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Correio Braziliense

Trump ameaça mobilizar Exército se protestos violentos continuarem nos EUA

O presidente Donald Trump incentivou os governadores dos EUA a serem mais agressivos contra manifestantes violentos após várias noites de violência nacional em resposta à morte de George Floyd


postado em 02/06/2020 10:05

O presidente dos EUA, Donald Trump (C), acena para os jornalistas quando ele volta à Casa Branca depois de posar para fotos em frente à Igreja Episcopal de São João, 1 de junho de 2020 em Washington, DC.(foto: CHIP SOMODEVILLA / GETTY IMAGES NORTH AMERICA / Getty Images via AFP)
O presidente dos EUA, Donald Trump (C), acena para os jornalistas quando ele volta à Casa Branca depois de posar para fotos em frente à Igreja Episcopal de São João, 1 de junho de 2020 em Washington, DC. (foto: CHIP SOMODEVILLA / GETTY IMAGES NORTH AMERICA / Getty Images via AFP)
O presidente americano, Donald Trump, prometeu restaurar a ordem nos Estados Unidos após a maior explosão de protestos em décadas pela morte de um homem negro nas mãos de um policial branco e anunciou que enviaria tropas às ruas de Washington, além de ameaçar os estados com a mobilização de militares, se a violência não ceder.

Uma semana depois da morte de George Floyd, um homem negro de 46 anos asfixiado por um policial branco que o imobilizou em Minneapolis, os protestos se espalharam de costa a costa do país e, desde domingo, degeneraram em distúrbios e saques.

Na segunda-feira, na capital Washington, D.C., foram registrados distúrbios nas imediações da Casa Branca, com destroços, incêndios provocados pelos manifestantes, bandeiras americanas em chamas e muros grafitados com palavras de ordem contra a polícia.

A residência presidencial ficou às escuras e o presidente teve de se abrigar em um bunker.

"O que aconteceu na cidade ontem à noite é uma desonra absoluta", disse Trump na Casa Branca, ao mesmo tempo em que a polícia dispersava um protesto a poucos metros do local.

Trump anunciou que mobilizará militares na capital para conter "os distúrbios, os saques, o vandalismo, os ataques e a destruição gratuita da propriedade".

"Estou enviando milhares e milhares de soldados fortemente armados", afirmou Trump, ameaçando as outras cidades com a mobilização do Exército para "arrumar rapidamente o problema", se não tomarem decisões para frear os protestos.

Pouco depois de a polícia dispersar os manifestantes reunidos do lado de fora da igreja de Saint John, um edifício histórico perto da Casa Branca, danificado no domingo à noite à margem do protesto, Trump caminhou até o local e foi fotografado com uma Bíblia nas mãos.

Joe Biden, que provavelmente será o candidato democrata a enfrentar Trump nas eleições presidenciais de 3 de novembro, acusou Donald Trump de "usar" o Exército "contra os americanos".

"Lançou gás lacrimogêneo contra manifestantes pacíficos e atirou balas de borracha. Para uma foto", tuitou Biden, que se dirigiu aos eleitores: "Por nossos filhos, pela alma do nosso país, devemos derrotá-lo".

A prefeita de Washington, Muriel Bowser, também denunciou uma dispersão "vergonhosa" que, segundo o governador do estado de Nova York, Andrew Cuomo, só serviu para oferecer ao presidente "uma sessão de fotos".

Em Bruxelas, o chefe da diplomacia europeia, Josep Borrell, disse que os países do bloco estavam "comovidos e consternados" com a morte de George Floyd. Ele se referiu ao episódio como um "abuso de poder", ao mesmo tempo em que pediu às sociedades que "controlem o uso excessivo da força" policial.

Toque de recolher ampliado
 
Em Washington e em Nova York, os prefeitos decidiram ampliar o toque recolher. Na capital, começou na segunda-feira às 19h locais (21h de Brasília). Passado este horário, dezenas de manifestantes foram detidos por desrespeitarem a determinação.

Em Nova York, a restrição começou a ser aplicada às 23h, mas o prefeito Bill de Blasio decidiu que nesta terça-feira o toque de recolher terá início às 20h locais, após os saques registrados.

Lojas das marcas Nike, Michael Kors, Lego e outras de aparelhos eletrônicos no centro de Manhattan foram atacadas por grupos de jovens na segunda-feira à noite.

"Apoiamos os protestos pacíficos na cidade, mas agora é o momento de voltar para casa. Há pessoas que estão nas ruas esta noite não para protestar, e sim para destruir propriedades e provocar danos a outros. Estas pessoas estão sendo detidas. Suas ações são inaceitáveis e, portanto, não vamos permiti-las na cidade", afirmou De Blasio.

Na segunda-feira, Trump responsabilizou a "esquerda radical" pelas mobilizações e criticou os governadores, chamando-os de "fracos" e exigindo que "se imponham".

Duas necropsias
 
Estes protestos ocorrem em um momento em que mais de 100 mil pessoas morreram nos Estados Unidos pelo novo coronavírus e em que as medidas tomadas para mitigar a pandemia aplicaram um duro golpe na economia americana em um ano eleitoral.

A epidemia teve um impacto devastador na comunidade negra, e alguns estudos mostram que esta população corre até três vezes mais riscos de morrer da doença do que os brancos.

"Temos filhos negros, irmãos negros, amigos negros e não queremos que morram", disse à AFP na localidade de Saint-Paul Muna Abdi uma manifestante negra de 31 anos.

"Estamos cansados de que isto se repita. Esta geração não vai permitir isso", afirmou.

A família de George Floyd divulgou na segunda-feira os resultados de uma segunda necropsia, que apontou que o policial provocou asfixia mecânica na vítima, contradizendo as conclusões de um exame preliminar.

Os resultados definitivos entregues pelas autoridades do condado de Hennepin também se alinharam a esta tese e determinaram que Floyd foi vítima de "homicídio", devido a uma "compressão no pescoço".

Também revelaram que a vítima tinha consumido fentanil, uma forte droga sintética.

As imagens da morte de George Floyd, depois de ser imobilizado pelo policial que pressionou o joelho contra seu pescoço durante nove minutos, causaram indignação na opinião pública.

Trump condenou a morte de Floyd, mas também se referiu aos manifestantes como "bandidos".

"Votem"
 
Em Minneapolis, o irmão do falecido visitou um memorial improvisado no local do crime.

Terrence Floyd pegou um megafone e disse: "Parem de pensar que nossas vozes não importam e votem". Ele também pediu o fim da violência.

No centro da polêmica está o tratamento judicial que o policial Derek Chauvin, que está preso, terá pela morte de Floyd. Ele foi denunciado por homicídio culposo e deveria ter se apresentado a um tribunal nesta segunda-feira, mas a audiência foi adiada pra 8 de junho.

Depois da divulgação de vídeo mostrando que outros policiais também mobilizaram o tronco e as pernas do falecido, os manifestantes pedem que os outros três agentes também sejam detidos. 

Em muitos protestos, os manifestantes ficaram de joelhos, repetindo um gesto popularizado por esportistas para denunciar a violência policial contra os negros nos Estados Unidos. Isso aconteceu na segunda-feira à noite em uma manifestação em Nova York. Os policiais apenas observaram o protesto.

Vários vídeos mostraram policiais em Santa Cruz, Califórnia, Nova Jersey e Michigan fazendo o gesto para dialogar com os manifestantes.

Em outras cidades, porém, unidades da tropa de choque e efetivos da Guarda Nacional foram mobilizados. A resposta foi acompanhada do uso de blindados para transportar os oficiais, assim como de bombas de gás lacrimogêneo e balas de borracha.

De Blasio, democrata, criticou o tom "belicoso" e a "retórica polarizadora" de Trump, que deseja a reeleição em novembro.

"Não foram suas declarações das últimas horas que provocaram tudo isto, e sim o que fez nos últimos anos", disse o prefeito.

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