dia, não poderia ir assistir ao show solo de Fernanda Takai em Brasília. "A Gabi sempre foi fã do Pato Fu, desde quando a gente se conheceu. É uma banda que a gente tem em comum. Ela é a maior fã do Pato Fu que já existiu, têm tudo, sabe tudo”, conta Bruno. "Ela tinha um afeto, não era só coisa de fã, de curtir a música. Ela realmente tinha um afeto pela banda", esclarece Camelo. 

A amizade com os ídolos começou neste dia em que Gabriella não poderia ir ao show, ela que não perdia nenhuma apresentação do grupo. Por iniciativa de uma das irmãs, que entrou em contato com a produção da banda e Fernanda Takai acabou por visitar Gabi na Ceilândia, na casa onde morava, e levou para ela um livro autografado. "Simplesmente a Gabi se emocionou muito. Ela me mandou um vídeo dizendo 'Bruno, cê não sabe quem tá aqui!'. E a Fernanda Takai me mandou um recado: 'Você vai tocar hoje, a Gabi não pode ir, mas segue firme!". 

Depois disso, Gabi passou a ter acesso livre ao camarim da banda e desenvolver uma certa amizade com os membros, que também davam uma força na divulgação do evento Rock de Peito. "Nos tempos que ela teve lá pras bandas de Barretos, ela conseguiu ir aos shows da banda, entrar no camarim. Ela levava presentes que ela mesma fazia, porque ela tinha essa veia artística muito forte, de fazer coisas de arte e design, que ela gostava muito”, lembra Mariana. 
 
O guitarrista John Ulhôa, do Pato Fu, conta um pouco das lembranças que tem de Gabriella: "Não me lembro exatamente o primeiro encontro, mas me lembro dela ser uma presença cada vez mais constante nos shows e também nas redes. Há alguns anos, quando ela começou seu tratamento, a Fernanda foi visitá-la. Em nosso último show que ela esteve, armamos dela assistir a passagem de som, pois estava sem condições de assistir junto à plateia. Eu tinha contato bem próximo dela pela internet, dava uma força nas campanhas pra ajudá-la e conversava assuntos aleatórios pelas redes também", conta o músico.

"Acho que a Gabi era dessas pessoas que sabe que é difícil mudar o mundo, mas que dá pra começar mudando o mundo à sua volta. Por isso, até hoje, continua a juntar em torno de sua figura pessoas legais, bandas  cheias de vontade e quem mais que use a criatividade como meio de vida. Ela capturou nossa simpatia logo de cara, com um ativismo musical que nos lembrava muito nosso início de carreira. Sentimos muito sua partida tão cedo. Acho que esse show vai ser uma bela celebração de sua atitude 'faça você mesmo'. Esse é o ponto. Viva a Gabi Riot!”, celebra John.

*Estagiário sob a Supervisão de Roberta Pinheiro. 


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