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Correio Braziliense

"Espero trabalhar sem medo", diz fotógrafa do Correio vítima de ataque

Fotógrafa integrava equipe atacada em frente à sede da CUT-DF na quinta-feira à noite. "Sou jornalista e apesar das diferenças de profissões, ideais religiosos e políticos, somos todos iguais", declarou também a repórter que acompanhava a fotógrafa na manifestação


postado em 06/04/2018 21:10 / atualizado em 06/04/2018 21:14

(foto: CB/D.A Press)
(foto: CB/D.A Press)
 

A fotógrafa do Correio que integrava a equipe atacada na noite de quinta-feira (6/4), em frente à sede da Central Única dos Trabalhadores do Distrito Federal (CUT-DF), no Setor de Diversões Sul, escreveu um depoimento sobre o episódio, no qual reivindica seu direito de trabalhar sem medo e lamenta ter presenciado um exemplo de extremismo.

 

A profissional, que pediu para não ter seu nome revelado, afirma ainda no texto que espera que "a censura e a falta de respeito estejam longe da rotina" dos profissionais de imprensa.

 

Leia a declaração das jornalistas:

Espero trabalhar sem medo

"Muitas vezes, ficamos sujeitos a ameaças e violências para as quais não estamos preparados, mas elas acontecem e nos atingem. Ontem, presenciei um exemplo claro de que o extremismo pode se manifestar em qualquer dos lados. 
 

Todo mundo sabe da minha admiração pelas lutas. E acredito que a luta por direitos deve continuar. Assim como a minha luta, que é o meu trabalho.
 

Escolhi minha profissão ciente dos riscos que ela representa, mas sempre busquei deixar o medo de lado. E é assim que gostaria de me manter: acreditando que não preciso do medo para trabalhar!
 

Só espero que, em tempos tão difíceis, a censura e a falta de respeito estejam longe da nossa rotina. Obrigada pelas mensagens de carinho. Eu estou bem."

Menos ódio, mais amor

"Sempre pensei que não fizesse parte deste mundo. Não no sentido de não colaborar para torná-lo melhor. Mas no sentido de não entender o ódio, a guerra e a intolerância. Na quinta-feira (5), pela primeira vez, experimentei na pele o ódio gratuito que veio em forma de violência e censura. Uma fotógrafa e eu fomos pautadas pelos editores do Correio Braziliense para realizar a cobertura de uma manifestação da CUT em Brasília, após a ordem de prisão do ex-presidente Lula ser expedida pelo juiz Sérgio Moro. Às 18h50 saímos da redação no carro do Correio, dirigido por um motorista experiente, parte do nosso trio diário.

Ao chegarmos em frente à sede da CUT, o motorista estacionou o carro. Fui a primeira a abrir a porta. Estava no banco de trás. Coloquei a ponta do pé no asfalto e em seguida ouvi alguém incitando os cerca de 30 manifestantes que ali estavam a atacarem o nosso veículo. Um grupo que estava à direita agiu prontamente e com passos agressivos já proferiam socos, chutes e murros nos vidros e no carro, no mesmo instante em que consegui fechar a porta.

Levamos alguns segundos para entender que estávamos sendo atacados. Os olhares através do vidro da janela eram vorazes. De cada soco, de cada investida escorria o ódio. Tivemos o carro cercado. Cada vez batiam mais forte. Pânico talvez seja a palavra que procuro. Enquanto calculava quanto de pancada o vidro ainda aguentaria, eis que ecoa um barulho do vidro quebrado da traseira do carro. Me abaixei o máximo que pude. Me senti totalmente desprotegida e indefesa naquele momento. A mercê. Os estilhaços voaram nas minhas costas, no meu cabelo, dentro da calça e por todo o banco. Um casaco jeans branco que eu usava ajudou providencialmente para que não houvesse machucados provenientes disso. 

Ainda no carro, gritei e chorei. O que mais viria? Pedras? Tremi e temi por todos. Pedi desesperadamente ao motorista para arrancar com o carro. Berrei como se a nossa vida dependesse daquilo. E talvez, dependesse. Isso deve ter se passado em menos de três minutos, não sei ao certo. Mas sem fugir do clichê, pareceu uma eternidade no inferno. O nosso motorista, o herói da noite, conseguiu deixar o local. Os “manifestantes” ainda correram atrás do carro. Para nossa sorte, portavamos capacete de segurança. 

Ao chegar na delegacia para registrar o B.O, sentei no murinho em frente e me permiti chorar como um bebê. Tomei uns 5 copos d’água seguidos na tentativa de me acalmar. A fotógrafa se manteve a medida do possível, muito mais calma do que eu. O motorista também. Poderia ter sido pior. Enquanto caminhava para prestar depoimento em uma das salas, os vidrinhos ainda caíam demonstrando que eu não havia me sacudido o suficiente para me livrar de todos eles. 

No entanto, não conseguimos fazer o que queríamos ter feito: O nosso trabalho jornalístico. O trabalho de informar a população. Fomos hostilizados. 

Sou jornalista e apesar das diferenças de profissões, ideais religiosos e políticos, somos todos iguais. No fundo, após um dia de trabalho, queremos voltar para casa, para a família ou para o cachorro. Queremos então também colocar a cabeça no travesseiro e dormir em paz. Coisa que não consegui fazer na tentativa de entender o que se passava na cabeça dessas pessoas. Desisti. Jamais entenderei.


Agradeço o apoio dos colegas jornalistas, das instituições de imprensa e a todos que manifestaram sua solidariedade e repúdio ao que sofremos. Também deixo aqui meu apoio aos canais de comunicação que sofreram ataques semelhantes.

Queremos o direito de trabalhar. Queremos o direito de ir e vir. Mais amor, menos ódio. Que as ideologias, aqui nesse caso, políticas, não transformem amigos em inimigos, ou ainda homens em animais. Que todos vivam em paz e respeitem o direito de pensar de cada um." 

Repúdio ao ataque

Desde a quinta-feira, autoridades e entidades ligadas à imprensa manifestaram repúdio ao ataque sofrido pelo Correioa outros atos de violência dirigidos a profissionais de outros veículos.

 

"Me solidarizo com os jornalistas alvos de absurdas agressões na noite de ontem em Brasília. A democracia exige de todos nós respeito às decisões judiciais e a imprensa, que é um dos pilares de nosso regime democrático", afirmou o governador Rodrigo Rollemberg.

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