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Correio Braziliense

Artigo: Muito além do apelido


postado em 05/04/2019 06:00 / atualizado em 05/04/2019 14:46

(foto: Cleia Viana/Câmara dos Deputados)
(foto: Cleia Viana/Câmara dos Deputados)
 
Apelidos fazem parte do anedotário da política brasileira. Há os que foram incorporados aos nomes, como Lula, Garotinho e tantos outros. Existem também os que ficaram famosos por estarem nas planilhas da Odebrecht, usados para que os funcionários do “baixo clero” da empreiteira não ficassem sabendo quem era o verdadeiro destinatário da propina, como Viagra, Aquático, Aspirina, Barbie, Maçaranduba, Garanhão, Kibe, etc. E aqueles dados com o intuito de desestabilizar o adversário.
 
O ex-governador Leonel Brizola era um mestre na arte do bullying da política. Os mais famosos cunhados pelo político gaúcho, morto em 2004, foram Gato Angorá, em referência ao sucessor Moreira Franco no governo do Rio; Sapo Barbudo, ao citar o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva na primeira disputa presidencial após a redemocratização; e Filhote da Ditadura, como chamava Paulo Maluf durante a mesma campanha eleitoral de 1989.
 
Na noite de quarta-feira, o plenário da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara registrou mais um desses momentos do anedotário da política nacional. A sessão destinada a ouvir o ministro da Economia, Paulo Guedes, precisou ser encerrada após o deputado Zeca Dirceu (PT-PR) fazer referências ao titular da equipe econômica de Jair Bolsonaro como “tchutchuca”, inspirado no refrão cantado pelo grupo de funk Bonde do Tigrão, que fez muito sucesso no início dos anos 2000. Durante pouco mais de um minuto, palavrões e xingamentos tomaram conta da CCJ, e o encontro do ministro com os congressistas acabou por ali.
 
O embate, entretanto, continuou nas redes sociais na noite de quarta-feira e seguiu por toda a quinta-feira. Defensores e críticos do governo de Jair Bolsonaro utilizaram o termo para valorizar ou atacar o ministro da Economia, que durante a campanha eleitoral já havia recebido a alcunha de “Posto Ipiranga”. Em meio a tudo isso, no entanto, acabaram ficando de lado os dados apresentados por Guedes, em um debate longo e cheio de informações técnicas, sobre o futuro das contas públicas do país.
 
Está mais do que claro para a sociedade civil que a reforma da Previdência é fundamental para o reequilíbrio das finanças do Estado brasileiro em suas três esferas: federal, estadual e municipal. Sem a mudança nas regras de aposentadoria, qualquer possibilidade de investimento ficará comprometida.
 
E o momento para discutir isso é agora. É preciso um pacto nacional para combater as desigualdades sociais e privilégios previdenciários, mas também devem ser ouvidas as vozes contrárias. Assim é o embate democrático. Governadores e aliados já fizeram chegar ao Planalto que concessões no texto da PEC precisarão ser feitas para existir a possibilidade de aprovação no Congresso. E saber reagir a provocações é uma das virtudes que os governistas precisarão ter. Ser chamado de “tchutchuca” é pouco, perto dos impropérios que costumam ser ditos nos microfones do Congresso. A discussão é outra, muito além de um apelido, que não passa de pirotecnia política.
 
 

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