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Correio Braziliense

Como será o resgate de crianças e treinador presos em caverna na Tailândia

Embora tenham sido encontrados com vida, as crianças ainda têm um caminho perigoso à frente. É possível que eles tenham de aprender a mergulhar para sair do local e resgate pode durar meses


postado em 03/07/2018 12:53 / atualizado em 03/07/2018 14:46

Equipes reunidas em uma das entradas da caverna na Tailândia(foto: Lillian Suwanrumpha/AFP)
Equipes reunidas em uma das entradas da caverna na Tailândia (foto: Lillian Suwanrumpha/AFP)

O drama da equipe de futebol infantil presa em uma rede de cavernas inundadas na Tailândia ainda está longe de acabar. Embora tenham sido encontrados com vida por mergulhadores, nessa segunda-feira (2/7), os 13 integrantes da equipe Wild Boars (Javalis Selvagens) continuam ameaçados pela água, que sobe rapidamente e pode atingir o ponto em que estão abrigados. Para piorar a situação, as equipes de resgate estimam que a retiradas das crianças, com idades entre 11 e 16 anos, e do treinador, de 25, pode levar meses.

Foram nove dias de buscas até que os socorristas os encontrassem. Segundo o governador provincial de Chiang Rai, Narongsak Osottanakorn, os mergulhadores aproveitaram o breve período de tempo bom para avançar nas buscas. No entanto, houve um imprevisto: os socorristas esperavam encontrá-los em uma saída elevada conhecida como Pattaya Beach, mas o grupo foi obrigado a se abrigar a cerca de 400m acima da abertura, já que ela também ficou submersa.

Para impedir que a água os alcance, as equipes tem feito um trabalho de bombeamento constante, que tem surtido efeito. Mas há risco de que o tempo piore e a ação não surta mais efeito, por isso, há um trabalho intenso para que o regsate ocorra o quanto antes. O problema é a dificuldade de acesso, que tem feito alguns especialistas estimarem que o trabalho pode levar meses.

Mulher exibe em tablet foto das crianças: medo e fome(foto: Lillian Suwanrumpha/AFP)
Mulher exibe em tablet foto das crianças: medo e fome (foto: Lillian Suwanrumpha/AFP)

Os possíveis cenários do resgate

De imediato, a principal preocupação é que eles retomem a alimentação. Um grupo de médicos foi enviado para examinar os meninos e avaliar a capacidade deles para mergulhar. A Marinha Tailandesa afirma que uma equipe deve enviar alimentos suficientes para quatro meses, conforme declarou o comandante Anand Surawan, da Marinha tailandesa. A alimentação é essencial para que todos consigam restabelecer as forças, mas o processo deve ser progressivo, porque, de outro modo, eles podem sofrer náuseas, afirmam especialistas.

Após isso, há alguns possíveis caminhos para a retirada do grupo. O resgate imediato é descartado, já que só podem iniciar esta fase após a avaliação médica. Os jovens precisam ser treinados para percorrer mais de 4km de caminhos a pé ou submersos, com o uso de cilindros de oxigênio. Nesse caso, a principal preocupação é com o estado psicológico deles, para que não entrem em pânico no meio do percurso, colocando a própria vida e a dos mergulhadores socorristas em perigo.
 
"Fazer mergulho em cavernas é muito técnico e perigoso, especialmente para mergulhadores iniciantes. Por isso, pode ser melhor ajudá-los na caverna até que possam ser removidos por outros meios", analisa Anmar Mirza, coordenador da Comissão Nacional americana de Resgate Subterrâneo.

Um mergulhador veterano leva seis horas para percorrer essa distância, indicaram as equipes de resgate. No caso de um grupo inexperiente, a tarefa é arriscada principalmente por conta de trechos onde a visibilidade é quase nula, devido à água lamacenta.

Saída por cima da caverna

Após um estudo sobre a área do complexo de cavernas, as equipes de resgate detectaram a existência de vários poços na parte vertical. Segundo jornais locais, nos últimos dias, a floresta foi desmatada perto de um deles para permitir o pouso de helicópteros, o que poderia facilitar uma retirada por via aérea. O problema, até o momento, é que ainda não foi comprovado que quaisquer desses poços esteja ligado ao trecho da caverna onde a equipe está.

De volta ao começo

Para a Marinha Tailandesa, o melhor caminho para o resgate seria justamente o local por onde o grupo de adolescente e o treinador iniciaram o passeio, na entrada principal da caverna. No local, diversos especialistas, grande parte japoneses, ainda trabalham para drenar a água. Quanto mais baixo o nível de água, menos as crianças terão que percorrer com equipamento de mergulho. A questão é que os níveis de água tendem a aumentar ainda mais, já que a estação de chuvas acaba de começar. O complexo de cavernas, chamado de Tham Luan Nang, costuma ficar inundado durante o período de chuvas, que vai de setembro a outubro.

O estado psicológico das crianças precisa ser trabalhado para todas as alternativas de resgate. Imergir o corpo em água barrenta não é uma tarefa fácil, ainda mais para o caso de pessoas como as do Sudeste Asiático, especialmente nas áreas rurais, que geralmente não sabem nadar. Segundo o mergulhador belga Ben Reymenants, envolvido nas operações de resgate, os jovens estão mentalmente estáveis, o que é bom. "O treinador teve a presença de espírito para mantê-los apertados uns contra os outros", o que teve um efeito tranquilizador até agora. A prática da meditação é comum neste país budista, o que também pode ter ajudado as crianças a não entrarem em pânico durante esses longos dias de espera.


Britânicos são especialistas em resgates difíceis

Dois dos três mergulhadores voluntários britânicos que ajudaram a encontrar a equipe de futebol têm um histórico de resgates difíceis em todo o mundo, segundo Bill Whitehouse, do Conselho de Resgate em Cavernas, uma associação britânica de equipes de resgate nacional. Rick Stanton e John Volanthen, que trabalham como bombeiro e engenheiro de computação, respectivamente, percorreram um longo e sinuoso caminho através das cavernas inundadas para encontrar as 12 crianças e seu treinador. O terceiro britânico é Robert Harper.

Bill Whitehouse falou brevemente sobre as dificuldades da busca. Relatou que foi preciso mergulhar e nadar contra a corrente, em diversos momentos tendo que se agarrarem às paredes. O trecho de mergulho foi de cerca de 1,5km, metade dele completamente inundado, feito em cerca de três horas.

O bombeiro Rick Stanton contou a um jornal britânico, em 2012, que sua maior conquista foi resgatar seis soldados britânicos presos em cavernas no México. Ele e Volanthen também ajudaram em 2010 a encontrar Eric Establie, um experiente espeleólogo francês que ficou preso na região de Ardeche, no sul da França. Lamentavelmente, Establie faleceu.

Comunicação com os pais e luz

Enquanto as equipes de resgate esquematizam a melhor forma de retirar os jovens, outro grupo prevê, ao longo do dia, fazer a instalação de uma linha direta, de vários quilômetros de comprimentos, na galeria principal da caverna para que os meninos consigam se comunicar com o mundo exterior, especialmente com os pais, além de providenciar energia elétrica para o local. Um vídeo gravado pelos socorristas e publicado no Facebook mostra um grupo de meninos magros, vestidos com camisas de futebol sujas de lama, refugiados em uma saliência da caverna cercada pela água. As imagens, que comoveram o mundo, viralizaram na internet.

Ver galeria . 18 Fotos Lillian Suwanrumpha/AFP
(foto: Lillian Suwanrumpha/AFP )

Entenda o caso

O resgate dos jovens jogadores, com idade entre 11 e 16 anos, e o treinador, de 25, mobilizou o país e comove o mundo. Eles se aventuraram na noite de 23 de junho, após o treino, na caverna de Tham Luang, situada em uma zona de densa floresta tropical na fronteira com Mianmar e Lagos, mas não conseguiram deixar o local por conta da inundação. Especialistas da Austrália, Reino Unido, Japão e China, assim como 30 soldados americanos, se deslocaram até a remota região montanhosa, onde prestam apoio às equipes de resgate tailandesas.

A localização dos meninos provocou grande alegria na Tailândia, após vários dias difíceis de chuvas torrenciais. Nopparat Kantawong, o técnico principal do clube de futebol dos meninos, se disse convencido de que o esporte e o espírito de equipe foram fundamentais para sua sobrevivência. O caso, acompanhado ao vivo por toda a Tailândia, é considerado um milagre pela destreza do grupo em conseguir se manter vivo por tantos dias em condições tão complicadas.

Com informações da France Presse

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