Pode parecer um contrassenso, mas o Brasil, em sua busca por uma matriz energética mais limpa, tem sido forçado a “desligar” parte de suas usinas de energia eólica e solar. O motivo é um fenômeno conhecido como “geração excedente”, que ocorre quando se produz mais eletricidade do que a rede elétrica consegue consumir ou transportar naquele momento.
Essa situação acontece principalmente quando há uma combinação de baixa demanda de energia, como em fins de semana ou feriados, com condições climáticas favoráveis, como dias de muito vento ou sol intenso. A rede elétrica precisa operar em um equilíbrio constante entre o que é gerado e o que é consumido. Um excesso de oferta pode sobrecarregar o sistema e causar instabilidade ou até mesmo blecautes. Em 2026, a situação se intensificou: dados do ONS mostram que 17,2% da geração potencial de energia solar e eólica foi desperdiçada apenas no primeiro quadrimestre do ano.
Para evitar esse colapso, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) emite uma ordem para que algumas usinas, especialmente as eólicas e solares, reduzam ou interrompam sua produção temporariamente. Essa medida, embora necessária para a segurança do sistema, gera um efeito colateral financeiro significativo.
Qual o impacto para as empresas de energia eólica e solar?
Quando uma empresa geradora, como a CPFL Energia, é instruída a parar de produzir, ela deixa de vender essa energia e, consequentemente, de faturar. A energia que poderia ser gerada e vendida é simplesmente desperdiçada, pois sistemas de armazenamento em baterias ainda não estão disponíveis em escala suficiente para resolver o problema, embora empresas como Neoenergia e Enel já realizem testes com baterias de lítio no Nordeste.
O problema se intensifica com a expansão das fontes renováveis, sendo a região Nordeste — com alta concentração de usinas em estados como Bahia, Piauí, Ceará e Pernambuco — a mais afetada pelos cortes. Como a geração eólica e solar depende de fatores naturais e não pode ser controlada da mesma forma que uma hidrelétrica, a previsibilidade se torna mais complexa. Em dias de vento forte, a produção dispara, mas a demanda local pode não ser suficiente para absorver tudo.
A solução para este desafio não é frear a expansão da energia limpa, mas sim investir na modernização da infraestrutura. Isso inclui o fortalecimento das linhas de transmissão para levar a energia de onde é gerada para onde é consumida e o desenvolvimento de sistemas de armazenamento eficientes. O governo já sinaliza avanços nessa área, como a realização do primeiro leilão para contratação de armazenamento em baterias em abril de 2026. Sem esses avanços, o Brasil continuará a enfrentar o paradoxo de ter que desperdiçar energia limpa e barata.










