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Correio Braziliense

Artigo: provocações amazônicas

Os brasileiros seguem sem definir a política para preservar, conquistar e manter mais da metade do território nacional


postado em 03/09/2019 07:00 / atualizado em 03/09/2019 07:48

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(foto: "No assunto Amazônia está na hora de decidir. E não de provocar" )
O surpreendente debate sobre a conservação da Amazônia, que apaixonou o mundo nos últimos dias, esconde mais do que explica. O presidente Emmanuel Macron, da França, fala em enviar recursos para a conservação da floresta. O presidente Bolsonaro diz que só aceitará depois de receber desculpas por ter sido chamado de mentiroso. O francês, na verdade, defende a agricultura francesa, ineficiente e dependente de subsídios do governo. Os produtores temem com a concorrência dos produtos agrícolas brasileiros, se o acordo entre a União Europeia e o Mercosul prosperar.

Jair Bolsonaro desconfia das organizações não governamentais. Entende que elas atuam na Amazônia em nome da defesa da floresta e do índio para, na verdade, pesquisar mais a existência de jazidas minerais que, por mera coincidência, ficam em reservas indígenas. São pontos de vista antagônicos que não devem alcançar o consenso nos próximos dias. As chuvas do final de ano vão acabar com o debate e apagar os incêndios. A floresta deverá se regenerar.

O mercado brasileiro é apetitoso para a indústria e produtores de vinhos franceses. Investidores daquele país estão estabelecidos há muito tempo no Brasil, como grandes supermercados e a indústria automobilística. No outro lado da mesa, a velha questão: os brasileiros são os responsáveis pela maior parte da Amazônia, mas nada fazem para impor sua soberania. Há muito tempo, os governos brasileiros hesitam entre preservar a Amazônia, avançar na colonização, como  fizeram os militares, ou manter tudo como está com objetivo de trazer turistas europeus para fotografar jacaré e pescar pirarucu.

O debate internacionalizou a Amazônia. A guerrilha do Araguaia, que ocorreu no sul do Pará nos anos 1970, teve efeitos colaterais. Despertou atenção do mundo para o conflito armado em plena selva. Naquela época, soldados norte-americanos estavam lutando no Vietnã numa floresta tropical semelhante à Amazônia. O perigo da internacionalização do conflito levou os militares a transferir regimentos inteiros do sudeste para o norte e criar, em Manaus, o Centro de Instrução de Guerra na Selva, unidade dedicada a enfrentar eventual conflito na região. 

O problema é que não há, no horizonte conhecido, algum projeto de política pública que possa ser tomado como referência. Nos Estados Unidos, depois que a França de Napoleão vendeu a Louisiana, no início do século 19, os colonizadores avançaram para o oeste. Desmataram as florestas, venderam madeira, mataram animais e exterminaram os índios. Criaram o modelo chamado plantation. É o exemplo norte-americano. Na Argentina, reproduziram o sistema na Patagônia. Desmataram e mataram. Franceses devastaram as colônias africanas. E mantêm até hoje uma colônia na América do Sul: a Guiana Francesa.   

Os brasileiros seguem sem definir a política para preservar, conquistar e manter mais da metade do território nacional. A rodovia entre Porto Velho e Manaus foi construída e inaugurada em 1976. Em seguida foi abandonada. A BR-319 precisa ser refeita. Organizações não governamentais não gostam do projeto por causa do desmatamento. Os proprietários das empresas de navegação gostam menos ainda. Elas ganham bom dinheiro transportando mercadorias de e para a Zona Franca.

Somente depois da Independência, a Amazônia passou a constituir território brasileiro. A região ficou esquecida por séculos. Foi redescoberta no período áureo da borracha, que terminou quando os ingleses contrabandearam sementes de seringueira para a Malásia. Até Henry Ford se aventurou na Amazônia, nas margens do Rio Tapajós, onde construiu a Fordlândia, nos anos 1920, numa gleba de um milhão de hectares. A empresa foi autorizada a explorar madeira, minérios, além da borracha. Não deu certo. Os norte-americanos, aliás, abriram a área promovendo grande incêndio.

O marechal Rondon, que andou pela região no início do século 20, detestava as missões salesianas. Ele as acusava de tomar a terra indígena em nome de Deus e alfabetizar os nativos em italiano. Há índios falando inglês e francês na Amazônia. Missionários continuam na área. As organizações não governamentais também. A ação dos garimpeiros ilegais é autoexplicativa. Há muito ouro na região. Incêndios decorrem de combustão espontânea, da ação dos índios — chamada coivara — de fazendeiros ou grileiros. A confusão de interesses contraditórios abre oportunidade para o governo definir a política de preservação da Amazônia. Está na hora de decidir. E não de provocar. 
 
*Jornalista

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