A formação de um novo ciclone extratropical sobre o Sul do Brasil — o quarto a atingir a região apenas nos primeiros meses de 2026 — reforça uma percepção cada vez mais comum entre os moradores: esses fenômenos estão mais frequentes e intensos. A explicação para essa mudança, que tem impactado diretamente a vida de milhões de pessoas, está ligada ao aquecimento dos oceanos, um efeito direto das mudanças climáticas globais.
Ciclones extratropicais são sistemas de baixa pressão atmosférica que se formam fora das regiões tropicais. Eles nascem do contraste entre massas de ar com temperaturas e umidades diferentes, geralmente uma polar, fria e seca, e outra de origem tropical, quente e úmida. Esse encontro de opostos gera instabilidade e dá origem aos ventos fortes e às chuvas associadas ao fenômeno.
A conexão com as mudanças climáticas
O principal motor por trás da intensificação desses eventos é a temperatura da superfície do mar. Com o oceano Atlântico Sul registrando temperaturas acima da média histórica, a evaporação aumenta significativamente. Isso injeta mais vapor d’água na atmosfera, funcionando como um combustível que potencializa as tempestades, resultando em chuvas mais volumosas e ventos com maior poder destrutivo.
Estudos científicos corroboram essa percepção. Uma pesquisa da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), publicada na revista Atmosphere, apontou um crescimento anual de até 0,59% na densidade das trajetórias de ciclones na região entre 1970 e 2019. Além disso, eventos como a baixa recorde na extensão de gelo marinho na Antártica, registrada em 2025, contribuem para empurrar o cinturão de tempestades mais para o norte, na direção do Sul do Brasil.
O aquecimento global também altera os padrões de circulação atmosférica em larga escala. Essas mudanças podem influenciar a trajetória e a velocidade dos ciclones, fazendo com que eles atinjam o continente com mais frequência ou permaneçam por mais tempo sobre uma mesma área, o que agrava os riscos de inundações e alagamentos.
O que esperar para o futuro?
A tendência observada indica que eventos climáticos extremos, como os ciclones extratropicais, devem se tornar parte de uma nova realidade climática no Sul do Brasil. A combinação de um oceano mais aquecido e uma atmosfera com maior capacidade de reter umidade cria um cenário permanentemente favorável para a formação de sistemas meteorológicos mais severos.
Na prática, isso se traduz em um risco crescente de desastres naturais, como os que ocorreram recentemente nos estados do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina. A adaptação das cidades e a criação de sistemas de alerta mais eficientes tornam-se, portanto, medidas urgentes para proteger a população diante de um clima em constante transformação.







